A Fome — Librenza Garcia

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A Fome

Sobre a mesa repousam cogumelos shiitake, castanhos, um pouco murchos. Pimentões de todas as cores – incluindo um creme (lembra tanto a coloração de um cadáver) e um vermelho vivo, lustroso como um nariz de palhaço. Cebola cortada em rodelas. O brilho nacarado de um filé fresco, finíssimo, com pequenas gotículas úmidas cor de rubi resplandecendo na superfície fatiada, deixando um rastro na tábua, uma trilha sinuosa de sangue, e o corpo da carne que se mexe como um fantoche molengo em suas mãos. Nabos, cebolinha, tomates, todos num frêmito de expectativa, aguardam seus respectivos turnos. O final de tarde luzidio enche de uma cintilação viscosa a cena; há uma profusão de odores, o carnaval dos condimentos, multicoloridos, acondicionados em seus potes, o ruído seco da faca, ciosa e vingativa, clivando sob a lei de Lavoisier suas vítimas, o ambiente e a atmosfera que escaparam de um quadro de Van Gogh: deveria haver girassóis em cima da mesa, no lugar onde agora estão essas frutas de plástico.

Minha esposa se chama Midori. Bem, não na verdade – apenas a chamarei assim. Está quase na hora da janta. Ela toma a faca em suas mãos (poderia cortar-me em fatias também, se o quisesse, tem muita presteza nos movimentos bruscos, parece uma açougueira). Em uma panela, aquece o óleo, e um cheiro de infância toma de assalto nosso apartamento, depois o dente de alho amassado se junta ao coro, depois os pequenos flocos de cebola, uma felicidade etérea quebrando no cais das narinas (sei que a metáfora é horrível), a fumaça invisível do calor distorcendo as formas mais próximas numa miragem gastronômica. Depois adiciona o arroz, que freme, que saltita, que se cora e se umedece como milhares de cadáveres jogados em uma vala metálica – um terrível, terrível holocausto – e depois a água, que sibila, chia, ergue uma cortina muito breve de vapor e depois volta a se calar, ou melhor, volta a se lamuriar, mas num tom mais brando, contido, provavelmente tendo já se acostumado a sua irreversível condição de cúmplice.

Midori cozinha todos os dias, magnificamente bem. Todos os seus pratos (e a variedade de influências é extensa, riquíssima: italiana, japonesa, tailandesa; qualquer cozinha e técnica ela domina) são absolutamente formidáveis, impossível não entregar-se de corpo (especialmente) e alma a seus quitutes. "Conquistou-me pelo estômago", como os antigos costumavam dizer, embora também fosse linda e inteligente quando nos conhecemos. E digo fosse, pois não saberia hoje julgar se ainda é linda ou se ainda é inteligente, ou se tudo não passou da ilusão dessa estação indefinida que chamamos amor ou juventude ou sonho, essa mistura que dá uma liga semelhante às misturas de bolo, que incha, que se transforma em outra coisa e, depois, fatiada, engolida às pressas, torna-se migalha e bandeja vazia. Como poderia saber? Acostumei-me. Talvez seja linda ou inteligente para os olhos e os pensamentos dos outros. Para mim, é apenas Midori, cozinhando um risoto, uma salada, escolhendo o vinho que tomaremos (um pinot noir chileno, provavelmente, apostaria minhas fichas nisso), polindo os talheres, organizando as taças. Se ela fosse substituída por um robô, mas a comida ainda me chegasse à mesa, quem sabe quanto tempo eu demoraria a perceber que ela se foi?

A mesa é posta de forma impecável. A toalha é de linho, branca, com lustrosos fios da mesma cor desenhando linhas austeras, sóbrias, que se cruzam como rodovias abandonadas, autobahns conduzindo a lugar nenhum. Os pratos, elípticos, com arabescos vermelhos de flores mal definidas, pequenas iluminuras infantis; o motivo foi ela que escolheu e eu apenas aquiesci; os talheres de prata, muito bem polidos, presente de casamento de algum parente seu que não lembro quem é, mas são tantos parentes, como posso lembrar. A taça de vinho e a taça de água formam um casal esquipático, aguardando a fluidez de uma alma que os preencha, mesmo que momentaneamente; mas, há que se convir, quem não aguarda isso?

"Em cerca de uma hora estará tudo pronto, querido", diz ela, a voz aveludada, o aroma de legumes e vegetais maduros, hálito de uma manga recém-devorada, o cheiro de fritura vívido e aspergido em todos os poros, o avental colocado sobre o elegante vestido azul-claro. O cabelo preso por uma tiara também azul, que já não lhe cai tão bem — agora com a idade, usar esse tipo de acessórios —, mas eu não comentaria nada para não arruinar uma refeição perfeita, afinal estes momentos têm sido os mais perfeitos, e por nada no mundo eu quebraria o selo de paz que vem com os aromas, as texturas e os sabores que inauguram a noite, para ser franco de graça. Meu estômago ronca, aprovando minha decisão. O silêncio é sempre a melhor saída.

Sorrio, beijo-lhe de leve os lábios, feito uma criança andando na ponta dos pés para não avisar os pais a respeito de sua fuga, cuidadosamente planejada, mas que então dá meia-volta e enfia-se novamente embaixo das cobertas, porque não saberia fugir, já que ninguém lhe ensinou nada, e ainda por cima tem preguiça e medo das consequências. Para que se dar ao trabalho de algo que não levará a nada? O barulho de coisas sendo fatiadas salta da cozinha, do calor dela, de sua superfície aquecida que cozinha nossas existências, deformando-as. Midori cantarola "Desafinado", de Tom Jobim, enche-a de intervalos; posso ouvi-la bebendo água, as cartilagens que formam a laringe dançando graciosas, cheias de vida, um murmúrio embargado de ânimo, "eu possuo apenas o que Deus me deu".

No almoço, havíamos comido salmão ao molho tártaro. Também ficara observando-a preparar tudo. Em meio aos cortes hábeis, ao carnaval cromático das verduras, à lividez dourada do óleo, ao sal caindo como neve sobre as postas, ao suco do limão digerindo o mau cheiro, havia também uma procissão de condimentos, ar constrito, impregnando de aromas a atmosfera alva da cozinha: cominho, açafrão, páprica, curry, pimentas das mais variadas espécies (havia a branca, a preta, a calabresa, a malagueta), cujo pó me fazia espirrar, mas cujo sabor transportava minha alma para o purgatório da espera, urgindo o paraíso que se desnaturava a poucos metros. Sim, pois foi um almoço divino, como tantos outros anteriormente. Já havíamos comido o mesmo prato, talvez? Quem sabe no ano passado. Ano passado, aliás, ela fez um cordeiro com alho e vinho tinto que era de lamber os beiços, simplesmente fenomenal. Quando será que irá repeti-lo? — se bem que a cada dia é uma nova surpresa e raramente nos decepcionamos; talvez aquela ocasião em que a mãe morreu e ela esqueceu-se do forno e chorou ao telefone e o suflê passou do ponto (embora, embora ainda assim tenha saído muito bem, apesar de eu haver almoçado sozinho, pois ela fora para a casa da irmã chorar a mãe morta), ou então aquela vez em que bebeu demais e, numa confusão de minutos, tirou o bolo um pouco mais cedo, e ele ficou um pouco cru no centro, coisa mínima, quase imperceptível, mas que ainda assim a deixou fula consigo mesma, repreendendo-se silenciosamente; sim, vejo pelo modo como as sobrancelhas arqueiam e uma das bochechas se ergue, contrafeita, como se a esquerda culpasse a direita: "veja só, eu lhe disse, eu avisei, eu avisei"; embora ambas soubessem que a culpa era dividida; mas o bolo, ainda assim, era um bolo de maracujá, ficou delicioso, como ela consegue?

Também nas sobremesas era impecável: ambrosia faz melhor que os próprios deuses, desmancha-se na boca e ao mesmo tempo estala nos dentes, adocicada, mas não enjoativa, de uma cor, digamos, saudável, nem sei que cor é (se vinho ou se castanha ou se acobreada ou se dourada); manjar de coco com ameixas, pudim de leite com calda abundante, arroz-doce – meu Deus, até no arroz-doce ela dá um toque de qualquer coisa suprema, que nem sei como distinguir senão repetindo à exaustão até que não sobre nada senão uma nostalgia da textura e o asilo da saciedade que logo se dissolvem em uma renovada e feroz fome. "Hoje não fiz sobremesa, tem problema?": não, não tem, problema nenhum, querida, você é sempre prestativa demais, não vou morrer se ficar hoje sem doce, minto eu, embora sinta cada vez mais fome e não me parecesse nada mal devorar uma de suas lascivas sobremesas lentamente enquanto o toca-discos cicia a Suite Bergamasque de Debussy com certa displicência, meus dentes executando um pianíssimo famélico e enlevado sobre os morangos e sobre a massa e o chantilly da torta, e eu tento sincronizar o tempo da partitura com o tempo da mandíbula, os músculos lisos e as papilas todos perfilados enquanto a boca rege a coisa toda, e o salão do esôfago e do estômago e do tubo digestivo inteiro reverberando com sua acústica gulosa.

Espio novamente a cozinha; finjo que vou beber um copo de água: hum, hum, o líquido translúcido se aconchega ao formato do cristal, tilinta entre meus dentes, é como se minha boca tomasse um banho para se purificar antes do bacanal, um estranho rito que serve para espreitar a janta que se apronta – "não vá estragar seu apetite", ela alerta, muito séria, mas de uma seriedade meio sorridente, maternal; não lembra nada minha mãe e cozinha muito melhor que ela, teria sido muito melhor se ela fosse minha mãe e minha mãe fosse minha esposa, quem sabe eu teria me sentido mais menino quando deveria ser menino e mais homem quando deveria ser homem, mas que diabo, a gente não escolhe essas coisas, se nem o cardápio eu escolho, e só a deixo decidir.

Tem os movimentos graciosos e leves, é como uma boneca frágil; como aguenta na beira do fogo, como mantém as mãos impecáveis, macias (bom, são tantos cremes, deve haver uns três só para as mãos), e o bom humor, e a disposição, e como é criativa para quase nunca repetir receitas, sempre inovar; parece que tem um demônio regendo os pensamentos; toda noite sinto que como cada vez mais, talvez tenha engordado, talvez nunca tenha sido magro, e talvez morra muito cedo porque ela usa muita manteiga e sal, mas, que se pode fazer, é isso que dá gosto à comida, e não a comida em si. Ah, e todo o açúcar, e o extrato de baunilha, e o leite condensado, e o chocolate em pó, que ela usa nos doces: sim, me parece que estou irremediavelmente perdido, e só de pensar nisso sinto ainda mais fome.

Agora sibila com doçura Chico Buarque, "e me beija com a boca de hortelã"; ah, sim, seu sorvete de chocolate com hortelã, aquele gosto que permanece fincado na boca e no espírito e depois habita as lembranças, refrescante como um banho gelado em um dia quente. Agora ela retirou o avental e me disse qualquer coisa amena, mas eu nem escutei, apenas sorri, brincando com o meu dedo indicador na borda do copo já vazio. Usa um batom vermelho como páprica, tem o cabelo aloirado, cachos dourados num arremedo de permanente, sempre diz ter trabalho com o cabelo, que era melhor que tivesse nascido com eles lisos, que daria vinte vezes menos trabalho, mas não, sabe que eu prefiro eles assim; verdade?; sim, combina com você, e ela agora me abraçou, muito amável, e deu um beijo no rosto, diz que vai fazer uma ligação para a irmã para combinar algo da janta de amanhã (jantaremos juntos, o que será que ela vai fazer? Vi que comprou farinha, carne de porco, muitos vegetais, mas sempre compra vegetais); será que vai comprar peixe ou camarão? O seu linguado com molho de camarão é magnífico, hum, nem lembro a última vez, mas me parece que não faz tempo, então não é provável que seja isso – bem, vou perguntar-lhe: massa ao pesto ou talvez uns canelones de ricota, pode ser?; ah, pode, pode sim!; nem havia considerado massas entre as opções; diz que tem uma prima na Itália e que os tomates de lá são os melhores; vou comprar um vinho italiano amanhã e levo (jantaremos na casa da irmã), o que acha?; maravilhoso, que bom, que bom.

Vai ao telefone; posso ouvi-la, mas me parece que sempre diz a mesma coisa, que toda noite é a mesma noite, o que muda é o cardápio, a única variável que conheço na vida, o resto é uma ou talvez várias constantes de uma vez só, um padrão como o da toalha de mesa, rígido, desabitado, cerzido para sempre do mesmo jeito, e só mudaria se trocasse a toalha toda, o que já não pode ser feito. Retornou do telefone, disse que a irmã mandou um beijo, está com saudade, mas como, se nos vimos não faz três dias? Ela ri, eu rio; coloca o par de luvas para proteger-se da forma fumegante, retira; já está sem avental, não vi quando o tirou; me diz para ir à mesa: opa, é para já.

Sento-me. A luz do castiçal poderia ser o próprio olho de Deus me invejando, numa miríade de fragmentos multicores que banham o pequeno império à minha frente; sento sempre na ponta, sinto-me um imperador e como feito um rei, isso sim; vou abrindo o vinho, pode ser?; pode, claro; já estou levando, já enchi as taças, mas ela toma só essa e depois para, já conheço. Então chega com a refratária, com o prato de salada: "desculpe mesmo não ter sobremesa, compenso fazendo o seu preferido..." – meu preferido? Qual é meu preferido, penso – "... amanhã, pode ser?"; pode, pode.

Ela sorri indicando que servirá meu prato; serve três generosas colheres, coloca a salada, a tempera com balsâmico e azeite de oliva; que cor bonita tem essa salada, deve estar ótima; outro sorriso; sorrisos são como vírgulas na vida, mas o que serão os pontos?; não vem ao caso, não; agora a primeira garfada já chega à boca e com ela um pedaço soberbo de shiitake dissipa a dúvida.

Toda a tensão de meu corpo esvanece, uma corda sendo desapertada de um violino, tudo escoando pelo ralo da alma, a ansiedade desaparece e é como se houvesse só eu e meus sentidos, aguçados, um animal selvagem inebriado rasgando o músculo da presa abatida, apenas eu e minha fome no mundo inteiro. Ela mastiga aos poucos, lembra um coelhinho, assim meio tímida, encolhida, observando-me de relance com os olhos secos e inexpressivos que de quando em quando jorram uma luz inesperada, iluminam-se de algum comentário que achou pertinente fazer, uma lembrança, alguma tarefa que precisa, pre-ci-sa lembrar de fazer amanhã, sem falta, e eu concordo, o ar grave e despreocupado, e duas garfadas depois já não sei do que estávamos falando. E assim, enquanto respondo entre dentes, meio sério, meio desatento, a porção em meu prato se esgota.

– Mais, por favor – clamo eu, estendendo o prato.

Ela, toda solícita, uma mãe satisfeita com o filho que num átimo recuperou o apetite após uma longa doença, ou que sempre foi macilento e franzino e abruptamente parece estar insaciável, coloca mais algumas colheradas do risoto, serve-me mais salada, preenche o copo com vinho rutilante; sinto-me embriagado e feliz e sóbrio de uma tristeza satisfeita, renovada. Devoro tudo com vontade, refestelo-me, apresso demais o passo – ela até parece preocupada, quer falar algo sobre meus modos, sobre não haver pressa, mas não consigo, preciso ingerir tudo rapidamente, tenho fome, tenho um apetite que segue num crescendo como se fosse uma sinfonia dramática, uma ária prestes a romper-se em seu momento crucial, corda tensionada de violino prestes a rebentar, a catarse triturada entre os molares, a epifania rasgada pelos caninos, lambuzando os incisivos, a língua que se arrasta como um staccato, o pizzicato de cada mastigação a servir de metrônomo: andante, allegretto, presto.

– Mais – estendo o prato vazio, novamente.

Apreensiva, ela o preenche; nunca me viu comer tanto, talvez desconfie de alguma coisa, saiba ou pense que algo está errado; já terminou há muito de comer (sempre se alimentou pouco, é magra, a figura é esbelta, embora certas partes do corpo comecem a ficar flácidas e sofram com a influência sinistra da gravidade; gosto mais de você assim, eu minto, ela finge que acredita, e a vida segue); parece um fantasma estendendo um pesadelo, mas não consigo parar, a textura, o aroma, tudo mistura-se numa amálgama perfeita; talvez nunca tenha sido tão feliz em toda minha vida, mas ao mesmo tempo me preocupa o fato de que a refeição acaba e a vida inevitavelmente volta, até a próxima vez, e que a próxima vez talvez não seja como essa; me assusta quantas horas ainda faltam; não, melhor não pensar nisso agora, não; preciso mastigar com cuidado, alongar esse sentimento, eriçar esses sentidos; é imperioso que o faça.

Mas após alguns minutos o prato volta a se esvaziar e, sem saída, conclamo, quase involuntariamente, autômato:

– Mais!

Ela enche meu prato. Voraz, repito tudo novamente. A comida está acabando; o que acontecerá quando não houver mais o que servir? Resta tão pouco risoto, apenas algumas folhas de salada e um resto de pimentão temperado com shoyu; o vinho também vai encontrando seu ponto final; ela quase não tocou nele – terei bebido sozinho? –; sinto, em alguma parte que não o estômago, que a coisa se encaminha para o seu grand finale.

– Mais – repito outra vez. Ela serve, ainda gentil, mas agora toda a comida terminou.

Ela olha-me desconfiada; nunca me viu comer tanto assim; olha com o mesmo faro com que o cachorro nota que o carteiro está chegando quadras antes, com que os velhos descobrem pelo formato das nuvens ou pelo gemido do vento quando choverá, ou se vai fazer geada, ou se vem ou não granizo, e então se cala, taciturna, observa, talvez tente mimetizar tranquilidade no respaldo da cadeira, na toalha branca, na noite encharcada de luzes débeis, num sonho bom, numa lembrança de infância (talvez o seio da mãe, nunca perguntei, mas tenho certeza de que ela foi amamentada por muito tempo), nas rugas do pai, nos filhos que nunca tivemos porque simplesmente nunca os quisemos: fariam muito barulho e ocupariam nosso tempo, e já não temos tanto tempo; no cardápio de amanhã (pesto ou canelone?); nas cortinas novas que ainda não ficaram prontas; nas canções que escutava dez anos atrás, como dançava, como amava, como tinha sonhos que lhe escapavam do controle como fogos de artifício, após o primeiro ser disparado, reação em cadeia natimorta, o ajuste fino dos beijos e carícias; e se talvez teve um amante ou mais, pouco me importa. Agora, não resta nada em nenhuma das bandejas; mas ainda tenho fome, tenho uma fome absurda, existencial; meu estômago não está cheio, minha alma não está cheia, não há uma só parte minha que tenha sido preenchida; e a culpa é dela, e a culpa é minha; vamos nos servir também da culpa e esgotá-la, raspá-la dos pratos e das panelas: tem certeza de que não sobrou nada do risoto, nada do almoço, nada de dez anos atrás, nada de minha infância, ou de nosso amor?

Categórico, estendo mais uma vez o prato à frente, fito seus olhos temerosos, a modulação de voz enérgica, um laivo indômito de insatisfação pungente adornando-me os lábios, a curva das sobrancelhas, os sulcos gastos do rosto, os gestos decididos e o estômago que ronca, sôfrego, destrutivo, ronca com o apetite de mil homens confinados em um só, um exército demoníaco que encontra o inimigo e todos estão em farrapos, e que se coagulam, se esterilizam e se fundem num só grito de ordem:

– Mais!