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Sobre a mesa repousam cogumelos shiitake, castanhos, um pouco murchos. Pimentões de todas as cores – incluindo um creme (lembra tanto a coloração de um cadáver) e um vermelho vivo, lustroso como um nariz de palhaço. Cebola cortada em rodelas. O brilho nacarado de um filé fresco, finíssimo, com pequenas gotículas úmidas cor de rubi resplandecendo na superfície fatiada, deixando um rastro na tábua, uma trilha sinuosa de sangue, e o corpo da carne que se mexe como um fantoche molengo em suas mãos. Nabos, cebolinha, tomates, todos num frêmito de expectativa, aguardam seus respectivos turnos. O final de tarde luzidio enche de uma cintilação viscosa a cena; há uma profusão de odores, o carnaval dos condimentos, multicoloridos, acondicionados em seus potes, o ruído seco da faca, ciosa e vingativa, clivando sob a lei de Lavoisier suas vítimas, o ambiente e a atmosfera que escaparam de um quadro de Van Gogh: deveria haver girassóis em cima da mesa, no lugar onde agora estão essas frutas de plástico.
Minha esposa se chama Midori. Bem, não na verdade – apenas a chamarei assim. Está quase na hora da janta. Ela toma a faca em suas mãos (poderia cortar-me em fatias também, se o quisesse, tem muita presteza nos movimentos bruscos, parece uma açougueira). Em uma panela, aquece o óleo, e um cheiro de infância toma de assalto nosso apartamento, depois o dente de alho amassado se junta ao coro, depois os pequenos flocos de cebola, uma felicidade etérea quebrando no cais das narinas (sei que a metáfora é horrível), a fumaça invisível do calor distorcendo as formas mais próximas numa miragem gastronômica. Depois adiciona o arroz, que freme, que saltita, que se cora e se umedece como milhares de cadáveres jogados em uma vala metálica – um terrível, terrível holocausto – e depois a água, que sibila, chia, ergue uma cortina muito breve de vapor e depois volta a se calar, ou melhor, volta a se lamuriar, mas num tom mais brando, contido, provavelmente tendo já se acostumado a sua irreversível condição de cúmplice.
Midori cozinha todos os dias, magnificamente bem. Todos os seus pratos (e a variedade de influências é extensa, riquíssima: italiana, japonesa, tailandesa; qualquer cozinha e técnica ela domina) são absolutamente formidáveis, impossível não entregar-se de corpo (especialmente) e alma a seus quitutes. "Conquistou-me pelo estômago", como os antigos costumavam dizer, embora também fosse linda e inteligente quando nos conhecemos. E digo fosse, pois não saberia hoje julgar se ainda é linda ou se ainda é inteligente, ou se tudo não passou da ilusão dessa estação indefinida que chamamos amor ou juventude ou sonho, essa mistura que dá uma liga semelhante às misturas de bolo, que incha, que se transforma em outra coisa e, depois, fatiada, engolida às pressas, torna-se migalha e bandeja vazia. Como poderia saber? Acostumei-me. Talvez seja linda ou inteligente para os olhos e os pensamentos dos outros. Para mim, é apenas Midori, cozinhando um risoto, uma salada, escolhendo o vinho que tomaremos (um pinot noir chileno, provavelmente, apostaria minhas fichas nisso), polindo os talheres, organizando as taças. Se ela fosse substituída por um robô, mas a comida ainda me chegasse à mesa, quem sabe quanto tempo eu demoraria a perceber que ela se foi?
A mesa é posta de forma impecável. A toalha é de linho, branca, com lustrosos fios da mesma cor desenhando linhas austeras, sóbrias, que se cruzam como rodovias abandonadas, autobahns conduzindo a lugar nenhum. Os pratos, elípticos, com arabescos vermelhos de flores mal definidas, pequenas iluminuras infantis; o motivo foi ela que escolheu e eu apenas aquiesci; os talheres de prata, muito bem polidos, presente de casamento de algum parente seu que não lembro quem é, mas são tantos parentes, como posso lembrar. A taça de vinho e a taça de água formam um casal esquipático, aguardando a fluidez de uma alma que os preencha, mesmo que momentaneamente; mas, há que se convir, quem não aguarda isso?
"Em cerca de uma hora estará tudo pronto, querido", diz ela, a voz aveludada, o aroma de legumes e vegetais maduros, hálito de uma manga recém-devorada, o cheiro de fritura vívido e aspergido em todos os poros, o avental colocado sobre o elegante vestido azul-claro. O cabelo preso por uma tiara também azul, que já não lhe cai tão bem — agora com a idade, usar esse tipo de acessórios —, mas eu não comentaria nada para não arruinar uma refeição perfeita, afinal estes momentos têm sido os mais perfeitos, e por nada no mundo eu quebraria o selo de paz que vem com os aromas, as texturas e os sabores que inauguram a noite, para ser franco de graça. Meu estômago ronca, aprovando minha decisão. O silêncio é sempre a melhor saída.
Sorrio, beijo-lhe de leve os lábios, feito uma criança andando na ponta dos pés para não avisar os pais a respeito de sua fuga, cuidadosamente planejada, mas que então dá meia-volta e enfia-se novamente embaixo das cobertas, porque não saberia fugir, já que ninguém lhe ensinou nada, e ainda por cima tem preguiça e medo das consequências. Para que se dar ao trabalho de algo que não levará a nada? O barulho de coisas sendo fatiadas salta da cozinha, do calor dela, de sua superfície aquecida que cozinha nossas existências, deformando-as. Midori cantarola "Desafinado", de Tom Jobim, enche-a de intervalos; posso ouvi-la bebendo água, as cartilagens que formam a laringe dançando graciosas, cheias de vida, um murmúrio embargado de ânimo, "eu possuo apenas o que Deus me deu".
No almoço, havíamos comido salmão ao molho tártaro. Também ficara observando-a preparar tudo. Em meio aos cortes hábeis, ao carnaval cromático das verduras, à lividez dourada do óleo, ao sal caindo como neve sobre as postas, ao suco do limão digerindo o mau cheiro, havia também uma procissão de condimentos, ar constrito, impregnando de aromas a atmosfera alva da cozinha: cominho, açafrão, páprica, curry, pimentas das mais variadas espécies (havia a branca, a preta, a calabresa, a malagueta), cujo pó me fazia espirrar, mas cujo sabor transportava minha alma para o purgatório da espera, urgindo o paraíso que se desnaturava a poucos metros. Sim, pois foi um almoço divino, como tantos outros anteriormente. Já havíamos comido o mesmo prato, talvez? Quem sabe no ano passado. Ano passado, aliás, ela fez um cordeiro com alho e vinho tinto que era de lamber os beiços, simplesmente fenomenal. Quando será que irá repeti-lo? — se bem que a cada dia é uma nova surpresa e raramente nos decepcionamos; talvez aquela ocasião em que a mãe morreu e ela esqueceu-se do forno e chorou ao telefone e o suflê passou do ponto (embora, embora ainda assim tenha saído muito bem, apesar de eu haver almoçado sozinho, pois ela fora para a casa da irmã chorar a mãe morta), ou então aquela vez em que bebeu demais e, numa confusão de minutos, tirou o bolo um pouco mais cedo, e ele ficou um pouco cru no centro, coisa mínima, quase imperceptível, mas que ainda assim a deixou fula consigo mesma, repreendendo-se silenciosamente; sim, vejo pelo modo como as sobrancelhas arqueiam e uma das bochechas se ergue, contrafeita, como se a esquerda culpasse a direita: "veja só, eu lhe disse, eu avisei, eu avisei"; embora ambas soubessem que a culpa era dividida; mas o bolo, ainda assim, era um bolo de maracujá, ficou delicioso, como ela consegue?
Também nas sobremesas era impecável: ambrosia faz melhor que os próprios deuses, desmancha-se na boca e ao mesmo tempo estala nos dentes, adocicada, mas não enjoativa, de uma cor, digamos, saudável, nem sei que cor é (se vinho ou se castanha ou se acobreada ou se dourada); manjar de coco com ameixas, pudim de leite com calda abundante, arroz-doce – meu Deus, até no arroz-doce ela dá um toque de qualquer coisa suprema, que nem sei como distinguir senão repetindo à exaustão até que não sobre nada senão uma nostalgia da textura e o asilo da saciedade que logo se dissolvem em uma renovada e feroz fome. "Hoje não fiz sobremesa, tem problema?": não, não tem, problema nenhum, querida, você é sempre prestativa demais, não vou morrer se ficar hoje sem doce, minto eu, embora sinta cada vez mais fome e não me parecesse nada mal devorar uma de suas lascivas sobremesas lentamente enquanto o toca-discos cicia a Suite Bergamasque de Debussy com certa displicência, meus dentes executando um pianíssimo famélico e enlevado sobre os morangos e sobre a massa e o chantilly da torta, e eu tento sincronizar o tempo da partitura com o tempo da mandíbula, os músculos lisos e as papilas todos perfilados enquanto a boca rege a coisa toda, e o salão do esôfago e do estômago e do tubo digestivo inteiro reverberando com sua acústica gulosa.
Espio novamente a cozinha; finjo que vou beber um copo de água: hum, hum, o líquido translúcido se aconchega ao formato do cristal, tilinta entre meus dentes, é como se minha boca tomasse um banho para se purificar antes do bacanal, um estranho rito que serve para espreitar a janta que se apronta – "não vá estragar seu apetite", ela alerta, muito séria, mas de uma seriedade meio sorridente, maternal; não lembra nada minha mãe e cozinha muito melhor que ela, teria sido muito melhor se ela fosse minha mãe e minha mãe fosse minha esposa, quem sabe eu teria me sentido mais menino quando deveria ser menino e mais homem quando deveria ser homem, mas que diabo, a gente não escolhe essas coisas, se nem o cardápio eu escolho, e só a deixo decidir.
Tem os movimentos graciosos e leves, é como uma boneca frágil; como aguenta na beira do fogo, como mantém as mãos impecáveis, macias (bom, são tantos cremes, deve haver uns três só para as mãos), e o bom humor, e a disposição, e como é criativa para quase nunca repetir receitas, sempre inovar; parece que tem um demônio regendo os pensamentos; toda noite sinto que como cada vez mais, talvez tenha engordado, talvez nunca tenha sido magro, e talvez morra muito cedo porque ela usa muita manteiga e sal, mas, que se pode fazer, é isso que dá gosto à comida, e não a comida em si. Ah, e todo o açúcar, e o extrato de baunilha, e o leite condensado, e o chocolate em pó, que ela usa nos doces: sim, me parece que estou irremediavelmente perdido, e só de pensar nisso sinto ainda mais fome.
Agora sibila com doçura Chico Buarque, "e me beija com a boca de hortelã"; ah, sim, seu sorvete de chocolate com hortelã, aquele gosto que permanece fincado na boca e no espírito e depois habita as lembranças, refrescante como um banho gelado em um dia quente. Agora ela retirou o avental e me disse qualquer coisa amena, mas eu nem escutei, apenas sorri, brincando com o meu dedo indicador na borda do copo já vazio. Usa um batom vermelho como páprica, tem o cabelo aloirado, cachos dourados num arremedo de permanente, sempre diz ter trabalho com o cabelo, que era melhor que tivesse nascido com eles lisos, que daria vinte vezes menos trabalho, mas não, sabe que eu prefiro eles assim; verdade?; sim, combina com você, e ela agora me abraçou, muito amável, e deu um beijo no rosto, diz que vai fazer uma ligação para a irmã para combinar algo da janta de amanhã (jantaremos juntos, o que será que ela vai fazer? Vi que comprou farinha, carne de porco, muitos vegetais, mas sempre compra vegetais); será que vai comprar peixe ou camarão? O seu linguado com molho de camarão é magnífico, hum, nem lembro a última vez, mas me parece que não faz tempo, então não é provável que seja isso – bem, vou perguntar-lhe: massa ao pesto ou talvez uns canelones de ricota, pode ser?; ah, pode, pode sim!; nem havia considerado massas entre as opções; diz que tem uma prima na Itália e que os tomates de lá são os melhores; vou comprar um vinho italiano amanhã e levo (jantaremos na casa da irmã), o que acha?; maravilhoso, que bom, que bom.
Vai ao telefone; posso ouvi-la, mas me parece que sempre diz a mesma coisa, que toda noite é a mesma noite, o que muda é o cardápio, a única variável que conheço na vida, o resto é uma ou talvez várias constantes de uma vez só, um padrão como o da toalha de mesa, rígido, desabitado, cerzido para sempre do mesmo jeito, e só mudaria se trocasse a toalha toda, o que já não pode ser feito. Retornou do telefone, disse que a irmã mandou um beijo, está com saudade, mas como, se nos vimos não faz três dias? Ela ri, eu rio; coloca o par de luvas para proteger-se da forma fumegante, retira; já está sem avental, não vi quando o tirou; me diz para ir à mesa: opa, é para já.
Sento-me. A luz do castiçal poderia ser o próprio olho de Deus me invejando, numa miríade de fragmentos multicores que banham o pequeno império à minha frente; sento sempre na ponta, sinto-me um imperador e como feito um rei, isso sim; vou abrindo o vinho, pode ser?; pode, claro; já estou levando, já enchi as taças, mas ela toma só essa e depois para, já conheço. Então chega com a refratária, com o prato de salada: "desculpe mesmo não ter sobremesa, compenso fazendo o seu preferido..." – meu preferido? Qual é meu preferido, penso – "... amanhã, pode ser?"; pode, pode.
Ela sorri indicando que servirá meu prato; serve três generosas colheres, coloca a salada, a tempera com balsâmico e azeite de oliva; que cor bonita tem essa salada, deve estar ótima; outro sorriso; sorrisos são como vírgulas na vida, mas o que serão os pontos?; não vem ao caso, não; agora a primeira garfada já chega à boca e com ela um pedaço soberbo de shiitake dissipa a dúvida.
Toda a tensão de meu corpo esvanece, uma corda sendo desapertada de um violino, tudo escoando pelo ralo da alma, a ansiedade desaparece e é como se houvesse só eu e meus sentidos, aguçados, um animal selvagem inebriado rasgando o músculo da presa abatida, apenas eu e minha fome no mundo inteiro. Ela mastiga aos poucos, lembra um coelhinho, assim meio tímida, encolhida, observando-me de relance com os olhos secos e inexpressivos que de quando em quando jorram uma luz inesperada, iluminam-se de algum comentário que achou pertinente fazer, uma lembrança, alguma tarefa que precisa, pre-ci-sa lembrar de fazer amanhã, sem falta, e eu concordo, o ar grave e despreocupado, e duas garfadas depois já não sei do que estávamos falando. E assim, enquanto respondo entre dentes, meio sério, meio desatento, a porção em meu prato se esgota.
– Mais, por favor – clamo eu, estendendo o prato.
Ela, toda solícita, uma mãe satisfeita com o filho que num átimo recuperou o apetite após uma longa doença, ou que sempre foi macilento e franzino e abruptamente parece estar insaciável, coloca mais algumas colheradas do risoto, serve-me mais salada, preenche o copo com vinho rutilante; sinto-me embriagado e feliz e sóbrio de uma tristeza satisfeita, renovada. Devoro tudo com vontade, refestelo-me, apresso demais o passo – ela até parece preocupada, quer falar algo sobre meus modos, sobre não haver pressa, mas não consigo, preciso ingerir tudo rapidamente, tenho fome, tenho um apetite que segue num crescendo como se fosse uma sinfonia dramática, uma ária prestes a romper-se em seu momento crucial, corda tensionada de violino prestes a rebentar, a catarse triturada entre os molares, a epifania rasgada pelos caninos, lambuzando os incisivos, a língua que se arrasta como um staccato, o pizzicato de cada mastigação a servir de metrônomo: andante, allegretto, presto.
– Mais – estendo o prato vazio, novamente.
Apreensiva, ela o preenche; nunca me viu comer tanto, talvez desconfie de alguma coisa, saiba ou pense que algo está errado; já terminou há muito de comer (sempre se alimentou pouco, é magra, a figura é esbelta, embora certas partes do corpo comecem a ficar flácidas e sofram com a influência sinistra da gravidade; gosto mais de você assim, eu minto, ela finge que acredita, e a vida segue); parece um fantasma estendendo um pesadelo, mas não consigo parar, a textura, o aroma, tudo mistura-se numa amálgama perfeita; talvez nunca tenha sido tão feliz em toda minha vida, mas ao mesmo tempo me preocupa o fato de que a refeição acaba e a vida inevitavelmente volta, até a próxima vez, e que a próxima vez talvez não seja como essa; me assusta quantas horas ainda faltam; não, melhor não pensar nisso agora, não; preciso mastigar com cuidado, alongar esse sentimento, eriçar esses sentidos; é imperioso que o faça.
Mas após alguns minutos o prato volta a se esvaziar e, sem saída, conclamo, quase involuntariamente, autômato:
– Mais!
Ela enche meu prato. Voraz, repito tudo novamente. A comida está acabando; o que acontecerá quando não houver mais o que servir? Resta tão pouco risoto, apenas algumas folhas de salada e um resto de pimentão temperado com shoyu; o vinho também vai encontrando seu ponto final; ela quase não tocou nele – terei bebido sozinho? –; sinto, em alguma parte que não o estômago, que a coisa se encaminha para o seu grand finale.
– Mais – repito outra vez. Ela serve, ainda gentil, mas agora toda a comida terminou.
Ela olha-me desconfiada; nunca me viu comer tanto assim; olha com o mesmo faro com que o cachorro nota que o carteiro está chegando quadras antes, com que os velhos descobrem pelo formato das nuvens ou pelo gemido do vento quando choverá, ou se vai fazer geada, ou se vem ou não granizo, e então se cala, taciturna, observa, talvez tente mimetizar tranquilidade no respaldo da cadeira, na toalha branca, na noite encharcada de luzes débeis, num sonho bom, numa lembrança de infância (talvez o seio da mãe, nunca perguntei, mas tenho certeza de que ela foi amamentada por muito tempo), nas rugas do pai, nos filhos que nunca tivemos porque simplesmente nunca os quisemos: fariam muito barulho e ocupariam nosso tempo, e já não temos tanto tempo; no cardápio de amanhã (pesto ou canelone?); nas cortinas novas que ainda não ficaram prontas; nas canções que escutava dez anos atrás, como dançava, como amava, como tinha sonhos que lhe escapavam do controle como fogos de artifício, após o primeiro ser disparado, reação em cadeia natimorta, o ajuste fino dos beijos e carícias; e se talvez teve um amante ou mais, pouco me importa. Agora, não resta nada em nenhuma das bandejas; mas ainda tenho fome, tenho uma fome absurda, existencial; meu estômago não está cheio, minha alma não está cheia, não há uma só parte minha que tenha sido preenchida; e a culpa é dela, e a culpa é minha; vamos nos servir também da culpa e esgotá-la, raspá-la dos pratos e das panelas: tem certeza de que não sobrou nada do risoto, nada do almoço, nada de dez anos atrás, nada de minha infância, ou de nosso amor?
Categórico, estendo mais uma vez o prato à frente, fito seus olhos temerosos, a modulação de voz enérgica, um laivo indômito de insatisfação pungente adornando-me os lábios, a curva das sobrancelhas, os sulcos gastos do rosto, os gestos decididos e o estômago que ronca, sôfrego, destrutivo, ronca com o apetite de mil homens confinados em um só, um exército demoníaco que encontra o inimigo e todos estão em farrapos, e que se coagulam, se esterilizam e se fundem num só grito de ordem:
– Mais!
On the table rest shiitake mushrooms, brown, slightly wilted. Peppers of every color—including one the shade of cream (so like the pallor of a corpse) and a vivid red, glossy as a clown's nose. Onion sliced into rings. The pearly gleam of a fresh fillet, paper-thin, with tiny ruby-colored droplets glistening on its sliced surface, leaving a trail on the cutting board, a sinuous track of blood, and the body of the meat shifting like a limp puppet in her hands. Turnips, scallions, tomatoes, all trembling with anticipation, await their respective turns. The lustrous late afternoon fills the scene with a viscous shimmer; there is a profusion of smells, a carnival of seasonings, multicolored, stored in their jars, the dry sound of the knife, zealous and vengeful, cleaving its victims under Lavoisier's law, the atmosphere escaped from a Van Gogh painting—there should be sunflowers on the table, where those plastic fruits now sit.
My wife's name is Midori. Well, not really—I'll just call her that. It's almost dinnertime. She takes the knife in her hands (she could slice me into pieces too, if she wanted, she's so deft with her quick movements, like a butcher). In a pan, she heats the oil, and a smell of childhood storms our apartment, then the crushed garlic clove joins the chorus, then the small flakes of onion, an ethereal happiness breaking against the pier of my nostrils (I know the metaphor is dreadful), the invisible smoke of heat distorting nearby shapes into a gastronomic mirage. Then she adds the rice, which shivers, which hops, which flushes and moistens like thousands of corpses thrown into a metal pit—a terrible, terrible holocaust—and then the water, which hisses, sizzles, raises a brief curtain of steam and then falls silent again, or rather, returns to its whimpering but in a softer tone, subdued, having probably grown accustomed to its irreversible condition as accomplice.
Midori cooks every day, magnificently well. All her dishes (and the range of influences is vast, extraordinarily rich: Italian, Japanese, Thai; she masters any cuisine and technique) are absolutely formidable, impossible not to surrender body (especially) and soul to her delicacies. "She won me over through my stomach," as the old saying goes, though she was also beautiful and intelligent when we met. And I say was, because I couldn't judge today whether she's still beautiful or still intelligent, or whether it was all just the illusion of that indefinite season we call love or youth or dream, that mixture that binds like cake batter, rising, transforming into something else and, later, sliced, swallowed in haste, becoming crumbs and an empty tray. How could I know? I've grown used to her. Perhaps she's beautiful or intelligent to other eyes and minds. To me, she's just Midori, cooking a risotto, a salad, choosing the wine we'll drink (a Chilean pinot noir, probably, I'd bet on it), polishing the silverware, arranging the glasses. If she were replaced by a robot, but the food still reached my table, who knows how long it would take me to notice she was gone?
The table is set impeccably. The tablecloth is linen, white, with lustrous threads of the same color tracing austere, sober lines that cross like abandoned highways, autobahns leading nowhere. The plates, elliptical, with red arabesques of vaguely defined flowers, small childish illuminations; she chose the pattern and I merely acquiesced; the silverware, well-polished, a wedding gift from some relative of hers I can't remember, but there are so many relatives, how could I. The wine glass and the water glass form an odd couple, awaiting the fluidity of a soul to fill them, even if only momentarily; but, one must admit, who doesn't await that?
"In about an hour everything will be ready, dear," she says, her voice velvety, the aroma of ripe vegetables, breath of a freshly devoured mango, the smell of frying vivid and sprinkled across every pore, the apron placed over her elegant light-blue dress. Her hair held by a headband, also blue, which no longer suits her so well—at her age, wearing that kind of accessory—but I wouldn't comment so as not to ruin a perfect meal, after all these moments have been the most perfect, and for nothing in the world would I break the seal of peace that comes with the aromas, the textures, and the flavors that inaugurate the evening, just to be frank for free. My stomach growls, approving my decision. Silence is always the best way out.
I smile, kiss her lips lightly, like a child walking on tiptoe so as not to alert his parents to his carefully planned escape, but who then turns around and crawls back under the covers, because he wouldn't know how to flee since no one ever taught him anything, and besides he's lazy and afraid of the consequences. Why bother with something that will lead nowhere? The sound of things being sliced leaps from the kitchen, from its heat, from its warm surface that cooks our existences, warping them. Midori hums "Desafinado" by Tom Jobim, filling it with pauses; I can hear her drinking water, the cartilage of her larynx dancing gracefully, full of life, a murmur choked with spirit, "I have only what God gave me."
At lunch, we had eaten salmon with tartar sauce. I'd also watched her prepare everything. Amid the skillful cuts, the chromatic carnival of greens, the golden pallor of oil, the salt falling like snow over the steaks, the lemon juice digesting the bad smell, there was also a procession of seasonings, constricted air, saturating the kitchen's white atmosphere with aromas: cumin, saffron, paprika, curry, peppers of the most varied kinds (there was white, black, Calabrian, malagueta), whose powder made me sneeze, but whose flavor transported my soul to the purgatory of waiting, urging on the paradise denaturing itself just feet away. Yes, for it was a divine lunch, like so many before. Had we eaten the same dish before, perhaps? Maybe last year. Last year, in fact, she made a lamb with garlic and red wine that was finger-licking good, simply phenomenal. When will she make it again?—though every day is a new surprise and we're rarely disappointed; perhaps that time when her mother died and she forgot about the oven and cried on the phone and the soufflé overcooked (though, though it still turned out very well, even if I lunched alone, since she'd gone to her sister's house to mourn their dead mother), or that time she drank too much and, in a confusion of minutes, took the cake out a bit early, and it was slightly raw in the center, a tiny thing, almost imperceptible, but which still left her furious with herself, silently self-reproaching; yes, I can tell by the way her eyebrows arch and one of her cheeks rises, resentful, as if the left were blaming the right: "see, I told you, I warned you, I warned you"; though both knew the blame was shared; but the cake, still, was a passion fruit cake, it was delicious, how does she do it?
She was also impeccable with desserts: she makes ambrosia better than the gods themselves, it melts in your mouth while crackling between your teeth, sweet but not cloying, a color, let's say, healthy, I don't even know what color it is (whether wine or chestnut or copper or gold); coconut blancmange with plums, milk pudding with abundant caramel, rice pudding—my God, even in rice pudding she adds a touch of something supreme, which I can't distinguish except by repeating it to exhaustion until nothing remains but a nostalgia for the texture and the asylum of satiety that soon dissolve into a renewed and fierce hunger. "I didn't make dessert today, is that a problem?": no, it's not, no problem at all, dear, you're always too helpful, I won't die if I go without sweets today, I lie, though I feel hungrier and hungrier and it wouldn't seem bad at all to devour one of her lascivious desserts slowly while the record player hisses Debussy's Suite Bergamasque with a certain nonchalance, my teeth executing a famished and enraptured pianissimo over the strawberries and the pastry and the whipped cream of the tart, and I try to synchronize the tempo of the score with the tempo of my jaw, the smooth muscles and taste buds all lined up while my mouth conducts the whole affair, and the hall of my esophagus and stomach and entire digestive tract reverberating with its gluttonous acoustics.
I spy on the kitchen again; I pretend I'm going to drink a glass of water: hm, hm, the translucent liquid nestles into the shape of the crystal, tinkles against my teeth, it's as if my mouth were taking a bath to purify itself before the bacchanal, a strange rite that serves to glimpse the dinner being prepared—"don't spoil your appetite," she warns, very serious, but with a half-smiling seriousness, maternal; she's nothing like my mother and cooks far better than her, it would have been much better if she had been my mother and my mother had been my wife, maybe then I would have felt more like a boy when I should have been a boy and more like a man when I should have been a man, but what the hell, you don't choose these things, I don't even choose the menu anymore, I just let her decide.
Her movements are graceful and light, she's like a fragile doll; how does she stand at the edge of the flame, how does she keep her hands impeccable, soft (well, there are so many creams, there must be three just for her hands), and the good humor, and the energy, and how creative she is, almost never repeating recipes, always innovating; it's as if a demon were conducting her thoughts; every night I feel I eat more and more, maybe I've gotten fat, maybe I was never thin, and maybe I'll die very young because she uses too much butter and salt, but what can you do, that's what gives food its flavor, not the food itself. Ah, and all the sugar, and the vanilla extract, and the condensed milk, and the cocoa powder she uses in desserts: yes, it seems I'm hopelessly lost, and just thinking about it makes me even hungrier.
Now she's softly humming Chico Buarque, "and kiss me with your mint-fresh mouth"; ah, yes, her chocolate-mint ice cream, that taste that remains lodged in the mouth and spirit and then inhabits memory, refreshing as an ice-cold shower on a hot day. Now she's removed her apron and said something pleasant to me, but I didn't even hear, I just smiled, playing with my index finger on the rim of my empty glass. She wears lipstick red as paprika, has blonde hair, golden curls in an attempt at a perm, she always says her hair is such work, that it would have been better if she'd been born with it straight, twenty times less trouble, but no, she knows I prefer it this way; really?; yes, it suits you, and now she's hugged me, very kindly, and kissed my cheek, says she's going to call her sister to arrange something for tomorrow's dinner (we'll dine together, what will she make? I saw she bought flour, pork, lots of vegetables, but she always buys vegetables); will she buy fish or shrimp? Her sole with shrimp sauce is magnificent, hmm, I can't remember the last time, but it doesn't seem long ago, so it's probably not that—well, I'll ask her: pasta with pesto or maybe some ricotta cannelloni, would that work?; oh, yes, yes!; I hadn't even considered pasta among the options; she says she has a cousin in Italy and the tomatoes there are the best; I'll buy an Italian wine tomorrow and bring it (we'll dine at her sister's), what do you think?; wonderful, great, great.
She goes to the phone; I can hear her, but it seems she always says the same thing, that every night is the same night, what changes is the menu, the only variable I know in life, the rest is one or perhaps several constants at once, a pattern like the tablecloth's, rigid, uninhabited, darned forever the same way, and it would only change if you replaced the whole cloth, which can no longer be done. She's returned from the phone, said her sister sends a kiss, misses us, but how, if we saw each other not three days ago? She laughs, I laugh; she puts on oven mitts to protect herself from the steaming dish, removes it; she's already without her apron, I didn't see when she took it off; she tells me to come to the table: right, on my way.
I sit down. The candlelight could be God's own eye envying me, in a myriad of multicolored fragments bathing the small empire before me; I always sit at the head, I feel like an emperor and eat like a king, that's for sure; I'm opening the wine, is that okay?; sure, of course; I'm already pouring, I've filled the glasses, but she only drinks this one and then stops, I know by now. Then she arrives with the baking dish, with the salad plate: "I'm really sorry there's no dessert, I'll make it up by making your favorite..."—my favorite? What's my favorite, I think—"...tomorrow, okay?"; okay, okay.
She smiles, indicating she'll serve my plate; she serves three generous spoonfuls, adds the salad, dresses it with balsamic and olive oil; what a beautiful color this salad has, it must be delicious; another smile; smiles are like commas in life, but what would the periods be?; never mind, no; now the first forkful reaches my mouth and with it a superb piece of shiitake dispels the doubt.
All the tension in my body vanishes, a string being loosened from a violin, everything draining down the soul's drain, the anxiety disappears and it's as if there were only me and my senses, sharpened, a wild animal intoxicated, tearing the muscle of its fallen prey, just me and my hunger in the whole world. She chews slowly, like a little rabbit, sort of shy, hunched over, glancing at me with dry, expressionless eyes that now and then flash an unexpected light, illuminated by some comment she thought worth making, a memory, some task she needs, ne-eds to remember to do tomorrow, without fail, and I agree, looking grave and unconcerned, and two forkfuls later I no longer know what we were talking about. And so, while I answer through clenched teeth, half serious, half distracted, the portion on my plate runs out.
"More, please," I cry, extending my plate.
She, ever obliging, a mother pleased with the son who in an instant recovered his appetite after a long illness, or who was always gaunt and frail and suddenly seems insatiable, adds a few more spoonfuls of risotto, serves me more salad, fills my glass with gleaming wine; I feel drunk and happy and sober with a satisfied, renewed sadness. I devour everything eagerly, I indulge, I rush too much—she even seems worried, wants to say something about my manners, about there being no hurry, but I can't help it, I need to ingest everything quickly, I'm hungry, I have an appetite that builds like a dramatic symphony, an aria about to burst at its crucial moment, a violin string tensed to the point of snapping, the catharsis crushed between my molars, the epiphany torn by my canines, smearing my incisors, my tongue dragging like a staccato, the pizzicato of each chew serving as metronome: andante, allegretto, presto.
"More"—I extend the empty plate, again.
Apprehensive, she fills it; she's never seen me eat so much, perhaps she suspects something, knows or thinks something is wrong; she finished eating long ago (she always ate little, she's thin, her figure is slender, though certain parts of her body are beginning to sag and suffer under gravity's sinister influence; I like you better this way, I lie, she pretends to believe me, and life goes on); she seems like a ghost extending a nightmare, but I can't stop, the texture, the aroma, everything blends into a perfect amalgam; perhaps I've never been so happy in my whole life, but at the same time I'm troubled by the fact that the meal ends and life inevitably returns, until next time, and that next time might not be like this one; it frightens me how many hours are left; no, better not to think about that now, no; I need to chew carefully, to prolong this feeling, to bristle these senses; it's imperative that I do.
But after a few minutes the plate empties again and, cornered, I cry out, almost involuntarily, an automaton:
"More!"
She fills my plate. Voracious, I repeat everything again. The food is running out; what will happen when there's nothing left to serve? So little risotto remains, just a few salad leaves and a bit of pepper dressed with soy sauce; the wine is also reaching its end; she barely touched it—did I drink alone?; I feel, in some part of me that isn't my stomach, that things are heading toward their grand finale.
"More," I repeat once more. She serves, still gentle, but now all the food is gone.
She looks at me with suspicion; she's never seen me eat so much; she looks with the same instinct with which a dog senses the mailman arriving blocks away, with which old people divine from the shape of clouds or the moan of wind when it will rain, or if there'll be frost, or whether hail is coming, and then she falls silent, taciturn, observes, perhaps trying to mimic tranquility in the back of her chair, in the white tablecloth, in the night drenched with feeble lights, in a good dream, in a childhood memory (perhaps her mother's breast, I never asked, but I'm certain she was breastfed for a long time), in her father's wrinkles, in the children we never had because we simply never wanted them: they would make too much noise and take up our time, and we don't have that much time left; in tomorrow's menu (pesto or cannelloni?); in the new curtains that still aren't ready; in the songs she listened to ten years ago, how she danced, how she loved, how she had dreams that escaped her control like fireworks after the first one is launched, a stillborn chain reaction, the fine-tuning of kisses and caresses; and whether she perhaps had a lover or more, I couldn't care less. Now, nothing remains on any of the platters; but I'm still hungry, I have an absurd, existential hunger; my stomach isn't full, my soul isn't full, there isn't a single part of me that has been filled; and it's her fault, and it's my fault; let's serve ourselves the guilt too and exhaust it, scrape it from the plates and pans: are you sure nothing's left of the risotto, nothing of lunch, nothing of ten years ago, nothing of my childhood, or of our love?
Categorical, I extend my plate once more, I stare into her fearful eyes, my voice modulated with energy, an untamed hint of piercing dissatisfaction adorning my lips, the curve of my eyebrows, the worn furrows of my face, my decisive gestures and my stomach growling, ravenous, destructive, growling with the appetite of a thousand men confined in one, a demonic army that finds the enemy and all are in tatters, and who coagulate, sterilize themselves and merge into a single battle cry:
"More!"
Sobre la mesa reposan hongos shiitake, castaños, un poco marchitos. Pimientos de todos los colores —incluido uno crema (recuerda tanto la coloración de un cadáver) y un rojo vivo, lustroso como una nariz de payaso. Cebolla cortada en rodajas. El brillo nacarado de un filete fresco, finísimo, con pequeñas gotitas húmedas color rubí resplandeciendo en la superficie cortada, dejando un rastro en la tabla, un sendero sinuoso de sangre, y el cuerpo de la carne que se mueve como un títere flojo en sus manos. Nabos, cebolleta, tomates, todos en un estremecimiento de expectativa, aguardan sus respectivos turnos. El final de la tarde reluciente llena la escena de un centelleo viscoso; hay una profusión de olores, el carnaval de los condimentos, multicolores, almacenados en sus frascos, el ruido seco del cuchillo, celoso y vengativo, clivando a sus víctimas bajo la ley de Lavoisier, el ambiente y la atmósfera escapados de un cuadro de Van Gogh: debería haber girasoles sobre la mesa, donde ahora están esas frutas de plástico.
Mi esposa se llama Midori. Bueno, en realidad no —solo la llamaré así. Ya casi es hora de cenar. Ella toma el cuchillo en sus manos (podría cortarme en rebanadas también, si quisiera, tiene mucha destreza en los movimientos bruscos, parece una carnicera). En una olla, calienta el aceite, y un olor a infancia asalta nuestro apartamento, después el diente de ajo machacado se une al coro, después los pequeños copos de cebolla, una felicidad etérea rompiéndose en el muelle de mis fosas nasales (sé que la metáfora es horrible), el humo invisible del calor distorsionando las formas más cercanas en un espejismo gastronómico. Después añade el arroz, que se estremece, que salta, que se sonroja y se humedece como miles de cadáveres arrojados a una fosa metálica —un terrible, terrible holocausto— y después el agua, que silba, chisporrotea, levanta una cortina muy breve de vapor y después vuelve a callarse, o mejor dicho, vuelve a quejarse pero en un tono más suave, contenido, probablemente habiéndose acostumbrado ya a su irreversible condición de cómplice.
Midori cocina todos los días, magníficamente bien. Todos sus platos (y la variedad de influencias es extensa, riquísima: italiana, japonesa, tailandesa; cualquier cocina y técnica ella domina) son absolutamente formidables, imposible no entregarse de cuerpo (especialmente) y alma a sus manjares. "Me conquistó por el estómago", como solían decir los antiguos, aunque también era linda e inteligente cuando nos conocimos. Y digo era, pues no sabría hoy juzgar si todavía es linda o si todavía es inteligente, o si todo no fue más que la ilusión de esa estación indefinida que llamamos amor o juventud o sueño, esa mezcla que da una liga semejante a las mezclas de pastel, que se hincha, que se transforma en otra cosa y, después, rebanada, tragada a toda prisa, se convierte en migajas y bandeja vacía. ¿Cómo podría saberlo? Me acostumbré. Tal vez sea linda o inteligente para los ojos y los pensamientos de otros. Para mí, es solo Midori, cocinando un risotto, una ensalada, eligiendo el vino que tomaremos (un pinot noir chileno, probablemente, apostaría mis fichas), puliendo los cubiertos, organizando las copas. Si ella fuera reemplazada por un robot, pero la comida siguiera llegando a mi mesa, ¿quién sabe cuánto tardaría en darme cuenta de que se fue?
La mesa está puesta de forma impecable. El mantel es de lino, blanco, con hilos lustrosos del mismo color dibujando líneas austeras, sobrias, que se cruzan como carreteras abandonadas, autobahns que no conducen a ninguna parte. Los platos, elípticos, con arabescos rojos de flores mal definidas, pequeñas iluminaciones infantiles; el motivo lo eligió ella y yo simplemente asentí; los cubiertos de plata, muy bien pulidos, regalo de boda de algún pariente suyo que no recuerdo quién es, pero son tantos parientes, cómo podría recordar. La copa de vino y la copa de agua forman una pareja extraña, aguardando la fluidez de un alma que los llene, aunque sea momentáneamente; pero, hay que reconocerlo, quién no aguarda eso.
"En cerca de una hora estará todo listo, querido", dice ella, la voz aterciopelada, el aroma de legumbres y vegetales maduros, aliento de un mango recién devorado, el olor a fritura vívido y esparcido en todos los poros, el delantal colocado sobre el elegante vestido azul claro. El cabello recogido con una diadema también azul, que ya no le queda tan bien —ahora con la edad, usar ese tipo de accesorios—, pero yo no comentaría nada para no arruinar una comida perfecta, al fin y al cabo estos momentos han sido los más perfectos, y por nada del mundo rompería el sello de paz que viene con los aromas, las texturas y los sabores que inauguran la noche, solo por ser franco gratis. Mi estómago ruge, aprobando mi decisión. El silencio es siempre la mejor salida.
Sonrío, le beso levemente los labios, como un niño caminando de puntillas para no avisar a sus padres sobre su fuga, cuidadosamente planeada, pero que entonces da media vuelta y se mete de nuevo bajo las cobijas, porque no sabría huir ya que nadie le enseñó nada, y además tiene pereza y miedo de las consecuencias. ¿Para qué molestarse con algo que no llevará a nada? El ruido de cosas siendo cortadas salta de la cocina, de su calor, de su superficie caliente que cocina nuestras existencias, deformándolas. Midori canturrea "Desafinado", de Tom Jobim, la llena de intervalos; puedo oírla bebiendo agua, los cartílagos que forman la laringe bailando graciosos, llenos de vida, un murmullo embargado de ánimo, "solo poseo lo que Dios me dio".
En el almuerzo, habíamos comido salmón con salsa tártara. También me había quedado observándola preparar todo. Entre los cortes hábiles, el carnaval cromático de las verduras, la lividez dorada del aceite, la sal cayendo como nieve sobre las porciones, el jugo del limón digiriendo el mal olor, había también una procesión de condimentos, aire constreñido, impregnando de aromas la atmósfera blanca de la cocina: comino, azafrán, pimentón, curry, pimientas de las más variadas especies (había la blanca, la negra, la calabresa, la malagueta), cuyo polvo me hacía estornudar, pero cuyo sabor transportaba mi alma al purgatorio de la espera, urgiendo el paraíso que se desnaturalizaba a pocos metros. Sí, pues fue un almuerzo divino, como tantos otros anteriores. ¿Ya habíamos comido el mismo plato, tal vez? Quién sabe, el año pasado. El año pasado, de hecho, ella hizo un cordero con ajo y vino tinto que era para chuparse los dedos, simplemente fenomenal. ¿Cuándo lo repetirá? —aunque cada día es una nueva sorpresa y rara vez nos decepcionamos; tal vez aquella ocasión en que su madre murió y ella se olvidó del horno y lloró al teléfono y el suflé se pasó de punto (aunque, aunque aun así quedó muy bien, a pesar de que almorcé solo, pues ella había ido a casa de la hermana a llorar a la madre muerta), o aquella vez en que bebió demasiado y, en una confusión de minutos, sacó el pastel un poco antes, y quedó un poco crudo en el centro, cosa mínima, casi imperceptible, pero que aun así la dejó furiosa consigo misma, reprochándose en silencio; sí, lo veo por el modo en que las cejas se arquean y una de las mejillas se levanta, contrariada, como si la izquierda culpara a la derecha: "¿ves?, te lo dije, te avisé, te avisé"; aunque ambas supieran que la culpa era compartida; pero el pastel, aun así, era un pastel de maracuyá, quedó delicioso, ¿cómo lo logra?
También en los postres era impecable: ambrosía la hace mejor que los propios dioses, se deshace en la boca y al mismo tiempo cruje entre los dientes, dulce pero no empalagosa, de un color, digamos, saludable, ni sé qué color es (si vino o si castaño o si cobrizo o si dorado); manjar de coco con ciruelas, pudín de leche con abundante caramelo, arroz con leche —Dios mío, hasta en el arroz con leche ella da un toque de algo supremo, que ni sé cómo distinguir sino repitiendo hasta el agotamiento hasta que no quede nada sino una nostalgia de la textura y el asilo de la saciedad que pronto se disuelven en un hambre renovada y feroz. "Hoy no hice postre, ¿hay problema?": no, no hay, ningún problema, querida, siempre eres demasiado servicial, no voy a morir si me quedo hoy sin dulce, miento yo, aunque sienta cada vez más hambre y no me pareciera nada mal devorar uno de sus lascivos postres lentamente mientras el tocadiscos susurra la Suite Bergamasque de Debussy con cierta displicencia, mis dientes ejecutando un pianísimo famélico y arrobado sobre las fresas y sobre la masa y la crema chantilly de la tarta, y yo intento sincronizar el tiempo de la partitura con el tiempo de la mandíbula, los músculos lisos y las papilas todos alineados mientras la boca dirige todo el asunto, y el salón del esófago y del estómago y del tubo digestivo entero reverberando con su acústica golosa.
Espío de nuevo la cocina; finjo que voy a beber un vaso de agua: hum, hum, el líquido translúcido se acomoda al formato del cristal, tintinea entre mis dientes, es como si mi boca tomara un baño para purificarse antes de la bacanal, un extraño rito que sirve para atisbar la cena que se prepara —"no vayas a arruinar tu apetito", me advierte, muy seria, pero de una seriedad medio sonriente, maternal; no se parece en nada a mi madre y cocina mucho mejor que ella, habría sido mucho mejor si ella hubiera sido mi madre y mi madre hubiera sido mi esposa, quién sabe si me habría sentido más niño cuando debía ser niño y más hombre cuando debía ser hombre, pero qué diablos, uno no elige estas cosas, si ni siquiera el menú yo elijo, y solo la dejo decidir.
Tiene los movimientos graciosos y ligeros, es como una muñeca frágil; cómo aguanta al borde del fuego, cómo mantiene las manos impecables, suaves (bueno, son tantas cremas, debe haber unas tres solo para las manos), y el buen humor, y la disposición, y qué creativa es para casi nunca repetir recetas, siempre innovar; parece que tiene un demonio rigiendo sus pensamientos; cada noche siento que como cada vez más, tal vez haya engordado, tal vez nunca haya sido delgado, y tal vez muera muy pronto porque ella usa mucha mantequilla y sal, pero qué se le puede hacer, es eso lo que le da sabor a la comida, y no la comida en sí. Ah, y todo el azúcar, y el extracto de vainilla, y la leche condensada, y el chocolate en polvo que usa en los dulces: sí, me parece que estoy irremediablemente perdido, y solo de pensar en eso siento aún más hambre.
Ahora susurra con dulzura a Chico Buarque, "y me besa con la boca de menta"; ah, sí, su helado de chocolate con menta, ese sabor que permanece clavado en la boca y en el espíritu y después habita los recuerdos, refrescante como un baño helado en un día caliente. Ahora ella se quitó el delantal y me dijo algo amable, pero ni lo escuché, solo sonreí, jugando con mi dedo índice en el borde del vaso ya vacío. Usa un lápiz labial rojo como pimentón, tiene el cabello rubio, rizos dorados en un remedo de permanente, siempre dice que su cabello da mucho trabajo, que era mejor haber nacido con él lacio, daría veinte veces menos trabajo, pero no, sabe que yo lo prefiero así; ¿en serio?; sí, te queda bien, y ahora me abrazó, muy amable, y me dio un beso en la mejilla, dice que va a llamar a la hermana para coordinar algo de la cena de mañana (cenaremos juntos, ¿qué hará? Vi que compró harina, carne de cerdo, muchos vegetales, pero siempre compra vegetales); ¿comprará pescado o camarón? Su lenguado con salsa de camarones es magnífico, hmm, ni recuerdo la última vez, pero me parece que no hace mucho, entonces no es probable que sea eso —bueno, le preguntaré: pasta al pesto o tal vez unos canelones de ricota, ¿puede ser?; ah, sí, ¡claro que sí!; ni había considerado pastas entre las opciones; dice que tiene una prima en Italia y que los tomates de allá son los mejores; voy a comprar un vino italiano mañana y lo llevo (cenaremos en casa de la hermana), ¿qué te parece?; maravilloso, qué bien, qué bien.
Va al teléfono; puedo oírla, pero me parece que siempre dice lo mismo, que toda noche es la misma noche, lo que cambia es el menú, la única variable que conozco en la vida, el resto es una o tal vez varias constantes a la vez, un patrón como el del mantel, rígido, deshabitado, zurcido para siempre del mismo modo, y solo cambiaría si se cambiara el mantel entero, lo que ya no puede hacerse. Volvió del teléfono, dijo que la hermana manda un beso, que los extraña, pero cómo, si nos vimos hace no más de tres días. Ella ríe, yo río; se pone los guantes para protegerse de la fuente humeante, la saca; ya está sin delantal, no vi cuándo se lo quitó; me dice que vaya a la mesa: listo, ya voy.
Me siento. La luz del candelabro podría ser el propio ojo de Dios envidiándome, en una miríada de fragmentos multicolores que bañan el pequeño imperio frente a mí; siempre me siento en la cabecera, me siento un emperador y como como un rey, eso sí; voy abriendo el vino, ¿puede ser?; puede, claro; ya estoy sirviendo, ya llené las copas, pero ella toma solo esta y después para, ya la conozco. Entonces llega con la fuente, con el plato de ensalada: "discúlpame de verdad por no tener postre, lo compenso haciendo tu preferido..." —¿mi preferido? ¿Cuál es mi preferido?, pienso— "... mañana, ¿puede ser?"; puede, puede.
Ella sonríe indicando que servirá mi plato; sirve tres generosas cucharadas, coloca la ensalada, la adereza con balsámico y aceite de oliva; qué color tan bonito tiene esta ensalada, debe estar deliciosa; otra sonrisa; las sonrisas son como comas en la vida, pero ¿qué serán los puntos?; no viene al caso, no; ahora el primer bocado ya llega a la boca y con él un pedazo soberbio de shiitake disipa la duda.
Toda la tensión de mi cuerpo se desvanece, una cuerda siendo aflojada de un violín, todo escurriéndose por el desagüe del alma, la ansiedad desaparece y es como si solo existiera yo y mis sentidos, aguzados, un animal salvaje embriagado desgarrando el músculo de la presa abatida, solo yo y mi hambre en el mundo entero. Ella mastica poco a poco, parece un conejito, así medio tímida, encogida, observándome de reojo con los ojos secos e inexpresivos que de vez en cuando derraman una luz inesperada, se iluminan por algún comentario que creyó pertinente hacer, un recuerdo, alguna tarea que necesita, ne-ce-si-ta recordar hacer mañana, sin falta, y yo asiento, con aire grave y despreocupado, y dos bocados después ya no sé de qué estábamos hablando. Y así, mientras respondo entre dientes, medio serio, medio distraído, la porción en mi plato se agota.
—Más, por favor —clamo yo, extendiendo el plato.
Ella, toda solícita, una madre satisfecha con el hijo que en un instante recuperó el apetito tras una larga enfermedad, o que siempre fue macilento y flacucho y abruptamente parece estar insaciable, coloca unas cucharadas más del risotto, me sirve más ensalada, llena la copa con vino rutilante; me siento embriagado y feliz y sobrio de una tristeza satisfecha, renovada. Devoro todo con ganas, me deleito, apresuro demasiado el paso —ella hasta parece preocupada, quiere decir algo sobre mis modales, sobre que no hay prisa, pero no puedo evitarlo, necesito ingerir todo rápidamente, tengo hambre, tengo un apetito que sigue en un crescendo como si fuera una sinfonía dramática, un aria a punto de romperse en su momento crucial, cuerda de violín tensada a punto de reventar, la catarsis triturada entre los molares, la epifanía rasgada por los caninos, embadurnando los incisivos, la lengua que se arrastra como un staccato, el pizzicato de cada masticación sirviendo de metrónomo: andante, allegretto, presto.
—Más —extiendo el plato vacío, de nuevo.
Aprensiva, ella lo llena; nunca me ha visto comer tanto, tal vez sospeche algo, sepa o piense que algo anda mal; ella terminó de comer hace mucho (siempre comió poco, es delgada, la figura es esbelta, aunque ciertas partes del cuerpo empiezan a ponerse flácidas y sufren la influencia siniestra de la gravedad; me gustas más así, miento yo, ella finge que me cree, y la vida sigue); parece un fantasma extendiendo una pesadilla, pero no puedo parar, la textura, el aroma, todo se mezcla en una amalgama perfecta; tal vez nunca haya sido tan feliz en toda mi vida, pero al mismo tiempo me preocupa el hecho de que la comida se acaba y la vida inevitablemente vuelve, hasta la próxima vez, y que la próxima vez tal vez no sea como esta; me asusta cuántas horas faltan todavía; no, mejor no pensar en eso ahora, no; necesito masticar con cuidado, alargar este sentimiento, erizar estos sentidos; es imperioso que lo haga.
Pero tras algunos minutos el plato vuelve a vaciarse y, sin salida, clamo, casi involuntariamente, autómata:
—¡Más!
Ella llena mi plato. Voraz, repito todo de nuevo. La comida se está acabando; ¿qué pasará cuando no haya más que servir? Queda tan poco risotto, apenas unas hojas de ensalada y un resto de pimiento aderezado con salsa de soya; el vino también va encontrando su punto final; ella casi no lo tocó —¿habré bebido solo?—; siento, en alguna parte que no es el estómago, que la cosa se encamina hacia su grand finale.
—Más —repito otra vez. Ella sirve, todavía gentil, pero ahora toda la comida se terminó.
Ella me mira desconfiada; nunca me ha visto comer tanto; mira con el mismo olfato con que el perro nota que el cartero viene llegando calles antes, con que los viejos descubren por la forma de las nubes o por el gemido del viento cuándo lloverá, o si habrá helada, o si viene o no granizo, y entonces se calla, taciturna, observa, tal vez intente imitar tranquilidad en el respaldo de la silla, en el mantel blanco, en la noche empapada de luces débiles, en un sueño bueno, en un recuerdo de infancia (tal vez el pecho de la madre, nunca pregunté, pero estoy seguro de que la amamantaron por mucho tiempo), en las arrugas del padre, en los hijos que nunca tuvimos porque simplemente nunca los quisimos: harían mucho ruido y ocuparían nuestro tiempo, y ya no tenemos tanto tiempo; en el menú de mañana (¿pesto o canelones?); en las cortinas nuevas que todavía no están listas; en las canciones que escuchaba hace diez años, cómo bailaba, cómo amaba, cómo tenía sueños que se le escapaban del control como fuegos artificiales tras dispararse el primero, reacción en cadena abortada, el ajuste fino de los besos y caricias; y si tal vez tuvo un amante o más, poco me importa. Ahora, no queda nada en ninguna de las bandejas; pero todavía tengo hambre, tengo un hambre absurda, existencial; mi estómago no está lleno, mi alma no está llena, no hay una sola parte de mí que haya sido llenada; y la culpa es de ella, y la culpa es mía; vamos a servirnos también de la culpa y agotarla, rasparla de los platos y las ollas: ¿estás segura de que no quedó nada del risotto, nada del almuerzo, nada de hace diez años, nada de mi infancia, o de nuestro amor?
Categórico, extiendo una vez más el plato al frente, fijo sus ojos temerosos, la modulación de voz enérgica, un destello indómito de insatisfacción punzante adornándome los labios, la curva de las cejas, los surcos gastados del rostro, los gestos decididos y el estómago que ruge, ávido, destructivo, ruge con el apetito de mil hombres confinados en uno solo, un ejército demoníaco que encuentra al enemigo y todos están hechos jirones, y que se coagulan, se esterilizan y se funden en un solo grito de orden:
—¡Más!