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"Porventura, não reparas em como Alá impulsiona as nuvens levemente? Então as junta, e depois as acumula?" — Alcorão, 24:43
Meu pai morreu há três horas. O motivo pelo qual eu passei a seguir esta nuvem é que ela lembrou-me o seu rosto.
Creio que todos devam ter estranhado eu retirar-me de casa, logo após retornar do hospital, enquanto ainda discutiam detalhes sobre a preparação do velório. Mas, quando olhei pela janela, não pude evitar: talvez seja meu pai naquela nuvem, e eu não posso deixá-lo escapar como se eu fosse um caçador relapso ou distraído, não posso deixá-lo ir como ele jamais deixou minha mão enquanto atravessávamos as ruas de quarenta anos atrás. Se houver a mínima chance de aquela nuvem ter algo a ver com ele, eu preciso segui-la, seja aonde for.
Foi assim que eu entrei em meu automóvel, engatei a primeira, a segunda, enfim, subi até a quinta marcha e girei para lá e para cá a direção como se ela fosse um leme e o navio que singrasse pela rodovia deserta fosse a minha alma, e o leme, bem, o leme fosse meu desespero. Mesmo nesse exato momento, é assim que me parece, e o meu desespero segue guiando essa minha alma insolúvel pelo oceano incolor do céu.
Foi um pouco difícil prestar ao mesmo tempo atenção no trânsito e na nuvem. Há muitas coisas que precisamos reparar mesmo que sejam no fundo insignificantes, uma infinidade de formas e barulhos que nos desviam do que realmente interessa – no caso, a nuvem. Meu pai segue numa forma esbatida, voando pelo céu como uma pipa da qual eu deixei soltar o fio sem querer, e pela qual eu iria até o fim do mundo para recuperar.
Em volta dele há uma infinidade de quinquilharias: um cata-vento, uma estrela-do-mar, Asterix, talvez um romano que o segue, um peixe, um pierrô; ultrapasso os carros em alta velocidade, faço manobras até mesmo arriscadas, mas tudo para não deixar que meu pai se vá. Isto é, a nuvem que é meu pai.
Para ser sincero, eu ainda estou caçando a mesma nuvem, mas ela já não se parece com meu pai. Sua face se desfez em outra imagem, eu sei que é até meio patético, mas primeiro pareceu um porco-espinho, depois duas serpentes enlaçadas, depois uma personagem de um mangá que eu lia quando criança, depois pareceu o rosto austero de Dostoiévski, e então uma tartaruga. Mas, talvez, meu pai ainda esteja por ali.
Quando eu era pequeno, também as nuvens constantemente se transformavam em coisas diferentes, e eu costumava caçar nuvens com meu pai; quer dizer, ele dirigia o carro, indo de uma cidade a outra, e eu deitava-me no banco traseiro do carro, a cabeça desconfortavelmente ajeitada de um lado, os pés cobertos por meias de lã apoiados no vidro e, entre eles, espreitava as nuvens, como se fosse um entomologista encarcerado atrás de um arbusto, a pequena rede de caça em mãos. Muitas vezes chegava a ver o rosto de uma menina por quem nutria uma paixão platônica, ou então o personagem de um de meus videogames preferidos – Super Mario salvando a princesa, Sonic e Robotnik duelando, Link calado na presença de Zelda; via também meu cachorro que havia morrido anos antes e via personagens que não conhecia, mas para os quais tratava de inventar boas histórias para representá-los. Nas nuvens eu caçava não só o passado ou o presente, mas também redigia futuros.
Será por isso que me tornei um escritor?
Nessas ocasiões meu pai ouvia com atenção meus múrmuros incoesos a partir do banco de trás, narrando lendas que não faziam o menor sentido, à medida que as nuvens passeavam apressadamente pelo retângulo vítreo de minha imaginação. Quando voltássemos à casa, e minha mãe perguntasse: "divertiram-se?", ele responderia que sim, e eu estenderia meus braços e imitaria um avião sem dar uma resposta.
À noite, ele leria uma história para mim, e deitaria ao meu lado até eu cair no sono. Quando eu despertasse, pela manhã, ele já não estaria ali, mas seu cheiro permaneceria. Meu pai tinha um cheiro único, acho que todos os pais têm um cheiro único, e minha única chance de senti-lo novamente é seguir aquela nuvem.
Quando chovesse, e eu estivesse entediado, ele me distraía com jogos de tabuleiros ou brinquedos de montar, ou então jogaríamos videogame ou veríamos um filme. Pensando hoje, imagino como deveria ser desinteressante para ele ver tantos desenhos animados sendo um adulto, e eu cheguei a ver mais de trinta vezes o mesmo desenho da Disney. Nada mais justo que retribuir essa dedicação seguindo-o onde quer que ele flutue, em qualquer ponto da rosa dos ventos para o qual se dirija.
Com um sobressalto, entretanto, ocorre-me algo terrível, e meu pé afunda no acelerador assustado: e se a nuvem que é meu pai condensar-se e chover? Ele se estilhaçará em milhões de pedaços como o cristal que eu derrubara quando pequeno ao correr inadvertidamente pela casa, por culpa do qual (e não minha, veja bem) eu fiquei uma semana de castigo, e por culpa do qual (novamente não minha) decidi fugir no quinto dia e levar uma bela surra de chinelo ao ser encontrado, horas mais tarde. Mas, e se meu pai se desfizer, o que será de mim?
Essa estranha festa que as nuvens encenam no céu lembra-me de meu aniversário de primeiro ano; o tema foi de super-heróis. Cada convidado com sua fantasia, e sobre o meu bolo uma imagem colorida do Super-Homem colocada junto à vela de número 1. Lembro-me de todos os super-heróis e heroínas cantando parabéns, lembro que mal sabia falar, lembro-me de meu pai vestido de Batman e de ele erguer-me em seus braços para que eu assoprasse a vela, um pequeno Super-Homem tímido. E de como chorei em vez de assoprar e de como ele se encarregou do serviço. O bolo, entretanto, seu gosto hoje é o mesmo gosto que tem uma nuvem. Não consigo lembrar.
Ainda atemorizado com a possibilidade de que meu pai se precipite das alturas se espalhando por hectares de mundo, ergo os olhos; as estradas começam a ficar menos movimentadas, e tudo que faço é apenas manter o volante alinhado com as faixas brancas e amarelas da pista. A nuvem que é meu pai continua se transformando em outras coisas: cachorros, tubarões, cavalos, busto de imperador, giz de cera, bola, a letra "R", um gato visto pelas costas com o rabo enrodilhado, um gambá, um Buda.
Agora a nuvem parece o rosto de meu filho, e depois ele cresce e a nuvem parece o rosto de seus filhos, e assim por diante. A genealogia nas nuvens. Certamente alguma tribo, em algum ponto do espaço-tempo, descreveu ou irá descrever seus ancestrais assim, pela forma das nuvens, ou então precaver-se das vicissitudes e saciar seus espíritos através delas. Seria tolice ninguém fazê-lo, quando parece tão natural.
Faz algumas horas que estou caçando a nuvem que é meu pai. Sinto fome, mas lembro-me de que quando era pequeno, e havia apenas mais um bombom na caixa ou apenas mais um bolinho à mesa, ele sempre mentia que não queria mais e deixava-me tê-los. Foi assim que meu pai me ensinou o que é amor: ter fome e deixar outra pessoa comer a última porção. Aprendi isso apenas mais tarde, quando meus filhos olhavam para o último bombom da caixa com olhos pidões, medindo se eu o comeria.
Não é nada injusto que eu sinta fome agora, seguindo meu pai; se ao tornar-se uma nuvem ele jamais poderá comer um bombom ou mesmo deixá-lo de comer, por que eu deveria sentir fome? É preciso suportar, segurar o apetite, distraí-lo. Sim, era assim que ele fazia esse pequeno sacrifício.
Uma vez meu pai vestiu-se de palhaço e eu me vesti de pierrô e minha mãe vestiu-se de colombina. Tenho certeza de que é por isso que a nuvem que é meu pai agora se parece com um palhaço, posso até colori-la com a retina e os pensamentos, tenho certeza de que é ele lá em cima. Fomos a um baile de carnaval infantil, eu corria com as outras crianças, ele conversava com os outros pais; depois, me comprou um guaraná e um brigadeiro e, quando eu cheguei em casa, estava tão exausto que adormeci fantasiado. No outro dia, meu pai não era mais um palhaço, mas ainda era meu pai, assim como hoje não é mais um homem, mas uma nuvem, e mesmo assim continua sendo meu pai.
Estou dirigindo agora há mais de oito horas. Já se foram quase setecentos quilômetros. O ponteiro indicando o nível de gasolina no tanque mergulha na zona vermelha, perigosamente próximo do zero. Em breve tudo estará acabado. Ademais, já virei tantas vezes, saindo das autoestradas principais para as secundárias, e delas para estradas de chão, que em breve não haverá também mais estrada. Esse caminho que sigo já é praticamente apenas grama e terra. Sou um astronauta no meio do nada, tenho quase certeza de que sou uma estrela errante, ou um inseto, ou algo do gênero.
A nuvem está mais distante agora. O crepúsculo começa a cair, em câmera lenta, um suicida despencando intermitentemente de um prédio invisível, e seu sangue alaranjado espalha-se pelo pavimento do céu. Em breve, não verei mais os contornos de meu pai, ele estará perdido para sempre em um céu de milhões de formas. Nunca pude dizer que o amava; se eu abrir a janela e gritar, será que ele poderá me ouvir?
Não, agora já é inútil; eu devia tê-lo dito antes. O ponteiro aproximou-se do zero, o carro está aos solavancos, perdendo velocidade, já não há estrada e já não há luminosidade, e a nuvem galgou a última estação do horizonte e perdeu-se para sempre.
Foi assim que o rosto de meu pai perdeu-se para sempre.
"Do you not see that Allah drives clouds? Then He brings them together, then He makes them into a mass?" — Quran, 24:43
My father died three hours ago. The reason I started following this cloud is that it reminded me of his face.
I believe everyone must have found it strange that I left the house right after returning from the hospital, while they were still discussing details about the wake. But when I looked out the window, I couldn't help it: perhaps that's my father in that cloud, and I cannot let him escape as if I were a careless or distracted hunter, I cannot let him go as he never let go of my hand while we crossed the streets forty years ago. If there is the slightest chance that cloud has something to do with him, I need to follow it, wherever it goes.
That's how I got into my car, shifted into first, then second, finally up to fifth gear, and turned the steering wheel this way and that as if it were a helm and the ship sailing down the deserted highway were my soul, and the helm, well, the helm were my despair. Even at this very moment, that's how it seems to me, and my despair continues to guide this insoluble soul of mine across the colorless ocean of the sky.
It was somewhat difficult to pay attention to both the traffic and the cloud at the same time. There are many things we need to notice even though they're ultimately insignificant, an infinity of shapes and sounds that divert us from what really matters—in this case, the cloud. My father drifts in a faded form, flying through the sky like a kite whose string I accidentally let slip, and for which I would go to the end of the world to retrieve.
Around him there is an infinity of trinkets: a weathervane, a starfish, Asterix, perhaps a Roman chasing him, a fish, a Pierrot; I overtake cars at high speed, I make even risky maneuvers, but all so as not to let my father go. That is, the cloud that is my father.
To be honest, I'm still chasing the same cloud, but it no longer looks like my father. His face dissolved into another image, I know it's even a bit pathetic, but first it looked like a porcupine, then two intertwined serpents, then a character from a manga I read as a child, then it looked like the austere face of Dostoevsky, and then a turtle. But perhaps my father is still somewhere in there.
When I was little, clouds also constantly transformed into different things, and I used to chase clouds with my father; that is, he would drive the car from one city to another, and I would lie down in the back seat, my head uncomfortably positioned to one side, my feet in wool socks pressed against the window and, between them, I would spy on the clouds, as if I were an entomologist imprisoned behind a bush, the small catching net in hand. Many times I would see the face of a girl for whom I harbored a platonic passion, or else a character from one of my favorite video games—Super Mario saving the princess, Sonic and Robotnik dueling, Link silent in the presence of Zelda; I also saw my dog who had died years before and saw characters I didn't know, but for whom I made sure to invent good stories to represent them. In the clouds I hunted not only the past or the present, but also drafted futures.
Is that why I became a writer?
On those occasions my father would listen attentively to my incoherent murmurs from the back seat, narrating legends that made no sense whatsoever, as the clouds strolled hurriedly across the glassy rectangle of my imagination. When we returned home, and my mother asked: "Did you have fun?", he would answer yes, and I would extend my arms and imitate an airplane without giving an answer.
At night, he would read me a story, and lie beside me until I fell asleep. When I woke up in the morning, he would no longer be there, but his smell would remain. My father had a unique smell, I think all fathers have a unique smell, and my only chance to sense it again is to follow that cloud.
When it rained, and I was bored, he would distract me with board games or building toys, or else we would play video games or watch a movie. Thinking about it today, I imagine how uninteresting it must have been for him to watch so many cartoons as an adult, and I watched the same Disney movie more than thirty times. Nothing more fair than to repay that dedication by following him wherever he floats, to whatever point of the compass rose he heads toward.
With a start, however, something terrible occurs to me, and my foot sinks into the accelerator in fright: what if the cloud that is my father condenses and rains? He will shatter into millions of pieces like the crystal I knocked over as a child when I ran carelessly through the house, because of which (and not me, mind you) I was grounded for a week, and because of which (again, not me) I decided to run away on the fifth day and got a good spanking with a slipper when I was found, hours later. But if my father dissolves, what will become of me?
This strange party that the clouds stage in the sky reminds me of my first birthday; the theme was superheroes. Each guest in costume, and on my cake a colorful image of Superman placed next to the number 1 candle. I remember all the superheroes and heroines singing happy birthday, I remember I could barely speak, I remember my father dressed as Batman and him lifting me in his arms so I could blow out the candle, a timid little Superman. And how I cried instead of blowing and how he took care of it himself. The cake, however, its taste today is the same taste a cloud has. I can't remember.
Still terrified by the possibility that my father might plummet from the heights, scattering across hectares of world, I raise my eyes; the roads are becoming less busy, and all I do is simply keep the steering wheel aligned with the white and yellow lines of the lane. The cloud that is my father continues transforming into other things: dogs, sharks, horses, an emperor's bust, a crayon, a ball, the letter "R," a cat seen from behind with its tail curled, an opossum, a Buddha.
Now the cloud looks like my son's face, and then he grows and the cloud looks like the faces of his children, and so on. Genealogy in the clouds. Surely some tribe, at some point in space-time, described or will describe their ancestors this way, by the shape of clouds, or else guard against vicissitudes and satiate their spirits through them. It would be foolish for no one to do so, when it seems so natural.
It's been a few hours since I started chasing the cloud that is my father. I feel hungry, but I remember that when I was little, and there was only one more chocolate in the box or only one more cupcake on the table, he always lied that he didn't want any more and let me have them. That's how my father taught me what love is: to be hungry and let someone else eat the last portion. I only learned this later, when my children looked at the last chocolate in the box with begging eyes, gauging whether I would eat it.
It's not at all unfair that I feel hungry now, following my father; if by becoming a cloud he can never eat a chocolate or even leave one uneaten, why should I feel hunger? One must endure, hold back the appetite, distract it. Yes, that's how he made that small sacrifice.
Once my father dressed as a clown and I dressed as Pierrot and my mother dressed as Columbine. I'm certain that's why the cloud that is my father now looks like a clown, I can even color it with my retina and my thoughts, I'm certain it's him up there. We went to a children's carnival ball, I ran around with the other children, he chatted with the other parents; then he bought me a guaraná soda and a brigadeiro, and when I got home, I was so exhausted I fell asleep still in costume. The next day, my father was no longer a clown, but he was still my father, just as today he is no longer a man, but a cloud, and even so he continues to be my father.
I've been driving now for more than eight hours. Nearly seven hundred kilometers have passed. The needle indicating the fuel level in the tank dips into the red zone, dangerously close to zero. Soon it will all be over. Moreover, I've turned so many times, exiting the main highways for the secondary ones, and from them onto dirt roads, that soon there will be no more road either. This path I'm following is already practically just grass and earth. I'm an astronaut in the middle of nowhere, I'm almost certain I'm a wandering star, or an insect, or something of the sort.
The cloud is more distant now. Dusk begins to fall, in slow motion, a suicide plunging intermittently from an invisible building, and his orange blood spreads across the pavement of the sky. Soon I will no longer see my father's contours, he will be lost forever in a sky of millions of shapes. I was never able to say that I loved him; if I open the window and shout, will he be able to hear me?
No, now it's useless; I should have said it before. The needle has approached zero, the car is lurching, losing speed, there is no longer any road and there is no longer any light, and the cloud has climbed the last station of the horizon and is lost forever.
That is how my father's face was lost forever.
"¿Acaso no ves que Alá impulsa las nubes, luego las junta y después las acumula?" — Corán, 24:43
Mi padre murió hace tres horas. La razón por la cual pasé a seguir esta nube es que me recordó su rostro.
Creo que todos deben haber extrañado que me retirara de casa, justo después de volver del hospital, mientras aún discutían detalles sobre la preparación del velorio. Pero, cuando miré por la ventana, no pude evitarlo: tal vez sea mi padre en aquella nube, y yo no puedo dejarlo escapar como si fuera un cazador negligente o distraído, no puedo dejarlo ir como él jamás soltó mi mano mientras cruzábamos las calles de hace cuarenta años. Si hay la mínima posibilidad de que aquella nube tenga algo que ver con él, necesito seguirla, sea adonde sea.
Fue así como entré en mi automóvil, metí primera, segunda, en fin, subí hasta quinta y giré para allá y para acá el volante como si fuera un timón y el barco que navegaba por la carretera desierta fuera mi alma, y el timón, bueno, el timón fuera mi desesperación. Incluso en este exacto momento, así es como me parece, y mi desesperación sigue guiando esta mi alma insoluble por el océano incoloro del cielo.
Fue un poco difícil prestar atención al mismo tiempo al tráfico y a la nube. Hay muchas cosas que necesitamos notar aunque sean en el fondo insignificantes, una infinidad de formas y ruidos que nos desvían de lo que realmente importa —en este caso, la nube. Mi padre sigue en una forma difuminada, volando por el cielo como una cometa de la que dejé soltar el hilo sin querer, y por la cual iría hasta el fin del mundo para recuperar.
A su alrededor hay una infinidad de baratijas: una veleta, una estrella de mar, Astérix, tal vez un romano que lo sigue, un pez, un pierrot; adelanto los coches a alta velocidad, hago maniobras incluso arriesgadas, pero todo para no dejar que mi padre se vaya. Es decir, la nube que es mi padre.
Para ser sincero, todavía estoy cazando la misma nube, pero ya no se parece a mi padre. Su rostro se deshizo en otra imagen, sé que es hasta un poco patético, pero primero pareció un puercoespín, después dos serpientes enlazadas, después un personaje de un manga que leía de niño, después pareció el rostro austero de Dostoievski, y entonces una tortuga. Pero, tal vez, mi padre todavía esté por ahí.
Cuando yo era pequeño, también las nubes constantemente se transformaban en cosas diferentes, y yo solía cazar nubes con mi padre; es decir, él conducía el coche, yendo de una ciudad a otra, y yo me acostaba en el asiento trasero del coche, la cabeza incómodamente acomodada de un lado, los pies cubiertos por medias de lana apoyados en el vidrio y, entre ellos, espiaba las nubes, como si fuera un entomólogo encarcelado detrás de un arbusto, la pequeña red de caza en manos. Muchas veces llegaba a ver el rostro de una niña por quien sentía una pasión platónica, o bien el personaje de uno de mis videojuegos preferidos —Super Mario salvando a la princesa, Sonic y Robotnik en duelo, Link callado en presencia de Zelda; veía también a mi perro que había muerto años antes y veía personajes que no conocía, pero para los cuales trataba de inventar buenas historias para representarlos. En las nubes yo cazaba no solo el pasado o el presente, sino que también redactaba futuros.
¿Será por eso que me convertí en escritor?
En esas ocasiones mi padre escuchaba con atención mis murmullos inconexos desde el asiento trasero, narrando leyendas que no tenían el menor sentido, a medida que las nubes paseaban apresuradamente por el rectángulo vítreo de mi imaginación. Cuando volviéramos a casa, y mi madre preguntara: "¿se divirtieron?", él respondería que sí, y yo extendería mis brazos e imitaría un avión sin dar una respuesta.
Por la noche, él me leería una historia, y se acostaría a mi lado hasta que yo cayera dormido. Cuando despertara, por la mañana, él ya no estaría allí, pero su olor permanecería. Mi padre tenía un olor único, creo que todos los padres tienen un olor único, y mi única oportunidad de sentirlo nuevamente es seguir aquella nube.
Cuando llovía, y yo estaba aburrido, él me distraía con juegos de mesa o juguetes de armar, o bien jugábamos videojuegos o veíamos una película. Pensándolo hoy, imagino cuán desinteresante debía ser para él ver tantos dibujos animados siendo un adulto, y yo llegué a ver más de treinta veces la misma película de Disney. Nada más justo que retribuir esa dedicación siguiéndolo dondequiera que flote, hacia cualquier punto de la rosa de los vientos al que se dirija.
Con un sobresalto, sin embargo, se me ocurre algo terrible, y mi pie se hunde en el acelerador asustado: ¿y si la nube que es mi padre se condensa y llueve? Se hará añicos en millones de pedazos como el cristal que yo había tirado cuando pequeño al correr inadvertidamente por la casa, por culpa del cual (y no mía, fíjate bien) quedé una semana castigado, y por culpa del cual (nuevamente no mía) decidí huir al quinto día y me llevé una buena tunda de chancleta al ser encontrado, horas más tarde. Pero, ¿y si mi padre se deshace, qué será de mí?
Esta extraña fiesta que las nubes representan en el cielo me recuerda mi cumpleaños de primer año; el tema fue de superhéroes. Cada invitado con su disfraz, y sobre mi pastel una imagen colorida de Superman colocada junto a la vela del número 1. Me acuerdo de todos los superhéroes y heroínas cantando cumpleaños feliz, recuerdo que apenas sabía hablar, me acuerdo de mi padre vestido de Batman y de que me levantó en sus brazos para que yo soplara la vela, un pequeño Superman tímido. Y de cómo lloré en vez de soplar y de cómo él se encargó del asunto. El pastel, sin embargo, su sabor hoy es el mismo sabor que tiene una nube. No consigo recordar.
Todavía atemorizado con la posibilidad de que mi padre se precipite de las alturas esparciéndose por hectáreas de mundo, alzo los ojos; las carreteras empiezan a quedar menos transitadas, y todo lo que hago es simplemente mantener el volante alineado con las franjas blancas y amarillas de la pista. La nube que es mi padre sigue transformándose en otras cosas: perros, tiburones, caballos, busto de emperador, crayón, pelota, la letra "R", un gato visto por la espalda con el rabo enroscado, una zarigüeya, un Buda.
Ahora la nube parece el rostro de mi hijo, y después él crece y la nube parece el rostro de sus hijos, y así sucesivamente. La genealogía en las nubes. Ciertamente alguna tribu, en algún punto del espacio-tiempo, describió o describirá a sus ancestros así, por la forma de las nubes, o bien se precavió de las vicisitudes y sació sus espíritus a través de ellas. Sería una tontería que nadie lo hiciera, cuando parece tan natural.
Hace algunas horas que estoy cazando la nube que es mi padre. Siento hambre, pero recuerdo que cuando era pequeño, y había apenas un bombón más en la caja o apenas un pastelito más en la mesa, él siempre mentía que no quería más y me dejaba tenerlos. Fue así como mi padre me enseñó lo que es el amor: tener hambre y dejar que otra persona coma la última porción. Aprendí eso apenas más tarde, cuando mis hijos miraban el último bombón de la caja con ojos suplicantes, midiendo si yo me lo comería.
No es nada injusto que sienta hambre ahora, siguiendo a mi padre; si al convertirse en una nube él jamás podrá comer un bombón o siquiera dejarlo de comer, ¿por qué yo debería sentir hambre? Es preciso soportar, aguantar el apetito, distraerlo. Sí, así era como él hacía ese pequeño sacrificio.
Una vez mi padre se vistió de payaso y yo me vestí de pierrot y mi madre se vistió de colombina. Estoy seguro de que es por eso que la nube que es mi padre ahora se parece a un payaso, puedo hasta colorearla con la retina y los pensamientos, estoy seguro de que es él allá arriba. Fuimos a un baile de carnaval infantil, yo corría con los otros niños, él conversaba con los otros padres; después, me compró una gaseosa y un brigadeiro, y cuando llegué a casa, estaba tan agotado que me dormí disfrazado. Al otro día, mi padre ya no era un payaso, pero seguía siendo mi padre, así como hoy ya no es un hombre, sino una nube, y aun así sigue siendo mi padre.
Estoy conduciendo ahora hace más de ocho horas. Ya se fueron casi setecientos kilómetros. La aguja indicando el nivel de gasolina en el tanque se hunde en la zona roja, peligrosamente cerca del cero. Pronto todo habrá acabado. Además, ya giré tantas veces, saliendo de las autopistas principales hacia las secundarias, y de ellas hacia caminos de tierra, que pronto tampoco habrá más camino. Este sendero que sigo ya es prácticamente solo hierba y tierra. Soy un astronauta en medio de la nada, estoy casi seguro de que soy una estrella errante, o un insecto, o algo por el estilo.
La nube está más distante ahora. El crepúsculo comienza a caer, en cámara lenta, un suicida desplomándose intermitentemente de un edificio invisible, y su sangre anaranjada se esparce por el pavimento del cielo. Pronto, ya no veré más los contornos de mi padre, estará perdido para siempre en un cielo de millones de formas. Nunca pude decir que lo amaba; si abro la ventana y grito, ¿podrá oírme?
No, ahora ya es inútil; debí haberlo dicho antes. La aguja se acercó al cero, el coche va a los tumbos, perdiendo velocidad, ya no hay camino y ya no hay luminosidad, y la nube alcanzó la última estación del horizonte y se perdió para siempre.
Fue así como el rostro de mi padre se perdió para siempre.