Caçando Nuvens — Librenza Garcia

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Caçando Nuvens

"Porventura, não reparas em como Alá impulsiona as nuvens levemente? Então as junta, e depois as acumula?" — Alcorão, 24:43

Meu pai morreu há três horas. O motivo pelo qual eu passei a seguir esta nuvem é que ela lembrou-me o seu rosto.

Creio que todos devam ter estranhado eu retirar-me de casa, logo após retornar do hospital, enquanto ainda discutiam detalhes sobre a preparação do velório. Mas, quando olhei pela janela, não pude evitar: talvez seja meu pai naquela nuvem, e eu não posso deixá-lo escapar como se eu fosse um caçador relapso ou distraído, não posso deixá-lo ir como ele jamais deixou minha mão enquanto atravessávamos as ruas de quarenta anos atrás. Se houver a mínima chance de aquela nuvem ter algo a ver com ele, eu preciso segui-la, seja aonde for.

Foi assim que eu entrei em meu automóvel, engatei a primeira, a segunda, enfim, subi até a quinta marcha e girei para lá e para cá a direção como se ela fosse um leme e o navio que singrasse pela rodovia deserta fosse a minha alma, e o leme, bem, o leme fosse meu desespero. Mesmo nesse exato momento, é assim que me parece, e o meu desespero segue guiando essa minha alma insolúvel pelo oceano incolor do céu.

Foi um pouco difícil prestar ao mesmo tempo atenção no trânsito e na nuvem. Há muitas coisas que precisamos reparar mesmo que sejam no fundo insignificantes, uma infinidade de formas e barulhos que nos desviam do que realmente interessa – no caso, a nuvem. Meu pai segue numa forma esbatida, voando pelo céu como uma pipa da qual eu deixei soltar o fio sem querer, e pela qual eu iria até o fim do mundo para recuperar.

Em volta dele há uma infinidade de quinquilharias: um cata-vento, uma estrela-do-mar, Asterix, talvez um romano que o segue, um peixe, um pierrô; ultrapasso os carros em alta velocidade, faço manobras até mesmo arriscadas, mas tudo para não deixar que meu pai se vá. Isto é, a nuvem que é meu pai.

Para ser sincero, eu ainda estou caçando a mesma nuvem, mas ela já não se parece com meu pai. Sua face se desfez em outra imagem, eu sei que é até meio patético, mas primeiro pareceu um porco-espinho, depois duas serpentes enlaçadas, depois uma personagem de um mangá que eu lia quando criança, depois pareceu o rosto austero de Dostoiévski, e então uma tartaruga. Mas, talvez, meu pai ainda esteja por ali.

Quando eu era pequeno, também as nuvens constantemente se transformavam em coisas diferentes, e eu costumava caçar nuvens com meu pai; quer dizer, ele dirigia o carro, indo de uma cidade a outra, e eu deitava-me no banco traseiro do carro, a cabeça desconfortavelmente ajeitada de um lado, os pés cobertos por meias de lã apoiados no vidro e, entre eles, espreitava as nuvens, como se fosse um entomologista encarcerado atrás de um arbusto, a pequena rede de caça em mãos. Muitas vezes chegava a ver o rosto de uma menina por quem nutria uma paixão platônica, ou então o personagem de um de meus videogames preferidos – Super Mario salvando a princesa, Sonic e Robotnik duelando, Link calado na presença de Zelda; via também meu cachorro que havia morrido anos antes e via personagens que não conhecia, mas para os quais tratava de inventar boas histórias para representá-los. Nas nuvens eu caçava não só o passado ou o presente, mas também redigia futuros.

Será por isso que me tornei um escritor?

Nessas ocasiões meu pai ouvia com atenção meus múrmuros incoesos a partir do banco de trás, narrando lendas que não faziam o menor sentido, à medida que as nuvens passeavam apressadamente pelo retângulo vítreo de minha imaginação. Quando voltássemos à casa, e minha mãe perguntasse: "divertiram-se?", ele responderia que sim, e eu estenderia meus braços e imitaria um avião sem dar uma resposta.

À noite, ele leria uma história para mim, e deitaria ao meu lado até eu cair no sono. Quando eu despertasse, pela manhã, ele já não estaria ali, mas seu cheiro permaneceria. Meu pai tinha um cheiro único, acho que todos os pais têm um cheiro único, e minha única chance de senti-lo novamente é seguir aquela nuvem.

Quando chovesse, e eu estivesse entediado, ele me distraía com jogos de tabuleiros ou brinquedos de montar, ou então jogaríamos videogame ou veríamos um filme. Pensando hoje, imagino como deveria ser desinteressante para ele ver tantos desenhos animados sendo um adulto, e eu cheguei a ver mais de trinta vezes o mesmo desenho da Disney. Nada mais justo que retribuir essa dedicação seguindo-o onde quer que ele flutue, em qualquer ponto da rosa dos ventos para o qual se dirija.

Com um sobressalto, entretanto, ocorre-me algo terrível, e meu pé afunda no acelerador assustado: e se a nuvem que é meu pai condensar-se e chover? Ele se estilhaçará em milhões de pedaços como o cristal que eu derrubara quando pequeno ao correr inadvertidamente pela casa, por culpa do qual (e não minha, veja bem) eu fiquei uma semana de castigo, e por culpa do qual (novamente não minha) decidi fugir no quinto dia e levar uma bela surra de chinelo ao ser encontrado, horas mais tarde. Mas, e se meu pai se desfizer, o que será de mim?

Essa estranha festa que as nuvens encenam no céu lembra-me de meu aniversário de primeiro ano; o tema foi de super-heróis. Cada convidado com sua fantasia, e sobre o meu bolo uma imagem colorida do Super-Homem colocada junto à vela de número 1. Lembro-me de todos os super-heróis e heroínas cantando parabéns, lembro que mal sabia falar, lembro-me de meu pai vestido de Batman e de ele erguer-me em seus braços para que eu assoprasse a vela, um pequeno Super-Homem tímido. E de como chorei em vez de assoprar e de como ele se encarregou do serviço. O bolo, entretanto, seu gosto hoje é o mesmo gosto que tem uma nuvem. Não consigo lembrar.

Ainda atemorizado com a possibilidade de que meu pai se precipite das alturas se espalhando por hectares de mundo, ergo os olhos; as estradas começam a ficar menos movimentadas, e tudo que faço é apenas manter o volante alinhado com as faixas brancas e amarelas da pista. A nuvem que é meu pai continua se transformando em outras coisas: cachorros, tubarões, cavalos, busto de imperador, giz de cera, bola, a letra "R", um gato visto pelas costas com o rabo enrodilhado, um gambá, um Buda.

Agora a nuvem parece o rosto de meu filho, e depois ele cresce e a nuvem parece o rosto de seus filhos, e assim por diante. A genealogia nas nuvens. Certamente alguma tribo, em algum ponto do espaço-tempo, descreveu ou irá descrever seus ancestrais assim, pela forma das nuvens, ou então precaver-se das vicissitudes e saciar seus espíritos através delas. Seria tolice ninguém fazê-lo, quando parece tão natural.

Faz algumas horas que estou caçando a nuvem que é meu pai. Sinto fome, mas lembro-me de que quando era pequeno, e havia apenas mais um bombom na caixa ou apenas mais um bolinho à mesa, ele sempre mentia que não queria mais e deixava-me tê-los. Foi assim que meu pai me ensinou o que é amor: ter fome e deixar outra pessoa comer a última porção. Aprendi isso apenas mais tarde, quando meus filhos olhavam para o último bombom da caixa com olhos pidões, medindo se eu o comeria.

Não é nada injusto que eu sinta fome agora, seguindo meu pai; se ao tornar-se uma nuvem ele jamais poderá comer um bombom ou mesmo deixá-lo de comer, por que eu deveria sentir fome? É preciso suportar, segurar o apetite, distraí-lo. Sim, era assim que ele fazia esse pequeno sacrifício.

Uma vez meu pai vestiu-se de palhaço e eu me vesti de pierrô e minha mãe vestiu-se de colombina. Tenho certeza de que é por isso que a nuvem que é meu pai agora se parece com um palhaço, posso até colori-la com a retina e os pensamentos, tenho certeza de que é ele lá em cima. Fomos a um baile de carnaval infantil, eu corria com as outras crianças, ele conversava com os outros pais; depois, me comprou um guaraná e um brigadeiro e, quando eu cheguei em casa, estava tão exausto que adormeci fantasiado. No outro dia, meu pai não era mais um palhaço, mas ainda era meu pai, assim como hoje não é mais um homem, mas uma nuvem, e mesmo assim continua sendo meu pai.

Estou dirigindo agora há mais de oito horas. Já se foram quase setecentos quilômetros. O ponteiro indicando o nível de gasolina no tanque mergulha na zona vermelha, perigosamente próximo do zero. Em breve tudo estará acabado. Ademais, já virei tantas vezes, saindo das autoestradas principais para as secundárias, e delas para estradas de chão, que em breve não haverá também mais estrada. Esse caminho que sigo já é praticamente apenas grama e terra. Sou um astronauta no meio do nada, tenho quase certeza de que sou uma estrela errante, ou um inseto, ou algo do gênero.

A nuvem está mais distante agora. O crepúsculo começa a cair, em câmera lenta, um suicida despencando intermitentemente de um prédio invisível, e seu sangue alaranjado espalha-se pelo pavimento do céu. Em breve, não verei mais os contornos de meu pai, ele estará perdido para sempre em um céu de milhões de formas. Nunca pude dizer que o amava; se eu abrir a janela e gritar, será que ele poderá me ouvir?

Não, agora já é inútil; eu devia tê-lo dito antes. O ponteiro aproximou-se do zero, o carro está aos solavancos, perdendo velocidade, já não há estrada e já não há luminosidade, e a nuvem galgou a última estação do horizonte e perdeu-se para sempre.

Foi assim que o rosto de meu pai perdeu-se para sempre.