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É possível sentir-se triste observando o mundo através do prisma de um girassol iluminado? — pergunto-me.
Através das pétalas iridescentes e cobreadas, meus olhos espiam as copas frondosas das árvores atingidas por hastes densas de luz; os pássaros zanzando entre elas, a poeira em seu fluxo bêbado, o ranger do vento entre os troncos trançados. Minha jovem esposa segura o ramalhete de girassóis que lhe entreguei há pouco, enrolado em papel esbranquiçado, seus dedos translúcidos e descoloridos lembrando porcelana. Tem o ar distraído e contente, e observa as crianças brincando no parque, correndo atrás de seus pequenos cães.
Meu corpo está à deriva nesse espaço impreciso (minha alma, entretanto — onde estará minha alma?); minha cabeça descansa no regaço de Sara. Tento descansar, pois estou em meu intervalo, e em breve devo retornar ao hospital. É primavera, e o parque está atapetado de pétalas brancas e cor-de-rosa, como se maquiagem e batom houvessem sido espalhados no rosto jovial da cidade. Sinto-me leve, e ao mesmo tempo içado de uma profundeza sem limites — carregando comigo o peso distópico do tempo e do espaço dobrados em uma só forma, um só origami desgastado.
Em vinte minutos preciso estar de volta ao hospital.
"No que você está pensando?" — pergunta-me Sara, encaixando como ponto final um bocejo preguiçoso.
"Em nada", cicio, mentindo, tentando reclamar o silêncio de volta. Estou pensando em muitas coisas. Uma miríade de pensamentos vibra na superfície inquieta de minha mente, meândricos, pouco lúcidos, insetos dementes tentando escapar de um incêndio; no subterrâneo, onde deveriam permanecer, os ratos famintos de minhas ideias se agitam, querem mordiscar essa saborosa placidez, deixá-la exposta à intempérie, corrompê-la, destruí-la; não podem, de maneira alguma, abandonar essas coisas inquietas, intocadas, como supostamente deveriam permanecer. Esta é a grande maldição da consciência: lutamos para freá-la, mas ela é um vagão desgovernado, cujos freios foram cortados por sabotagem.
Na verdade, estou pensando em como ilógica e vazia minha própria existência me parece quando tento me enxergar do ponto de vista de um observador externo; agora mesmo, deitado no regaço de Sara, que sentido faço eu? Se eu me transformasse numa força externa, e assim pudesse observar a tudo e a todos, um mero voyeur da existência banal, é possível que nem uma só coisa mantivesse qualquer propriedade lógica: tudo repentinamente se esvaziaria e pareceria, até mesmo, ridículo. Sim, esses pensamentos estranhos me ocorrem com frequência assombrosa.
Por exemplo, muitas vezes sinto que minha vida é uma fantasmagoria, uma projeção distante e esmaecida de algo incompreensível, uma representação inconsistente de um sonho ou um desejo, e que estou a observá-la de um ponto longínquo, através de um telescópio que engole as formas e as filtra; como uma criança que assiste a um espetáculo boquiaberta, alguma prestidigitação óbvia para as mãos do mágico, mas deslumbrante para os olhos do menino, esforço-me por adivinhar qual é o truque envolvido, sem sucesso. Sei, entretanto, que esta mágica não é de todo boa ou cativante: mesmo que alterações importantes se processem nesse espetáculo melancólico, que coisas sumam, desapareçam ou transformem-se em outras, é como se nada de fato acontecesse. O movimento incessante da vida esconde o fato de que nela há uma imobilidade indivisível, e de que por mais que pareça que andemos adiante, estamos sempre no mesmo lugar, afundando em areia movediça. Não, acho que não consigo explicar inteiramente essa sensação. Seria preciso senti-la.
Em quinze minutos preciso estar de volta ao hospital.
Lá, há um bebê-kabuki. Ou, ao menos, foi assim que decidi chamá-lo, enquanto os pais não se decidem por um nome. Nunca havia visto um bebê com tal síndrome antes. É verdade que sou médico há apenas poucos anos, e ainda jovem, mas nenhum caso havia sido registrado antes em nosso hospital. Para falar a verdade, há poucos casos também registrados no mundo inteiro. É no bebê-kabuki que o meu pensamento se concentra agora, é para ele que aponta, como um norte inóspito em direção ao qual eu posso andar e andar, preenchido por uma exausta resignação, sem esperança de chegar a conclusão alguma.
Tudo ocorreu muito rapidamente. Quando uma gestante está em processo de parto, o pediatra — no caso, eu — é chamado para prestar assistência ao bebê que irá nascer, enquanto o obstetra continua a atenção à mãe recém-parida. O pediatra, então, enrola o bebê em um cobertor e o leva a um ambiente aquecido, onde o pesa, mede e lhe dá o Apgar, uma nota que avalia alguns parâmetros, no primeiro e no quinto minuto de vida, útil para avaliar a condição clínica do recém-nascido; assim, observa-se a respiração, os batimentos cardíacos, o tônus de seus músculos, a coloração da pele e sua resposta ao meio ambiente. Depois, calcula-se o escore de Capurro, um método que estima a duração da gestação da criança por cinco parâmetros diferentes da ectoscopia. Mas enquanto eu seguia todos esses procedimentos, como já fizera mais de uma centena de vezes, a face da criança me obsedou; havia algo de peculiar ali, algo diferente, atípico. Imediatamente após o processo, conversei com a equipe assistente que, ao examinar a criança, não tardou em concordar que havia, "muito provavelmente", algum defeito genético na criança. O pai foi comunicado quase que imediatamente; do choro alegre da notícia de ser pai, seu rosto toldou-se de apreensão quando tomou o bebê no colo. O serviço de Genética foi chamado para uma avaliação. Uma reunião entre as equipes foi agendada para mais tarde, naquele mesmo dia, e eu ficara encarregado de avisar o chefe de meu setor a respeito do caso.
Mais tarde, quando nos reunimos pela primeira vez, não chegamos a conclusão nenhuma. Cada um foi para casa encarregado de realizar uma revisão mais profunda sobre o assunto. Coube a mim e a uma médica geneticista, no dia seguinte, na segunda reunião, demonstrar que havia casos parecidos na literatura, nomeados como "síndrome da maquiagem de kabuki" ou, mais simplesmente, "síndrome de kabuki". Eu, a princípio, era o único que conhecia o teatro típico japonês que dava nome à síndrome.
Apesar de o termo Kabuki ser composto dos ideogramas 歌 (canto), 舞 (dança) e 伎 (habilidade), estes são apenas ateji, isto é, fonemas carregados de sentido próprio e que são vinculados para representar outra palavra, com a qual não necessariamente guardam alguma identidade de sentido. O real significado do termo parece advir do verbo kabuku, "ser fora do ordinário", "agir ou se comportar de modo aberrante", ou simplesmente algo excêntrico e que se desvia da norma, em acordo com o teatro bizarro que se originou no começo do século XVII no Japão.
A criança, portanto, lembrava um ator de kabuki: as pálpebras levemente evertidas, as sobrancelhas finas e arqueadas, em forma de seta, cílios exageradamente longos, o nariz achatado, com o septo nasal curto, a baixa implantação dos cabelos, a esclera azul, a fenda palpebral alongada. Além disso, havia muitas alterações ao exame físico que iam ao encontro dos relatos descritos na literatura médica, e que enfim nos auxiliaram a chegar ao veredicto final.
Sim, pois muitas vezes um diagnóstico funciona como um veredicto. Uma pena que terá de ser cumprida por toda a vida, e eis por que tenho tanta dificuldade em transmitir tal notícia aos familiares de um doente. Durante o primeiro exame físico, realizado ao lado do leito da mãe, os pais olhavam-me com fremente expectativa, como se eu fosse o juiz que determinaria o destino de seu precioso filho; viveria? Ou, o mais importante: viveria sob condições normais? Fui evasivo. Disse que havia alterações no exame e que acreditávamos que se tratava de determinada síndrome. Mais tarde, o chefe do departamento explicou com mais detalhes: poderia haver retardo mental, de leve a moderado; problemas auditivos, inclusive surdez; problemas renais, gastrointestinais; uma susceptibilidade maior a infecções, sobretudo respiratórias, e principalmente nos primeiros anos de vida, quando por este e aquele motivo seu pequeno bebê estava mais vulnerável; e assim por diante. Eu acompanhava a seu lado, enquanto a mãe chorava abraçada a seu querido filho, amando-o mais a cada dura palavra profética de meu chefe. Eu era como um anjo estúpido, vestido em meu jaleco branco, ouvindo um Deus grisalho e solene julgar um inocente; não me restava senão aquiescer e manter-me em silêncio.
Em cinco minutos, preciso estar de volta ao hospital.
De soslaio, observo Sara, que está com os olhos entrecerrados, dormitando; o girassol e a luz pincelam seu rosto com nuances douradas, e seu tórax faz um suave movimento de vaivém por debaixo da blusa azulada. Ela está grávida, e este é o sexto mês da gestação. Planejamos cuidadosamente este passo em nossas vidas. Há muito tempo, aliás, já planejava ter um filho. Iniciei a suplementação com ácido fólico doze semanas antes da própria concepção, como mandam as recomendações internacionais, e a interrompi após o final do primeiro trimestre. Havia planejado todas as consultas de pré-natal muito antes da própria concepção da criança. E durante os últimos seis meses, passamos divertidos momentos comprando roupas, brinquedos, livros e acessórios para a criança, discutindo nomes e planejando o futuro. De acordo com a ultrassonografia, teremos uma menina.
Sara trabalhava numa empresa de comunicação, e combinamos que ela se demitiria e não trabalharia ao menos durante a gravidez e os dois primeiros anos da criança; ambos achamos melhor assim. Depois, veríamos. Ademais, minha renda é suficiente para nos garantir uma vida decente — talvez sem luxos, mas certamente sem nenhuma privação. Tenho certeza de que serei um pai cuidadoso e atento. Entretanto, não posso prever todas as variáveis. Nem toda a equação me pertence: estou, eu mesmo, indefeso, exposto... impotente. Sei que também eu posso ser vítima do acaso, e encontrar-me repentinamente de mãos atadas a ver o destino arrasar meus castelos de areia.
Preciso voltar ao hospital.
***
Pela janela, espirais de eletricidade dançam, desenhando arabescos argênteos que se acendem e tornam a se dissolver em breu, deixando trilhos ofuscantes na memória da retina; vaga-lumes nervosos que rastejam no céu de prata. A um médico, lembram os contrastes desenhando o sistema circulatório de um paciente, que aguarda com impaciência para identificar o local de uma possível obstrução, pela interrupção abrupta do fluxo sanguíneo causada por uma estenose. Ao menos no meu caso, passei a enxergar a doença em todos os lugares aonde vou: carrego-a dentro de mim, e talvez eu próprio seja uma extensão dela — ou, em palavras mais simples, talvez minha alma tenha se tornado doente.
Faz uma semana que o bebê-kabuki está internado. Os pais já estão cientes de sua condição; a maior parte dos exames já foi realizada. Há um problema na sua audição, ele tem dificuldades para ser amamentado, e também há uma displasia congênita de quadril, descoberta enquanto eu realizava o exame físico. Afora isso, em breve poderá ter alta hospitalar e ir para casa. O resto, só o tempo dirá.
A cultura japonesa sempre me fascinara. Tão logo soube o diagnóstico daquele bebê, eu passara a semana inteira estudando sobre o teatro Kabuki e sobre a rara doença que levava seu nome. O pai, principalmente, vendo que eu me interessava com afinco pelo caso, escusando-se do médico responsável, um senhor de idade em seu jaleco amarelado, prisioneiro de fluxogramas e condutas robóticas, interessado apenas em estabilizar o quadro clínico da criança e prestar os menores esclarecimentos possíveis (visto que todos nós sabíamos o mínimo possível, já que havíamos descoberto há cerca de uma semana que a doença ao menos existia), logo viu em mim um lugar de refúgio, porto ideal para onde escoar toda a sua insegurança. Ou então inferiu que lhe restava apenas eu, fascinado com a fácies larga, exuberante, com as bochechas proeminentes e alargadas, com os lábios planos, que lembrava as antigas gravuras japonesas de fábulas que eu costumava ler quando era menor, maquiadas e gordas de pó-de-arroz. E ele vinha perguntar-me justo isso:
"Por que chamam síndrome de Kabuki à doença de meu filho?"
Era um homem de aspecto simples, com um ar já desacreditado de si mesmo. Fitando seus olhos, invadia-me a impressão de que ele era incapaz de não ser franco, que não saberia senão ser direto. Hesitei por um segundo antes de responder — a situação toda passara a me lembrar um romance de Kenzaburo Oe, que eu havia lido pouco antes de me formar, e naquele breve vacilo, naquele extenso e compacto silêncio, parecia surreal que eu fosse parte de algo minimamente similar.
Com paciência, explico-lhe tudo o que deseja saber. Faço visitas diárias ao pequeno bebê, que continua sem nome. Por que continua sem nome? — lembro-me de perguntar-me, incessantemente, sem, entretanto, ter coragem de mencionar o assunto na presença dos pais. Estão confusos, ou então preocupados ao ponto de até esquecerem? Dar o nome a um bebê assombrado pela morte e em cujo futuro não pairam senão dúvidas e incertezas talvez consista em uma formalidade gratuita, desnecessária, no final das contas. Este bebê, entretanto, parece ser amado apesar de todos os pesares.
O pai aquiesce com a cabeça. Um suspiro entrecortado nas vagas sufocantes de calor; vai cair uma chuva logo, refrescando o dia. Calor e raios comandam um espetáculo melancólico perante minhas retinas. O bebê está suado; "pode ser o princípio de uma febre?" — o pai me pergunta. Vejo as medições da enfermagem: a medição é limítrofe, não se pode considerar essa temperatura uma febre, tampouco o bebê se apresenta sintomático... e, mentalmente, indago-me: um bebê nessa condição apresentaria os mesmos sintomas que os demais?
Tranquilizo os pais. No final da tarde passarei outra vez para checar sua temperatura. Ele agradece efusivamente. A mãe está semiadormecida com o bebê a seu lado. O horizonte lá fora se despedaça como um filamento de tungstênio se rompendo, e como peças em um tabuleiro deixado para amanhã, as pessoas se colorem num jogo de sombras e luz amarelecida.
Afasto-me; este é um raro momento de calmaria, no qual deixam de me fazer perguntas, e posso caminhar pelos corredores de pisos esverdeados e paredes esbranquiçadas aqui e ali suturadas por madeira ou metal ou portas, e pensar com mais exatidão, delinear melhor o que ronda, escamoteando-se como um animal selvagem, as bordas esmaecidas de meus pensamentos, quando finalmente me assalta o temor: e se minha filha nascer com qualquer defeito? Não necessariamente um bebê-kabuki, mas qualquer outro, o que farei eu então? Talvez me tomassem o mesmo pavor e o sentimento de fuga que os do protagonista do romance de Kenzaburo Oe; e, depois, à sua semelhança, me resignasse, aceitasse a nova situação e aceitasse novamente a vida, renovado. Era impossível não arquitetar algo nessa linha. A primeira filha de Dostoiévski, por exemplo, faleceu com três anos. Três anos! Que dor seria por três anos provar do paraíso e depois ser expulso dele para sempre? Como é possível sair ileso, de coração intacto, de uma provação dessas?
O fato é que não se pode.
Estudei o assunto durante a faculdade, e por muito tempo notei que as mulheres têm fantasias a respeito do parto e do bebê. Há o constante medo de que o feto esteja morto em seu ventre; de que ele tenha alguma deformidade; e de que o parto venha a lacerar ou destruir a imagem da mulher, castrá-la de alguma forma. Também a fantasia de morte assola a futura mãe: vou sobreviver ao parto? Meu filho nascerá vivo, inteiro? Tais dúvidas me parecem cruéis demais, mas a recompensa de uma vida é proporcional: em geral pode-se ler no semblante exausto e gracioso de cada mãe que aquilo valeu a pena. É possível que Sara também experimente essas ansiedades; é possível que eu próprio tema pelo meu bebê. Qual é o grande mistério da indefinição, por que somos tão avessos ao acaso? — cicio, de mim para mim.
O final da tarde avança sobre a cidade; o céu tornou-se gangrenado de nuvens cor de ardósia, diluídas em tons negros. Torneadas umas às outras, fisgadas por uma força arrebatadora e invisível, coagulam-se numa névoa úmida que ameaça despencar, estranhos e distantes navios etéreos cujos cascos querem se partir. Toda a cidade repousa em uma angústia cinza. Os minutos se arrastam no horizonte até que saraivadas coléricas passam a fustigar as arestas descoloridas, os autos metálicos que zunem como manchas, e os guarda-chuvas, que parecem corvos estrebuchando vistos deste décimo andar, batem suas asas no labirinto geométrico das ruas; o ruído da tempestade tamborilando contra as vidraças lembra uma constelação de corações acelerados, pulsando furiosamente.
O corpo do bebê-kabuki arde em febre.
***
Seu estado geral piorou nas últimas horas; ele tornou-se febril, agitado. Sua frequência respiratória agora se mantém acima de sessenta incursões por minuto, há presença de tiragem subcostal, batimento das asas do nariz, e a saturação de oxigênio despencou; a cianose começa a se infiltrar na pele fina como papel, conferindo-lhe uma tonalidade cobalto; por recomendação minha, ele é transferido para a UTI neonatal. A dramática encenação de sua curta e lúdica vida pode chegar a um final imprevisto.
No teatro kabuki, os kurokos, nome pelo qual são conhecidos uma espécie de contrarregras, vestem-se de preto e, durante o andamento da peça, andam para lá e para cá movendo os cenários e os figurinos, expostos ao público. Os kurokos alternam a composição do palco subitamente, e apesar de teoricamente invisíveis, suas ações são notadamente vistas. Não me furto a pensar que também nas internações hospitalares (e na vida em geral) há kurokos atuando, certos "anjos" contrarregras que interferem no curso da história todo o tempo; pois, se de um lado temos o bebê que antes sorria e que agora vacila para a fenda da morte, do outro encontramos um bebê que estava comatoso e refratário a qualquer tratamento, e agora suga o peito da mãe com força viril e vitalidade invejável. Essas mudanças inopinadas, súbitas — que tipo de kuroko as opera, e sob a instrução de quem? Realmente podemos algo, vestidos de branco, contra esses invisíveis anjos negros que andam de lá para cá e de cá para lá brincando com a ventura alheia, baralhando os destinos, ou somos apenas joguetes em seu roteiro? Um médico é, apesar de todas as suas pretensões, ora coadjuvante da vida, ora coadjuvante da morte — não mais que isso.
Renata chegou para seu turno; minha colega é alegre, mesmo perante a situação mais difícil. Gosto de sua companhia, do mesmo modo que as crianças gostam de observar seus móbiles, ou de sentir o calor de suas mães; gosto da proteção que sua indiferença ao mundo desperta em mim. Ela é uma daquelas pessoas que conservam em si um traço delicado — no sorriso, no modo de dividir o cabelo, no ar distraído — que mantém o espírito de sua infância imortalizado em um âmbar palpável, visível. Meses atrás, dormíamos juntos. Em breve, talvez, dormiremos juntos novamente. O amor e a carne — por que andam tão separadamente, para alguns? Não me liberto do rótulo de hipócrita, mas sou sincero em relação ao que sinto e faço. Amo Sara, mas o perfume de Renata tem o curioso efeito de tornar meu dia menos amargo.
Atualizo-a sobre a situação de todas as crianças internadas; conversamos sobre um artigo novo que saiu em um jornal pediátrico, atualizando a conduta de determinada condição neonatal. Comentamos a respeito da notícia de que uma antiga professora faleceu.
Depois de um silêncio, ela me pergunta:
"Como está aquele bebê?"
"Em estado crítico, ainda. Mas melhor."
Ela funga e torce o nariz, como um coelho.
"Às vezes seria melhor não ter filhos do que ter um filho assim, não acha?"
Sua afirmação me surpreende. Lacônico e categórico, respondo-lhe:
"Não".
Ela sorri, com o canto dos lábios bastante afastados e os vastos dentes brancos como leite um pouco sardônicos, riso encantador e hieroglífico, e então nos despedimos, sem rancor ou ternura. Adoro a sensação de completa ignorância que experimento sobre o que ela sente.
Quase nunca percebo o caminho de volta para casa; certas coisas acontecem quase que automaticamente. Sei que troco algumas palavras desconexas com alguém no caminho; que me arrasto desinteressadamente, embora apressado, até o estacionamento. Que dirijo por um caminho predeterminado e me irrito no trânsito. Mas apenas desperto desse sonho burocrático quando abandono o elevador, quase à porta de casa.
Entro. Sara está adormecida no sofá. A pequena sala também está adormecida na penumbra, no tom cárdeo do céu que se despede, no grito cianótico do lusco-fusco que vira primeiro um vermelho desmaiado e depois se granula em tons purpúreos e enegrecidos, com as sombras marchando às costas dos móveis; meus livros estão empilhados por todos os lados. São livros de medicina, de literatura, de história, de filosofia, de artes plásticas. Há também muitas histórias em quadrinhos infantis. Os meus preferidos são a série de livros "O pequeno Nicolau", de René Goscinny, e "As Aventuras de Tintin", do belga Hergé. Sonho em ler estas histórias para minha filha. Sara impressiona-se com isso: enquanto a maioria dos homens tem aversão à ideia de ser pai, eu, ao contrário, sou obcecado por ela. Mas por que me encanta tanto gerar uma vida e submetê-la a esse amor incondicional?
Quando eu era pequeno, fui abandonado. Não no sentido convencional; meus pais não me deixaram em um cesto à porta de uma família rica, como se lê nas histórias modernas, ou num cesto no rio Nilo, como ocorreu ao profeta. Fiquei abandonado em casa; meu pai trabalhava e minha mãe tinha problemas com a bebida. Com o tempo, meu pai foi embora, e minha mãe mesmo quando presente era como se estivesse em outro mundo. Era um fantasma. Podia vê-la e ouvi-la gemendo de madrugada, desacordada, rangendo a correia da língua, amaldiçoando toda a sorte de homens, mas não podia tocá-la. Não podia senti-la em parte alguma.
Saí dali o mais depressa que pude, do contrário acabaria por enlouquecer. Creio que apenas suportei tal calvário pois passava a maior parte de meu tempo imerso em livros, imaginando aventuras melhores do que ser o filho enjeitado de uma alcoólatra. Muitas vezes, em rodas de conversa, escuto colegas médicos dizendo: "Certas pessoas não deveriam ter filhos". E em silêncio aquiesço, os olhos postados em um passado já embaciado, macilento, cujas memórias mais e mais vão se descarnando e alimentando um presente e um futuro melhores, erigidos através de meu próprio esforço e de minha nascente família. Talvez a base de tudo o que sinto seja um sentimento genuíno e cego de reparação; uma inquietude por jamais ter conhecido o que aos outros é tão caro e familiar. Mesmo assim, permanece a dúvida inquebrantável: estou tendo um filho para ter a quem dedicar meu amor incondicionalmente, ou estou tendo um filho para ser amado incondicionalmente? Talvez ambas as hipóteses sejam igualmente plausíveis, trançadas como os fios de uma corda, e precisamente por isso inextrincáveis.
Observo o display do aparelho de DVD. Está ligado — os números giram, contando, bem-me-quer e malmequer. Ejeto o disco: "Sonhos", de Akira Kurosawa. É um de meus filmes preferidos.
Sara é apaixonada por cinema. Em nossa sala há um pôster do filme "Cinema Paradiso" — já perdi as contas de quantas vezes ela assistiu ao filme e em quantas destas fui obrigado a revê-lo a seu lado. Ela consegue ir todo dia ao cinema, sem jamais se cansar. Eu, a meu turno, não tenho tanta paciência para imagens que se introjetem pela minha retina, definidas e estáticas porções de mundo que se inoculam nas obscuras estruturas de meu cérebro chegando lá através de meu nervo óptico e do nervo vestibulococlear, as duas estranhas agulhas que anestesiam minha criatividade; assisto pouco a filmes e raramente mais de uma vez. Apetecem-me mais as palavras lidas, ativas, mastigadas entre as pálpebras e que se espalham em cada neurônio ocular como uma paixão febril e arrebatadora que traz mensagens imprescindíveis, inigualáveis. Uma miríade de deuses-ideias cirandando em torno de meu ego, arrebatando-me em um delírio de experiência e da incompreensão desta. Os livros são, portanto, minha segunda alma e meu verdadeiro lar.
No filme de Kurosawa há uma cena onde a radioatividade é vomitada pelas plantas nucleares e se alastra pelas ilhas do Japão; uma mulher, um industrial e um homem comum se veem cercados por nuvens coloridas de morte e desgraça; elas trazem em seu ventre a promessa de deformidades, de anomalias, de mutações horríveis. Na próxima cena do filme (o sonho seguinte) a imagem se repete no akuma (demônio) que vaga entre dentes-de-leão aberrantes, gigantescos. Nessa primeira cena, entretanto, a mulher traz consigo duas crianças; crianças que estão cercadas de morte por todos os lados. Novamente o sentimento de impotência que tudo abarca. Seria esse o denominador comum de nossa geração? Achamos que tudo podemos, que somos deuses qualificados pela tecnologia, que temos o controle de tudo e que a natureza e as variáveis estão a nossos pés, prontas a se sacrificarem por nós, que são nossas súditas, mas numa simples guinada, num golpe de pincel, somos destituídos de tudo e fraquejamos; tornamo-nos os lacaios humilhados, ofendidos, e num átimo, estamos todos definidos (e delimitados) pelo que nos é inatingível.
No mesmo filme, há uma cena onde o protagonista passeia por cenários retirados das telas de Van Gogh para encontrar-se com o pintor. Isso me vem à mente agora, pois em nosso quarto há uma reprodução de uma das famosas telas "Girassóis", do pintor holandês. Foi assim que nos conhecemos, Sara e eu; em uma livraria, eu folheava a obra ilustrada do artista. Sara parou a meu lado e entabulamos conversa sobre o tema; semanas após, estávamos juntos. E, desde então, a flor que lembra um sol assumiu importante simbolismo em nossas vidas.
Quando fizemos amor pela primeira vez, ela posou em frente à tela, imitando a tela de Isaac Israel, "A mulher defronte aos Girassóis de Van Gogh". Quando decidimos conceber uma criança, repetimos a cena, saudosos e apaixonados.
Sara despertou. O crepúsculo cingiu a estreita sala e os demais aposentos com sua névoa de sombras, mas meus olhos já se acostumaram e conseguem distinguir as formas mergulhadas em penumbra. Ela, entretanto, esfrega os olhos e demora a me divisar, comprimida entre a ausência e a realidade. Enfim, exulta ao me ver, beija-me ternamente e pergunta se quero comer algo. Não, estou cansado demais. Conversamos sobre como passamos o dia por cerca de uma hora e então vou me deitar. Ela, é claro, vai assistir a um filme, antes de se juntar a mim.
Deito-me; durante o dia, minha mente é uma superfície metálica atingida por um pesado martelo, que vibra estrondosamente, brandindo um sem-fim de conjecturas, memórias e digressões. Antes de dormir, essa força que sincopadamente me assolava vai se amortecendo aos poucos, quer mesclar-se ao silêncio e dormir também — exceto que nossa mente nunca para de vibrar, mesmo que a olhos nus assim nos pareça.
Prova disso é que há muito tempo não tenho o sono tranquilo. Nem sempre lembro o que ocorreu neles, mas reconheço que são atribulados, e muitas vezes mesmo perturbadores. Nunca sonho com meus pacientes, entretanto. São, em geral, eventos vazios, desertos, onde caminho por lugares desabitados procurando alguém que está distante, ou que talvez não esteja em lugar nenhum. Desta vez, entretanto, escuto um choro fino, estrangulado, peneirando através da noite fixa, que quase se confunde com a chuva que cai em saraivadas metódicas lá fora, embaciando as compridas vidraças que me cercam. Trata-se de um longo corredor, com um dos lados dando para uma área externa e o outro para uma série de portas. Sem dúvida alguma, trata-se de uma enfermaria.
Pareço não sentir meus passos. Pelo caminho, há bandejas com tesouras cirúrgicas, gazes esbranquiçadas, esparadrapos, frascos de remédios, ampolas, os mais variados objetos metálicos. Todos me são caros conhecidos. Através do sonho pareço aspirar o aroma de desinfetante que confere o cheiro característico de um hospital. Assisto à noite devorar o céu enquanto meus passos galgam um caminho desconhecido. Uma porta entreaberta me convida a entrar; através dela, cada vez mais notável, o choro verte, caudaloso, sedento de indulgência.
Enredado em uma manta de lã, abandonado dentro de um leito pediátrico, está o pequeno bebê-kabuki. Ele silencia ao notar minha presença. Estamos a sós no mundo, eu e ele.
Olho amargamente para este bebê — um bebê que ainda não sorri. O sorriso social dos bebês somente aparece aos dois meses de idade. O do homem tende a desaparecer e ser substituído por um sucedâneo patético, convencional, que se fixa aos lábios toda vez que é requisitado, raramente contendo algum vestígio de pureza. Não sei o que é mais invejável: a época em que não sabia sorrir ou a época em que sorria sem saber por quê.
"Não posso fazer nada por você", eu balbucio, com velada ternura, mas não sem certo constrangimento. Ele certamente não entende. Seus olhos continuam fixos em mim, olhos de um ator que não sabe que encena, alheio ao teatro — sempre alheio a ele. Por um momento, sua expressão se congela, num legítimo mie — a expressão típica dos atores de kabuki, que concentra todo o sofrimento e a tradução sentimental da personagem num único instantâneo do tempo; seu keshō, isto é, a maquiagem, é composta pela própria pele, pelos genes mutados, pela anomalia não explicada; o oshiroi e o kumadori que lhe conferem o aspecto típico. Então, ele fecha os olhos e parece adormecer em paz (o sono das crianças talvez seja a única paz real do mundo). Eu apago a luz e me retiro.
Sigo caminhando pela área externa, mas tudo está subitamente transformado. Eu sou apenas uma criança; meus pés estão leves, minha roupa já não é uma camisa social e um jaleco, com uma calça jeans surrada e um tênis discreto, mas roupas coloridas, alegres. Pessoas começam a aparecer, como almas vagando em alguma procissão mal-ensaiada, um purgatório que guarda qualquer coisa de alegre e auspicioso. Há um tom cinza e um silêncio que habita tudo, o mundo é a partitura e nós somos as notas ocas e abafadas soando nos dedos catatônicos de um músico embriagado, e enquanto eu caminho pela metrópole fria, inóspita, com meus passos mambembes e desajeitados, um murmúrio discreto é carregado pelo vento; parecem os ruídos acústicos, sombrios e indecifráveis, que se propagam através do diafragma de um estetoscópio até os ouvidos inexperientes de um jovem médico, indistintos e encantadores como uma língua desconhecida. Uma beleza indecifrável, mas cativante. Não, não se trata apenas dos ruídos de uma ausculta: é uma frequência acelerada, ainda que frágil e bastante atípica, variável como os sonhos de um jovem. Este é o som de um estetoscópio de Pinard, instrumento usado para ouvir os batimentos fetais durante a gestação. No meridiano da noite, pulsa sobre a cidade o coração de um bebê; sinto frio. E então desperto.
Sara está deitada ao meu lado. Já é madrugada. De quando em quando, pedaços de frases lhe escapam pela boca junto com a respiração. O ventre volumoso se pronuncia através do lençol; talvez ao meu lado pulse o ritmo que refluía em meus sonhos. Fecho meus olhos, confortado por esse pensamento.
Em meu segundo sonho, a noite condensa-se sobre um campo de girassóis, que parecem em verdade pequenas luas, que se encurtam, como bocas tristes, luas minguantes — diria giraluas —, assumindo um aspecto gris, puído e desencantador. Caminhando por essa estranha vegetação, encontro-me desoladamente sozinho. Já não há qualquer choro ou ruído clandestino infiltrando-se nessa superfície. Estou, novamente, sozinho.
***
A determinação dos pais do bebê-kabuki me impressiona. Agora que o bebê saiu da UTI, a mãe jamais deixa seu lado. Ela sorri constantemente, mesmo quando está triste — e não há nada mais oneroso do que sorrir à mercê da força arrebatadora de uma tristeza. O pai, embora taciturno, ensimesmado, só se afasta para buscar comida e água para a esposa, ou para buscar alguma peça de vestuário nova, ou algo do gênero. Estão sempre juntos. Por outro lado, já vi muitos outros pais abandonarem crianças perfeitamente normais no hospital sem motivo algum. Alguns, simplesmente desapareceram. Outros abusavam das crianças, maltratavam-nas física ou sexualmente, e o departamento teve de intervir para afastar as crianças dos pais. Essas crianças foram enviadas para instituições especiais, para serem criadas como órfãs, e viverem sob a expectativa nauseante de serem adotadas. O mundo pode ser extremamente confuso, especialmente no que concerne ao dito "amor paterno". Visto desse ângulo, o bebê-kabuki teve mais sorte que muitos de nós — inclusive eu. O que me leva ao estranho pensamento de que, talvez esse bebê sofra de uma síndrome que possa ser considerada uma "anomalia" do desenvolvimento, ou um defeito genético. Mas o amor desses outros pais por seus filhos, não é ele uma anomalia ou um defeito muito mais íntimo, muito mais grave? Como médico, não tenho direito a tais juízos de valor. Não a olhos vistos. Mas quanto mais vinga em mim o desejo de ser pai, menos compreendo como alguém pode não amar um filho seu. Talvez este seja um sentimento que toda criança não amada partilhe em segredo umas com as outras.
Faz muito calor. Por debaixo do avental de algodão, gotículas de suor inundam meu corpo. As janelas abertas deixam verter golfadas mornas de ar, que brincam com as cortinas, jogando-as para cima feito confete.
A manhã passa sem intercorrências. Um dia sem elas é um dia atípico, que me deixa sempre desconfiado de que algo de mau se reserva para o restante do dia. Com a tarde, minha superstição, ainda que tola, parece se confirmar.
Numa das alas pediátricas, uma criança falece. Meningite bacteriana. Era um dos pacientes de Renata; os pais vociferam contra ela, choram, despejam toda sua impotência na forma de sentenças cruéis; Renata deve ser a culpada, ela precisa ser a culpada. Já estive no lugar dela, e, pelo que me lembro, senti-me como o Grim Reaper da cultura popular; em vez de uma ampulheta, a hora do óbito; em vez de uma foice, um estetoscópio. E em lugar da túnica preta, um jaleco. Na cultura polonesa, a morte é chamada Śmierć, e usa uma túnica branca. Sei disso, pois ainda nos meus tempos de estudante, atendia uma senhora idosa com Alzheimer que, ao ver-me entrando de jaleco no consultório, apontou o dedo macilento, ossudo, em minha direção, e balbuciou, aterrorizada: "Śmierć! Śmierć!". Sua filha, horas mais tarde, contou-me o que representava este pavor e o efeito imediato que acometeu aquela senhora. No dia seguinte, a senhora demente estava morta.
Renata ainda está em apuros. A mãe do bebê morto sacode o pequeno e frágil corpo como uma menina sacudiria sua boneca de pano avariada, lamuriando-se; seus gritos retumbam pelas alas frias, ricocheteiam na penumbra que se alastra como mofo, e chegam às outras mães, que se conservam em um silêncio respeitoso, monges com os seios vertendo leite, espiando com olhos desconfiados se a morte não está à espreita — talvez, quem sabe, para conduzir um de seus pequenos para longe delas.
A cena com os pais do bebê morto enfim se encerra. A enfermagem intervém; uma avó recém-chegada também toma parte, amainando o tumulto e confortando a mãe enlutada. Todos parecem enfim se esquecer de minha competente, porém desafortunada amante, e se lembram do pequeno cadáver enrolado em uma manta colorida. Ela sai, com passos apressados, e vem a meu encontro.
Renata chora. Na sala de plantão, para onde nos dirigimos, abraça-me demoradamente, como se fosse uma menina procurando o consolo do pai após um tombo ou uma travessura pela qual foi punida. Os olhos inchados, sua boca logo se acolhe à minha em um demorado beijo. Depois, volta a enlaçar meu pescoço com ambos os braços e aninhar-se em meu peito; parece não se importar com a possível chegada de alguém. Demoramo-nos nesse abraço por muitos minutos.
"Eu... também estou grávida", lança, de chofre.
Incapaz de articular qualquer palavra, aperto-a ainda mais contra meus braços. Gostaria que esse abraço não terminasse nunca mais, mas tão logo esse pensamento se forma, o momento seguinte já se apresenta, impiedoso, à minha frente. Muitos outros minutos se passam dessa forma. Terei mais uma criança?
Verdade seja dita, sempre imaginei Renata como mãe de meus filhos. Quando a conheci eu namorava outra menina. Quando terminei esse relacionamento, ela teve um noivo. E quando rompeu o noivado, eu estava casado com Sara. Nessa confusa dança na qual sempre nos tangenciávamos sem nunca de fato formarmos um par, nunca deixei de pensar nela e, mais tarde, acabei por dormir com ela.
Mesmo nesse momento tão delicado não posso me privar de imaginá-la como mãe. A imagem de seu seio nu, o mamilo onde uma gota cristalina de leite brota, a aréola castanho-escura, e os contornos delicados, e depois a boca faminta de um bebê a sugá-lo. Do mesmo modo como eu próprio meses atrás os sugara, ávido e encantado, como quem descobre a resposta de um terrível dilema. Um mundo morto e uma vivaz cólera urgiam-se dessas impressões: como eu poderia amar ao mesmo tempo duas mulheres? Ou talvez fosse a pergunta errada — isto é, como seria possível que eu amasse e vivesse por uma única mulher? Talvez haja no homem espaço para infinitos amores, e na sociedade a exigência de um só. Esse é um oxímoro intransponível, do qual nasce a hipocrisia e a mentira, e a partir do qual se funda a base desonesta da sociedade. Posso, sim, amar duas mulheres e dois filhos, pois, afinal, aceitar um sentimento não implica necessariamente sacrificar todos os demais.
Renata afasta o corpo. A maquilagem está borrada, desenhando arabescos negros de rímel na face inchada. Ela levanta-se e pega algumas toalhas de papel. Lava o rosto e, tomando de uma pequena nécessaire em sua bolsa, retoca os estragos de seu colapso. Estou sentado, e ela vem até mim e, em pé, abraça minha cabeça e me puxa contra seu ventre; sua mão faz uma carícia tímida em meu cabelo; também aqui pulsa um novo coração, uma vida imprevista, a promessa efervescente de algo jamais prometido. Abraço sua cintura. Ela se despede, sentenciosa:
"Tenho que ir preencher o atestado de óbito" — os olhos turvos, um riso lúcido e contido de melancolia.
Estou sozinho no recinto. De quando em quando, alguma enfermeira entra na sala, observa-me com o rabo do olho, e a deixa novamente. A sala, sem janelas, lúgubre e gelada, é como um medonho purgatório no qual me encontro preso. A tela "Dois girassóis cortados", de Van Gogh, imediatamente me vem à cabeça. Para desviar o pensamento de minha própria vida, penso na criança que recém faleceu.
A morte de cada criança é também um memento mori de minha própria morte: sou finito, sou mortal; também a minha morte vigia-me em algum canto, em alguma ala ou esquina da cidade, e quando se apresentar o momento oportuno, como um pai que procura por um filho desaparecido, um travesso fugitivo, há de me encontrar e de me levar de volta para casa. Colocar-me de castigo na eternidade — ou no inexprimível nada. Talvez atribuir esta imagem paternal à ideia da morte torne-a menos ameaçadora, mais tragável.
Sim, sou finito, e mesmo assim parece que sobreviverei em duas outras existências, como uma flor digerida que oferta seus nutrientes às próximas. O mundo se renova com uma sagacidade incrível, num golpe brutal à nossa insignificância, seres sazonais e explicitamente desnecessários; para nós, as moscas-das-frutas são desprezíveis pois vivem apenas um dia; em nossos muitos anos, achamo-las todas iguais e repetidas, e não daríamos por sua falta se deixassem nossas frutas em paz para sempre. Que seremos nós, então, que somos muito mais breves do que esses insetos quando nos colocamos frente aos olhos do universo? Na longa linha da história, dificilmente eu represento um ponto sequer.
Olho para o relógio. Meu expediente encerra em meia hora. Endireito o corpo, como um animal encurralado; sim, foi até aqui que a vida me trouxe. Ver alguém morrer torna nossa existência mais desesperada, vigorosa. É como um estado febril: "então isto é uma doença; então eu não valorizava meu estado normal, apenas vivia sem maiores implicações. Como fui tolo!" — pensamos. Mas a febre logo cederá e, em poucos dias, a doença ficará esquecida.
A este estado de normalidade dá-se o nome de indiferença. O homem normal é indiferente ao fato de estar vivo. A febre — a febre é apenas o pavor de descobrir que, mesmo esta indiferença, pode ser extremamente passageira.
***
O sol pôs em movimento um célere carnaval no labirinto de concreto da cidade: pagliacci, arlequins, pantaleões e scaramouches contracenam apaticamente no pátio do hospital; um vendedor mal-humorado oferece cachorro-quente e refrigerantes a esses tipos satirizados por escolhas invisíveis; as motos atravessam o caminho dos táxis, que por sua vez atravessam o caminho dos ônibus e estes o dos carros, e os carros o do pedestre, numa estranha cadeia alimentar de pressa e desrespeito; buzinas e impropérios pontuam este desfile, sinais ortográficos nascidos de caos e desordem. As roupas coloridas das mulheres lembram um circo, ainda que melancólico: vermelho, azul, verde, laranja, rosa, lilás; um arco-íris fragmentado em uma miríade, espalhado pelas veias de concreto da cidade.
Faço a primeira ronda da manhã. O bebê-kabuki melhorou muito nos últimos dias. Está perfeitamente curado das complicações e pronto para ir para casa. Seus pais também estão tomados de ares mais saudáveis, sorrisos que transbordam alívio e satisfação. Os três parecem prontos para formar uma família feliz.
Trato dos papéis de sua alta — o bebê que permanece sem nome. Mãe e pai apenas o chamam de "meu filho", "meu filho querido". Apenas outra vez anteriormente havia visto pais não nomearem o filho; àquela época, tinham medo de dar nome a uma criança que pudesse vir a falecer. Temo perguntar ao casal o motivo de sua demora. Apenas dou recomendações rigorosas e solicito que retornem em nível ambulatorial para que o bebê seja acompanhado pelos especialistas do hospital.
Entrego-me a vagar pelos corredores, meu querido purgatório pessoal. Conheço melhor essas alas tortuosas do que talvez conheça a mim mesmo. Quanto tempo passei aqui, quantas pessoas conheci? E por que depois de tantos bebês (duzentos? Trezentos?) me sinto conectado somente a um? E por que justo a esse? Somos tão parecidos, eu e ele, atores esquecidos num mundo de espectadores? Espanto o pensamento, como se afastasse um chumaço de moscas de um pedaço de carne podre, e conduzo meus passos para a enfermaria.
Encontro Renata. Quero dizer-lhe que poderei ser pai também de seu filho, que estarei com ela; que abandonaria agora mesmo Sara se ela também não estivesse grávida. Entretanto tudo o que meus lábios conjeturam é um patético bom-dia e um sorriso atabalhoado. Há duas vidas que preciso viver e só tenho direito a uma.
As horas transcorrem na ampulheta fosca do dia.
Recebo uma ligação. Minha esposa passou mal e está sendo levada para outro hospital; estará ela bem? Estará tudo certo com nosso bebê? No teatro Kabuki, o hanamichi ("caminho das flores") é utilizado para a entrada e para a saída das personagens principais no meio do público. Seria trágico, dessa forma, que Sara ou a bebê saíssem de minha vida por esse caminho, atravessando minha história, deixando-me só no palco. Não sei se esse sentimento carrega amor, egoísmo, ou uma amálgama extasiante de ambos; pouco me importa senão senti-lo plenamente. Não posso perdê-las.
Aviso minha colega do ocorrido. Peço para que ela me substitua; tenho apenas mais duas consultas no ambulatório, não deve ser um grande transtorno para ela. Digo-lhe que compensarei em outra oportunidade. Ela é compreensiva e deseja que tudo dê certo. Eu agradeço, com um sorriso constrangido por sua comiseração e ao mesmo tempo verdadeiramente grato.
Onde estarão os kurokos? O bebê-kabuki sai da UTI, melhora e parece estar pronto para ir embora do hospital. Meu bebê e minha esposa passam mal e estão indo para um hospital desconhecido, e não sei o que se passa com eles. Onde se escondem esses kurokos, terríveis abutres das horas, com sua lógica enferma, e o mecanismo despedaçado de seus atos?
Atravesso as claustrofóbicas e pálidas alas do hospital com destreza — conheço-as como se fossem minhas próprias veias e artérias, como se eu transitasse dentro de meu próprio corpo e procurasse uma saída, uma libertação. Estou próximo da saída; já posso ver o saguão de entrada, onde um cortejo de semblantes apreensivos e sombras recurvadas aguardam, fumam, falam aos celulares, calam-se. Súbito, entretanto, ouço uma voz muito próxima:
"Doutor" — ela me chama, debilmente, com a voz trêmula, e uma mão detém-me com um toque tímido no ombro.
Eu me viro. Há um breve momento de silêncio entre nós.
"Doutor" — repete. É o pai do bebê-kabuki. Um largo sorriso se abre em seu rosto. Ele me abraça, sem dizer palavra. "Ele vai ter alta, finalmente! Alta! Muito obrigado por tudo". Eu lhe digo que não fiz nada; apenas acompanhei o caso, não era sequer o médico responsável. Ele torna a agradecer. Por mais dois minutos, conversamos detalhes escusos do caso, ele tira uma dúvida que aparentemente não possuía e trocamos mais sorrisos. Enfim, ele lança de chofre, com sua franqueza cordial:
"Não creio que lhe dissemos. Com tudo o que aconteceu, não havíamos decidido o nome ainda. Tínhamos algumas opções, mas preferimos escolher depois. E o depois acabou sendo atrasado mais e mais. Enfim... escolhemos batizá-lo com o seu nome. Em agradecimento".
Um pouco confuso, agradeço sem jeito. Nunca haviam dado meu nome a uma criança, ou ao menos me comunicado a respeito de tal fato. Agora, estamos inextricavelmente ligados, eu e o bebê-kabuki. Ele jamais lembrará meu rosto, e eu jamais esquecerei o seu.
Seu pai aperta energicamente minha mão; seus olhos chegam a marejar. Sinto vontade de chorar também, mas estou com pressa até para isso; minha própria filha pode estar em risco. É meu turno de ser pai, talvez a primeira vez de muitas. Despedimo-nos.
Meus pés enfim deixam o saguão. E na verdade parece que deixam um sonho. Como estará Sara? Como estará minha filha? Posso ouvir as batidas de seu pequeno coração se alastrando pelos meridianos compactos do firmamento, dando movimento às estrelas e colorindo os céus, movendo dias e noites, animando as horas e soprando o vento; posso ouvir o sussurro de seu sangue como uma sinfonia em meus ouvidos, entrando em meu corpo e ali se aninhando para sempre, como uma ideia indissolúvel, uma memória, uma cicatriz. Os fios invisíveis do titereiro que anima meus passos céleres, meu próprio coração que pulsa, ansioso e desencantado, premente de angústias.
Na porta do hospital, uma mulher vende flores. Compro girassóis.
Is it possible to feel sad while observing the world through the prism of a sunlit sunflower? — I wonder.
Through the iridescent, coppery petals, my eyes spy the leafy treetops struck by dense shafts of light; birds flitting among them, dust in its drunken drift, the creak of wind between braided trunks. My young wife holds the bouquet of sunflowers I handed her moments ago, wrapped in off-white paper, her translucent, colorless fingers like porcelain. She looks distracted and content, watching children play in the park, chasing their small dogs.
My body drifts in this imprecise space (my soul, however — where could my soul be?); my head rests in Sara's lap. I try to rest, since I'm on my break, and soon I must return to the hospital. It's spring, and the park is carpeted with white and pink petals, as if makeup and lipstick had been spread across the city's youthful face. I feel light, yet at the same time hoisted from a boundless depth — carrying with me the dystopian weight of time and space folded into a single form, a single worn origami.
In twenty minutes I need to be back at the hospital.
"What are you thinking about?" — Sara asks me, punctuating her question with a lazy yawn.
"Nothing," I whisper, lying, trying to reclaim the silence. I'm thinking about many things. A myriad of thoughts vibrates on the restless surface of my mind, meandering, barely lucid, demented insects trying to escape a fire; underground, where they should remain, the hungry rats of my ideas stir, wanting to gnaw at this delicious placidity, leave it exposed to the elements, corrupt it, destroy it; they cannot, under any circumstances, abandon these restless, untouched things, as they supposedly should remain. This is the great curse of consciousness: we struggle to brake it, but it's a runaway railcar whose brakes have been cut by sabotage.
In truth, I'm thinking about how illogical and empty my own existence seems when I try to see myself from an outside observer's point of view; right now, lying in Sara's lap, what sense do I make? If I transformed into an external force, and could thus observe everything and everyone, a mere voyeur of banal existence, it's possible that not a single thing would retain any logical property: everything would suddenly be emptied and seem, even, ridiculous. Yes, these strange thoughts occur to me with alarming frequency.
For example, I often feel that my life is a phantasmagoria, a distant and faded projection of something incomprehensible, an inconsistent representation of a dream or a desire, and that I'm observing it from a faraway point, through a telescope that swallows forms and filters them; like a child watching a show open-mouthed, some sleight of hand obvious to the magician's hands but dazzling to the boy's eyes, I struggle to guess what trick is involved, without success. I know, however, that this magic is not entirely good or captivating: even if important changes occur in this melancholy spectacle, if things vanish, disappear or transform into others, it's as if nothing actually happens. Life's incessant movement hides the fact that within it lies an indivisible immobility, and that no matter how much we seem to move forward, we're always in the same place, sinking in quicksand. No, I don't think I can fully explain this sensation. One would need to feel it.
In fifteen minutes I need to be back at the hospital.
There, there's a kabuki baby. Or at least, that's what I decided to call him, while his parents haven't settled on a name. I'd never seen a baby with such a syndrome before. It's true I've only been a doctor for a few years, and I'm still young, but no case had ever been recorded at our hospital. To tell the truth, there are few cases recorded anywhere in the world. It's on the kabuki baby that my thoughts now focus, it's toward him they point, like an inhospitable north toward which I can walk and walk, filled with exhausted resignation, with no hope of reaching any conclusion.
Everything happened very quickly. When a pregnant woman is in labor, the pediatrician — in this case, me — is called to assist the baby about to be born, while the obstetrician continues attending to the new mother. The pediatrician then wraps the baby in a blanket and takes him to a warm environment, where he weighs him, measures him, and gives him his Apgar score, a rating that evaluates several parameters in the first and fifth minutes of life, useful for assessing the newborn's clinical condition; thus, one observes respiration, heart rate, muscle tone, skin color, and response to the environment. Then, the Capurro score is calculated, a method that estimates the duration of gestation through five different parameters of the ectoscopy. But while I followed all these procedures, as I'd done more than a hundred times before, the child's face obsessed me; there was something peculiar there, something different, atypical. Immediately after the process, I spoke with the attending team who, upon examining the child, quickly agreed that there was, "very probably," some genetic defect in the child. The father was notified almost immediately; from the joyful tears at the news of becoming a father, his face clouded with apprehension when he took the baby in his arms. The Genetics department was called for an evaluation. A meeting between the teams was scheduled for later that same day, and I was put in charge of informing my department head about the case.
Later, when we met for the first time, we reached no conclusion. Everyone went home tasked with conducting a deeper review of the subject. It fell to me and a geneticist, the following day, at the second meeting, to demonstrate that there were similar cases in the literature, named "kabuki makeup syndrome" or, more simply, "Kabuki syndrome." I, initially, was the only one familiar with the typical Japanese theater that gave the syndrome its name.
Although the term Kabuki is composed of the ideograms 歌 (song), 舞 (dance), and 伎 (skill), these are merely ateji — that is, phonemes carrying their own meaning that are linked to represent another word, with which they don't necessarily share any semantic identity. The real meaning of the term seems to derive from the verb kabuku, "to be out of the ordinary," "to act or behave aberrantly," or simply something eccentric that deviates from the norm, in keeping with the bizarre theater that originated in early seventeenth-century Japan.
The child, therefore, resembled a kabuki actor: slightly everted eyelids, thin arched eyebrows shaped like arrows, exaggeratedly long eyelashes, a flattened nose with a short nasal septum, low hairline, blue sclerae, elongated palpebral fissures. Furthermore, there were many findings on physical examination that matched the reports described in the medical literature, which finally helped us reach the final verdict.
Yes, because often a diagnosis functions as a verdict. A sentence that must be served for life, and that's why I have such difficulty delivering such news to a patient's family. During the first physical examination, conducted beside the mother's bed, the parents looked at me with trembling expectation, as if I were the judge who would determine the fate of their precious son; would he live? Or, more importantly: would he live under normal conditions? I was evasive. I said there were abnormalities in the examination and that we believed it was a certain syndrome. Later, the department head explained in more detail: there could be mental retardation, mild to moderate; hearing problems, including deafness; kidney and gastrointestinal problems; greater susceptibility to infections, especially respiratory ones, and particularly in the first years of life, when for this and that reason their little baby was more vulnerable; and so on. I accompanied him, while the mother wept holding her beloved son, loving him more with each harsh prophetic word from my chief. I was like a stupid angel, dressed in my white coat, listening to a grizzled and solemn God judge an innocent; all I could do was acquiesce and remain silent.
In five minutes, I need to be back at the hospital.
Out of the corner of my eye, I observe Sara, whose eyes are half-closed, dozing; the sunflower and the light brush her face with golden hues, and her chest makes a gentle rise and fall beneath her blue blouse. She's pregnant, and this is the sixth month of gestation. We carefully planned this step in our lives. I'd been planning to have a child for a long time, in fact. I started folic acid supplementation twelve weeks before conception itself, as international recommendations dictate, and stopped after the end of the first trimester. I'd planned all the prenatal appointments long before the child's conception. And over the past six months, we've spent enjoyable moments buying clothes, toys, books, and accessories for the child, discussing names and planning the future. According to the ultrasound, we'll have a girl.
Sara worked at a communications company, and we agreed she would quit and not work at least during the pregnancy and the child's first two years; we both thought it best. Afterward, we'd see. Besides, my income is enough to guarantee us a decent life — perhaps without luxuries, but certainly without any deprivation. I'm certain I'll be a caring and attentive father. However, I cannot predict all the variables. Not the entire equation belongs to me: I am, myself, defenseless, exposed... powerless. I know that I too can fall victim to chance, and suddenly find myself with my hands tied, watching fate demolish my sandcastles.
I need to get back to the hospital.
***
Through the window, spirals of electricity dance, drawing silvery arabesques that ignite and dissolve again into darkness, leaving dazzling trails in the retina's memory; nervous fireflies crawling across the silver sky. To a doctor, they recall the contrasts tracing a patient's circulatory system, waiting impatiently to identify the site of a possible obstruction, by the abrupt interruption of blood flow caused by a stenosis. At least in my case, I've come to see disease everywhere I go: I carry it inside me, and perhaps I myself am an extension of it — or, in simpler words, perhaps my soul has become diseased.
It's been a week since the kabuki baby was admitted. His parents are now aware of his condition; most of the tests have been completed. There's a problem with his hearing, he has difficulty breastfeeding, and there's also congenital hip dysplasia, discovered while I was performing the physical examination. Other than that, he'll soon be able to be discharged and go home. The rest, only time will tell.
Japanese culture had always fascinated me. As soon as I learned the diagnosis of that baby, I'd spent the entire week studying Kabuki theater and the rare disease that bore its name. The father especially, seeing that I took keen interest in the case, excusing himself from the attending physician, an elderly man in his yellowed coat, prisoner to flowcharts and robotic protocols, interested only in stabilizing the child's clinical condition and providing the fewest explanations possible (since we all knew as little as possible, having discovered barely a week ago that the disease even existed), soon saw in me a place of refuge, an ideal port to channel all his insecurity. Or perhaps he inferred that I was all he had left, fascinated as I was by that broad, exuberant facies, the prominent widened cheeks, the flat lips, which reminded me of old Japanese illustrations from fables I used to read as a child, faces powdered thick with rice powder. And he came to ask me precisely this:
"Why do they call my son's disease Kabuki syndrome?"
He was a man of simple appearance, with an air already distrustful of himself. Looking into his eyes, I was invaded by the impression that he was incapable of not being frank, that he would know nothing but directness. I hesitated for a second before answering — the whole situation had begun to remind me of a novel by Kenzaburo Oe, which I'd read shortly before graduating, and in that brief faltering, in that extended and compact silence, it seemed surreal that I was part of something even remotely similar.
Patiently, I explain everything he wants to know. I make daily visits to the little baby, who remains nameless. Why does he remain nameless? — I remember asking myself, incessantly, without, however, having the courage to mention the subject in the parents' presence. Are they confused, or so worried they've even forgotten? Giving a name to a baby haunted by death and in whose future hover nothing but doubts and uncertainties perhaps amounts to a gratuitous formality, unnecessary, in the end. This baby, however, seems to be loved despite everything.
The father nods his head. A halting sigh in the suffocating waves of heat; it's going to rain soon, cooling the day. Heat and lightning conduct a melancholy spectacle before my retinas. The baby is sweaty; "could it be the beginning of a fever?" — the father asks me. I check the nursing measurements: the reading is borderline, one can't consider this temperature a fever, nor does the baby present symptoms... and, mentally, I wonder: would a baby in this condition present the same symptoms as others?
I reassure the parents. At the end of the afternoon I'll stop by again to check his temperature. He thanks me effusively. The mother is half-asleep with the baby beside her. The horizon outside shatters like a tungsten filament breaking, and like pieces on a board left for tomorrow, people are colored in a play of shadows and yellowed light.
I step away; this is a rare moment of calm, in which they stop asking me questions, and I can walk through the corridors with their greenish floors and off-white walls sutured here and there by wood or metal or doors, and think more precisely, better delineate what prowls, concealing itself like a wild animal, at the faded edges of my thoughts, when finally the fear assaults me: what if my daughter is born with some defect? Not necessarily a kabuki baby, but any other, what would I do then? Perhaps I would be seized by the same dread and the urge to flee as the protagonist of Kenzaburo Oe's novel; and then, like him, I would resign myself, accept the new situation and accept life again, renewed. It was impossible not to imagine something along these lines. Dostoevsky's first daughter, for example, died at three years old. Three years! What pain it would be to taste paradise for three years and then be expelled from it forever? How is it possible to emerge unscathed, with an intact heart, from such an ordeal?
The fact is, one cannot.
I studied the subject during medical school, and for a long time I noticed that women have fantasies about childbirth and the baby. There's the constant fear that the fetus is dead in her womb; that it has some deformity; and that childbirth will tear or destroy the woman's image, castrate her in some way. The fantasy of death also plagues the expectant mother: will I survive the delivery? Will my child be born alive, whole? Such doubts seem too cruel to me, but the reward of a life is proportional: generally one can read in each mother's exhausted and graceful face that it was worth it. It's possible that Sara also experiences these anxieties; it's possible that I myself fear for my baby. What is the great mystery of uncertainty, why are we so averse to chance? — I murmur, to myself.
Late afternoon advances over the city; the sky has turned gangrenous with slate-colored clouds, diluted in black tones. Curved around one another, caught by an overwhelming and invisible force, they coagulate into a damp mist that threatens to plummet, strange and distant ethereal ships whose hulls want to split. The entire city rests in a gray anguish. The minutes drag across the horizon until choleric hailstorms begin to lash the colorless edges, the metallic cars that hum like smudges, and the umbrellas, which look like thrashing crows seen from this tenth floor, beat their wings in the geometric labyrinth of the streets; the sound of the storm drumming against the windows recalls a constellation of racing hearts, pulsing furiously.
The kabuki baby's body burns with fever.
***
His general condition has worsened in the last few hours; he's become febrile, agitated. His respiratory rate now remains above sixty breaths per minute, there's subcostal retractions, nasal flaring, and his oxygen saturation has plummeted; cyanosis is beginning to infiltrate his paper-thin skin, giving it a cobalt hue; on my recommendation, he's transferred to the neonatal ICU. The dramatic staging of his short and playful life may reach an unexpected end.
In kabuki theater, the kurokos, as a type of stagehands are known, dress in black and, during the course of the play, walk back and forth moving scenery and costumes, exposed to the audience. The kurokos alter the composition of the stage suddenly, and despite being theoretically invisible, their actions are notably seen. I can't help but think that in hospital stays too (and in life in general) there are kurokos at work, certain stagehand "angels" who interfere in the course of history all the time; for, if on one side we have the baby who once smiled and now teeters toward death's chasm, on the other we find a baby who was comatose and refractory to any treatment, and now sucks at his mother's breast with virile strength and enviable vitality. These sudden, unexpected changes — what kind of kuroko operates them, and under whose instruction? Can we really do anything, dressed in white, against these invisible black angels who walk back and forth playing with others' fortunes, shuffling destinies, or are we merely puppets in their script? A doctor is, despite all his pretensions, sometimes life's supporting actor, sometimes death's — nothing more.
Renata arrived for her shift; my colleague is cheerful, even in the most difficult situations. I enjoy her company, the way children enjoy watching their mobiles, or feeling their mothers' warmth; I enjoy the protection that her indifference to the world awakens in me. She's one of those people who retain within themselves a delicate trace — in her smile, in the way she parts her hair, in her distracted air — that keeps the spirit of her childhood immortalized in a palpable, visible amber. Months ago, we slept together. Soon, perhaps, we'll sleep together again. Love and flesh — why do they walk so separately, for some? I can't free myself from the label of hypocrite, but I'm sincere about what I feel and do. I love Sara, but Renata's perfume has the curious effect of making my day less bitter.
I update her on the status of all the hospitalized children; we discuss a new article that came out in a pediatric journal, updating the protocol for a certain neonatal condition. We comment on the news that a former professor has died.
After a silence, she asks me:
"How is that baby?"
"Still critical. But better."
She sniffles and wrinkles her nose, like a rabbit.
"Sometimes it would be better not to have children than to have a child like that, don't you think?"
Her statement surprises me. Laconic and categorical, I answer:
"No."
She smiles, with the corners of her lips quite wide and her vast milk-white teeth somewhat sardonic, an enchanting and hieroglyphic laugh, and then we say goodbye, without rancor or tenderness. I adore the sensation of complete ignorance I experience about what she feels.
I almost never notice the way home; certain things happen almost automatically. I know I exchange some disconnected words with someone along the way; that I drag myself disinterestedly, though hurriedly, to the parking lot. That I drive along a predetermined route and get irritated in traffic. But I only wake from this bureaucratic dream when I leave the elevator, almost at my door.
I enter. Sara is asleep on the sofa. The small living room is also asleep in the twilight, in the crimson tone of the departing sky, in the cyanotic cry of dusk that first turns a faded red and then granulates into purplish and blackened tones, with shadows marching behind the furniture; my books are piled everywhere. Books on medicine, literature, history, philosophy, fine arts. There are also many children's comics. My favorites are the "Little Nicolas" book series by René Goscinny and "The Adventures of Tintin" by the Belgian Hergé. I dream of reading these stories to my daughter. Sara is impressed by this: while most men are averse to the idea of being a father, I, on the contrary, am obsessed with it. But why does it enchant me so much to create a life and subject it to this unconditional love?
When I was little, I was abandoned. Not in the conventional sense; my parents didn't leave me in a basket at a rich family's door, as one reads in modern stories, or in a basket on the Nile, as happened to the prophet. I was abandoned at home; my father worked and my mother had problems with alcohol. Over time, my father left, and my mother even when present was as if she were in another world. She was a ghost. I could see her and hear her moaning at dawn, unconscious, grinding her tongue's strap, cursing all manner of men, but I couldn't touch her. I couldn't feel her anywhere.
I left as quickly as I could, otherwise I would have gone mad. I believe I only endured such an ordeal because I spent most of my time immersed in books, imagining adventures better than being the rejected son of an alcoholic. Often, in conversations, I hear medical colleagues saying: "Certain people shouldn't have children." And in silence I acquiesce, my eyes fixed on a past already fogged over, gaunt, whose memories more and more strip themselves bare and feed a better present and future, built through my own effort and my nascent family. Perhaps the foundation of everything I feel is a genuine and blind sentiment of reparation; a restlessness for never having known what is so dear and familiar to others. Even so, the unbreakable doubt remains: am I having a child to have someone to whom I can dedicate my love unconditionally, or am I having a child to be loved unconditionally? Perhaps both hypotheses are equally plausible, braided like the strands of a rope, and precisely for this reason inextricable.
I look at the DVD player display. It's on — the numbers spin, counting, loves me, loves me not. I eject the disc: "Dreams," by Akira Kurosawa. It's one of my favorite films.
Sara is passionate about cinema. In our living room there's a poster from the film "Cinema Paradiso" — I've lost count of how many times she's watched it and how many of those I was obliged to rewatch it with her. She could go to the movies every day without ever tiring. I, for my part, don't have much patience for images that inject themselves through my retina, defined and static portions of the world that inoculate themselves into the obscure structures of my brain, arriving there through my optic nerve and vestibulococlear nerve, the two strange needles that anesthetize my creativity; I rarely watch films and almost never more than once. I prefer words read, active, chewed between my eyelids and spreading through each ocular neuron like a feverish and overwhelming passion that brings indispensable, incomparable messages. A myriad of god-ideas circling around my ego, sweeping me up in a delirium of experience and its incomprehension. Books are, therefore, my second soul and my true home.
In Kurosawa's film there's a scene where radioactivity is vomited by nuclear plants and spreads across the islands of Japan; a woman, an industrialist, and a common man find themselves surrounded by colored clouds of death and misfortune; they carry in their womb the promise of deformities, anomalies, horrible mutations. In the next scene of the film (the following dream) the image repeats in the akuma (demon) that wanders among aberrant, gigantic dandelions. In that first scene, however, the woman brings with her two children; children surrounded by death on all sides. Again the feeling of impotence that encompasses everything. Could this be the common denominator of our generation? We think we can do anything, that we're gods qualified by technology, that we control everything and that nature and variables are at our feet, ready to sacrifice themselves for us, that they're our subjects, but in a simple swerve, in a brushstroke, we're stripped of everything and we falter; we become humiliated, offended lackeys, and in an instant, we're all defined (and delimited) by what is unattainable to us.
In the same film, there's a scene where the protagonist strolls through settings taken from Van Gogh's canvases to meet the painter. This comes to mind now, because in our bedroom there's a reproduction of one of the famous "Sunflowers" paintings by the Dutch painter. That's how we met, Sara and I; in a bookstore, I was leafing through the artist's illustrated works. Sara stopped beside me and we struck up a conversation about the subject; weeks later, we were together. And ever since, the flower that resembles a sun has assumed important symbolism in our lives.
When we made love for the first time, she posed in front of the painting, imitating Isaac Israel's painting, "Woman before Van Gogh's Sunflowers." When we decided to conceive a child, we repeated the scene, nostalgic and in love.
Sara woke up. Twilight had girded the narrow living room and the other rooms with its mist of shadows, but my eyes have already adjusted and can distinguish the forms submerged in gloom. She, however, rubs her eyes and takes a while to make me out, compressed between absence and reality. Finally, she rejoices at seeing me, kisses me tenderly and asks if I want to eat something. No, I'm too tired. We talk about how we spent the day for about an hour and then I go to bed. She, of course, is going to watch a film before joining me.
I lie down; during the day, my mind is a metallic surface struck by a heavy hammer, vibrating thunderously, brandishing an endless stream of conjectures, memories and digressions. Before sleep, this force that syncopatedly assailed me gradually softens, wants to merge with silence and sleep too — except that our mind never stops vibrating, even if to the naked eye it seems so.
Proof of this is that I haven't had peaceful sleep for a long time. I don't always remember what happened in my dreams, but I recognize they are troubled, and often even disturbing. I never dream about my patients, however. They are, in general, empty events, deserts, where I walk through uninhabited places looking for someone who is distant, or who perhaps isn't anywhere. This time, however, I hear a thin, strangled cry, sifting through the fixed night, that almost blends with the rain falling in methodical hailstorms outside, fogging the long windows that surround me. It's a long corridor, with one side opening to an external area and the other to a series of doors. Without a doubt, it's a ward.
I seem not to feel my steps. Along the way, there are trays with surgical scissors, off-white gauze, bandages, medicine bottles, ampoules, the most varied metallic objects. All are dear acquaintances to me. Through the dream I seem to inhale the aroma of disinfectant that gives a hospital its characteristic smell. I watch night devour the sky as my steps climb an unknown path. A half-open door invites me to enter; through it, increasingly noticeable, the crying pours, torrential, thirsting for indulgence.
Tangled in a wool blanket, abandoned inside a pediatric bed, lies the little kabuki baby. He falls silent when he notices my presence. We are alone in the world, he and I.
I look bitterly at this baby — a baby who doesn't yet smile. The social smile of babies only appears at two months of age. The adult's tends to disappear and be replaced by a pathetic, conventional substitute, that fixes itself to the lips whenever it's required, rarely containing any trace of purity. I don't know what's more enviable: the time when I didn't know how to smile or the time when I smiled without knowing why.
"I can't do anything for you," I murmur, with veiled tenderness, but not without a certain embarrassment. He certainly doesn't understand. His eyes remain fixed on me, eyes of an actor who doesn't know he's performing, oblivious to the theater — always oblivious to it. For a moment, his expression freezes in a legitimate mie — the typical expression of kabuki actors, which concentrates all the suffering and sentimental translation of the character in a single instant of time; his keshō, that is, his makeup, is composed of his own skin, by mutated genes, by the unexplained anomaly; the oshiroi and kumadori that give him his typical aspect. Then, he closes his eyes and seems to fall asleep in peace (children's sleep is perhaps the only real peace in the world). I turn off the light and withdraw.
I continue walking through the external area, but everything is suddenly transformed. I am only a child; my feet are light, my clothes are no longer a dress shirt and a coat, with worn jeans and discreet sneakers, but colorful, cheerful clothes. People begin to appear, like souls wandering in some poorly rehearsed procession, a purgatory that holds something joyful and auspicious. There's a gray tone and a silence that inhabits everything, the world is the score and we are the hollow and muffled notes sounding from the catatonic fingers of a drunken musician, and as I walk through the cold, inhospitable metropolis, with my clumsy, bumbling steps, a discreet murmur is carried by the wind; they seem like the acoustic, shadowy and indecipherable sounds that propagate through the diaphragm of a stethoscope to the inexperienced ears of a young doctor, indistinct and enchanting like an unknown language. An indecipherable but captivating beauty. No, it's not just the sounds of auscultation: it's an accelerated frequency, though fragile and quite atypical, variable like a young man's dreams. This is the sound of a Pinard stethoscope, an instrument used to hear fetal heartbeats during pregnancy. At midnight's meridian, a baby's heart pulses over the city; I feel cold. And then I wake.
Sara is lying beside me. It's already the small hours. From time to time, pieces of phrases escape her mouth along with her breath. Her voluminous belly pronounces itself through the sheet; perhaps beside me pulses the rhythm that flowed in my dreams. I close my eyes, comforted by this thought.
In my second dream, night condenses over a field of sunflowers, which seem in truth like small moons, shrinking, like sad mouths, waning moons — I'd call them moonflowers —, assuming a gray, worn and disenchanting aspect. Walking through this strange vegetation, I find myself desolately alone. There's no longer any cry or clandestine noise infiltrating this surface. I am, again, alone.
***
The determination of the kabuki baby's parents impresses me. Now that the baby has left the ICU, the mother never leaves his side. She smiles constantly, even when she's sad — and there's nothing more burdensome than smiling at the mercy of an overwhelming sadness. The father, though taciturn, withdrawn, only steps away to fetch food and water for his wife, or to get some new piece of clothing, or something of the sort. They're always together. On the other hand, I've seen many other parents abandon perfectly normal children in the hospital for no reason at all. Some simply disappeared. Others abused the children, mistreated them physically or sexually, and the department had to intervene to remove the children from their parents. These children were sent to special institutions, to be raised as orphans, and to live under the nauseating expectation of being adopted. The world can be extremely confusing, especially when it comes to so-called "parental love." Seen from this angle, the kabuki baby has been luckier than many of us — myself included. Which leads me to the strange thought that, perhaps this baby suffers from a syndrome that could be considered a developmental "anomaly," or a genetic defect. But the love of those other parents for their children, isn't it an anomaly or a defect much more intimate, much more serious? As a doctor, I have no right to such value judgments. Not visibly. But the more the desire to be a father grows in me, the less I understand how someone can not love their own child. Perhaps this is a feeling that every unloved child shares in secret with one another.
It's very hot. Beneath the cotton apron, droplets of sweat flood my body. The open windows let warm gusts of air pour through, playing with the curtains, tossing them upward like confetti.
The morning passes without incident. A day without them is an atypical day, which always leaves me suspicious that something bad is reserved for the rest of the day. By afternoon, my superstition, foolish as it may be, seems to confirm itself.
In one of the pediatric wards, a child dies. Bacterial meningitis. It was one of Renata's patients; the parents rail against her, cry, pour all their impotence in the form of cruel sentences; Renata must be to blame, she needs to be to blame. I've been in her place before, and, as I recall, I felt like the Grim Reaper of popular culture; instead of an hourglass, the time of death; instead of a scythe, a stethoscope. And instead of the black robe, a white coat. In Polish culture, death is called Śmierć, and wears a white robe. I know this because, back in my student days, I was attending an elderly woman with Alzheimer's who, upon seeing me enter the office in my white coat, pointed her gaunt, bony finger in my direction, and stammered, terrified: "Śmierć! Śmierć!" Her daughter, hours later, told me what this terror represented and the immediate effect it had on that woman. The next day, the demented old woman was dead.
Renata is still in trouble. The dead baby's mother shakes the small, fragile body the way a little girl would shake her broken rag doll, wailing; her screams echo through the cold wards, ricochet in the gloom that spreads like mold, and reach the other mothers, who maintain a respectful silence, monks with breasts dripping milk, peering with suspicious eyes to see if death isn't lurking — perhaps, who knows, to lead one of their little ones away from them.
The scene with the dead baby's parents finally ends. The nursing staff intervenes; a newly arrived grandmother also takes part, calming the turmoil and comforting the grieving mother. Everyone seems to finally forget about my competent but unfortunate lover, and remember the small corpse wrapped in a colorful blanket. She leaves, with hurried steps, and comes to meet me.
Renata cries. In the on-call room, where we head, she embraces me for a long time, as if she were a little girl seeking her father's comfort after a fall or a prank for which she was punished. Her eyes swollen, her mouth soon finds mine in a lingering kiss. Then, she wraps her arms around my neck again and nestles against my chest; she doesn't seem to care about someone possibly arriving. We linger in this embrace for many minutes.
"I'm... also pregnant," she says, suddenly.
Unable to articulate any word, I hold her even tighter against my arms. I wish this embrace would never end, but as soon as this thought forms, the next moment already presents itself, merciless, before me. Many more minutes pass this way. Will I have another child?
Truth be told, I always imagined Renata as the mother of my children. When I met her I was dating another girl. When I ended that relationship, she had a fiancé. And when she broke off the engagement, I was married to Sara. In this confused dance in which we always brushed past each other without ever actually forming a pair, I never stopped thinking about her and, later, ended up sleeping with her.
Even in this delicate moment I can't deprive myself of imagining her as a mother. The image of her naked breast, the nipple where a crystalline drop of milk emerges, the dark brown areola, and the delicate contours, and then the hungry mouth of a baby suckling it. Just as I myself had suckled them months ago, eager and enchanted, like someone discovering the answer to a terrible dilemma. A dead world and a vivid rage urged themselves from these impressions: how could I love two women at the same time? Or perhaps it was the wrong question — that is, how could it be possible for me to love and live for only one woman? Perhaps there is room in a man for infinite loves, and in society the demand for only one. This is an insurmountable oxymoron, from which hypocrisy and lies are born, and from which the dishonest foundation of society is built. I can, yes, love two women and two children, because, after all, accepting one feeling doesn't necessarily mean sacrificing all the others.
Renata pulls away. Her makeup is smeared, drawing black arabesques of mascara on her swollen face. She stands up and grabs some paper towels. She washes her face and, taking a small toiletry bag from her purse, touches up the damage from her collapse. I'm sitting, and she comes to me and, standing, embraces my head and pulls me against her belly; her hand makes a shy caress through my hair; here too pulses a new heart, an unforeseen life, the effervescent promise of something never promised. I embrace her waist. She says goodbye, sententiously:
"I have to go fill out the death certificate" — her eyes clouded, a lucid and restrained laugh of melancholy.
I'm alone in the room. From time to time, some nurse enters the room, glances at me out of the corner of her eye, and leaves again. The room, windowless, gloomy and cold, is like a dreadful purgatory in which I find myself trapped. The painting "Two Cut Sunflowers" by Van Gogh immediately comes to mind. To divert my thoughts from my own life, I think about the child who just died.
The death of each child is also a memento mori of my own death: I am finite, I am mortal; my death too watches me from some corner, some ward or street corner of the city, and when the opportune moment presents itself, like a father searching for a missing child, a mischievous runaway, it will find me and take me back home. Put me in time-out in eternity — or in inexpressible nothingness. Perhaps attributing this paternal image to the idea of death makes it less threatening, more palatable.
Yes, I am finite, and yet it seems I will survive in two other existences, like a digested flower that offers its nutrients to the next ones. The world renews itself with incredible sagacity, in a brutal blow to our insignificance, seasonal beings and explicitly unnecessary; to us, fruit flies are despicable because they live only a day; in our many years, we find them all equal and repeated, and wouldn't notice their absence if they left our fruit alone forever. What are we, then, who are much briefer than these insects when we place ourselves before the eyes of the universe? In the long line of history, I hardly represent even a single point.
I look at the clock. My shift ends in half an hour. I straighten my body, like a cornered animal; yes, this is where life has brought me. Watching someone die makes our existence more desperate, vigorous. It's like a feverish state: "so this is an illness; so I didn't value my normal state, I just lived without further implications. How foolish I was!" — we think. But the fever will soon subside and, in a few days, the illness will be forgotten.
To this state of normality we give the name indifference. The normal man is indifferent to the fact of being alive. Fever — fever is merely the dread of discovering that, even this indifference, can be extremely fleeting.
***
The sun set in motion a swift carnival in the city's concrete labyrinth: pagliacci, harlequins, pantaloons and scaramouches perform apathetically in the hospital courtyard; a grumpy vendor offers hot dogs and sodas to these types satirized by invisible choices; motorcycles cut across the path of taxis, which in turn cut across the path of buses and these the path of cars, and cars that of pedestrians, in a strange food chain of haste and disrespect; horns and insults punctuate this parade, punctuation marks born of chaos and disorder. The colorful clothes of women recall a circus, though melancholic: red, blue, green, orange, pink, lilac; a rainbow fragmented into a myriad, scattered through the city's concrete veins.
I make the first round of the morning. The kabuki baby has improved greatly in recent days. He's perfectly cured of the complications and ready to go home. His parents also seem healthier, smiles overflowing with relief and satisfaction. The three of them seem ready to form a happy family.
I handle the paperwork for his discharge — the baby who remains nameless. Mother and father only call him "my son," "my dear son." Only once before had I seen parents not name their child; at that time, they were afraid to name a child who might die. I'm afraid to ask the couple the reason for their delay. I only give strict recommendations and ask them to return on an outpatient basis so the baby can be followed by the hospital's specialists.
I give myself over to wandering through the corridors, my dear personal purgatory. I know these tortuous wards better than I perhaps know myself. How much time have I spent here, how many people have I met? And why, after so many babies (two hundred? Three hundred?) do I feel connected to only one? And why this one? Are we so similar, he and I, forgotten actors in a world of spectators? I brush away the thought, as if swatting a clump of flies from a piece of rotting meat, and direct my steps toward the ward.
I find Renata. I want to tell her that I can be the father of her child too, that I'll be with her; that I would leave Sara right now if she weren't also pregnant. However, all my lips conjecture is a pathetic good morning and a clumsy smile. There are two lives I need to live and I only have the right to one.
The hours pass in the day's dim hourglass.
I receive a call. My wife has fallen ill and is being taken to another hospital; will she be all right? Will everything be all right with our baby? In Kabuki theater, the hanamichi ("flower path") is used for the entrance and exit of the main characters through the middle of the audience. It would be tragic, in this way, if Sara or the baby left my life by this path, crossing through my story, leaving me alone on stage. I don't know if this feeling carries love, selfishness, or an intoxicating amalgam of both; I care only to feel it fully. I cannot lose them.
I inform my colleague of what happened. I ask her to cover for me; I have only two more appointments in the clinic, it shouldn't be a major inconvenience for her. I tell her I'll make it up to her another time. She's understanding and wishes me well. I thank her, with a smile constrained by her compassion and at the same time truly grateful.
Where are the kurokos? The kabuki baby leaves the ICU, improves and seems ready to leave the hospital. My baby and my wife have fallen ill and are being taken to an unknown hospital, and I don't know what's happening to them. Where do these kurokos hide, terrible vultures of the hours, with their diseased logic, and the shattered mechanism of their acts?
I cross the claustrophobic and pale wards of the hospital with skill — I know them as if they were my own veins and arteries, as if I were traveling inside my own body and searching for an exit, a liberation. I'm near the exit; I can already see the entrance hall, where a procession of apprehensive faces and curved shadows wait, smoke, talk on cell phones, fall silent. Suddenly, however, I hear a voice very close:
"Doctor" — she calls me, weakly, with a trembling voice, and a hand stops me with a timid touch on the shoulder.
I turn around. There's a brief moment of silence between us.
"Doctor" — he repeats. It's the kabuki baby's father. A broad smile opens across his face. He embraces me, without saying a word. "He's being discharged, finally! Discharged! Thank you so much for everything." I tell him I didn't do anything; I just followed the case, I wasn't even the attending physician. He thanks me again. For two more minutes, we discuss obscure details of the case, he asks a question he apparently didn't have and we exchange more smiles. Finally, he says suddenly, with his cordial frankness:
"I don't think we told you. With everything that happened, we hadn't decided on a name yet. We had some options, but we preferred to choose later. And later kept being delayed more and more. Finally... we chose to name him after you. In gratitude."
Somewhat confused, I thank him awkwardly. No one had ever given my name to a child, or at least informed me of such a fact. Now, we're inextricably linked, the kabuki baby and I. He'll never remember my face, and I'll never forget his.
His father shakes my hand energetically; his eyes begin to water. I feel like crying too, but I'm in too much of a hurry even for that; my own daughter may be at risk. It's my turn to be a father, perhaps the first time of many. We say goodbye.
My feet finally leave the entrance hall. And in truth it seems they leave a dream. How is Sara? How is my daughter? I can hear the beats of her little heart spreading across the compact meridians of the firmament, setting the stars in motion and coloring the skies, moving days and nights, animating the hours and blowing the wind; I can hear the whisper of her blood like a symphony in my ears, entering my body and nestling there forever, like an indissoluble idea, a memory, a scar. The invisible strings of the puppeteer who animates my swift steps, my own heart that pulses, anxious and disenchanted, urgent with anguish.
At the hospital door, a woman sells flowers. I buy sunflowers.
¿Es posible sentirse triste observando el mundo a través del prisma de un girasol iluminado? — me pregunto.
A través de los pétalos iridiscentes y cobrizos, mis ojos espían las copas frondosas de los árboles alcanzadas por densos haces de luz; los pájaros revoloteando entre ellas, el polvo en su flujo ebrio, el crujido del viento entre los troncos trenzados. Mi joven esposa sostiene el ramillete de girasoles que le entregué hace poco, envuelto en papel blanquecino, sus dedos translúcidos y descoloridos como porcelana. Tiene un aire distraído y contento, y observa a los niños jugando en el parque, corriendo detrás de sus pequeños perros.
Mi cuerpo está a la deriva en este espacio impreciso (mi alma, sin embargo — ¿dónde estará mi alma?); mi cabeza descansa en el regazo de Sara. Intento descansar, pues estoy en mi receso, y pronto debo volver al hospital. Es primavera, y el parque está alfombrado de pétalos blancos y rosados, como si maquillaje y lápiz labial hubieran sido esparcidos sobre el rostro jovial de la ciudad. Me siento ligero, y al mismo tiempo izado desde una profundidad sin límites — cargando conmigo el peso distópico del tiempo y el espacio plegados en una sola forma, un solo origami desgastado.
En veinte minutos necesito estar de vuelta en el hospital.
"¿En qué estás pensando?" — me pregunta Sara, colocando como punto final un bostezo perezoso.
"En nada", musito, mintiendo, intentando reclamar el silencio de vuelta. Estoy pensando en muchas cosas. Una miríada de pensamientos vibra en la superficie inquieta de mi mente, serpenteantes, poco lúcidos, insectos dementes intentando escapar de un incendio; en el subterráneo, donde deberían permanecer, las ratas hambrientas de mis ideas se agitan, quieren mordisquear esta sabrosa placidez, dejarla expuesta a la intemperie, corromperla, destruirla; no pueden, de ninguna manera, abandonar estas cosas inquietas, intocadas, como supuestamente deberían permanecer. Esta es la gran maldición de la conciencia: luchamos por frenarla, pero es un vagón descontrolado, cuyos frenos fueron cortados por sabotaje.
En verdad, estoy pensando en cuán ilógica y vacía me parece mi propia existencia cuando intento verme desde el punto de vista de un observador externo; ahora mismo, recostado en el regazo de Sara, ¿qué sentido tengo yo? Si me transformara en una fuerza externa, y así pudiera observar todo y a todos, un mero voyeur de la existencia banal, es posible que ni una sola cosa conservara propiedad lógica alguna: todo repentinamente se vaciaría y parecería, incluso, ridículo. Sí, estos pensamientos extraños me ocurren con frecuencia asombrosa.
Por ejemplo, muchas veces siento que mi vida es una fantasmagoría, una proyección distante y desvanecida de algo incomprensible, una representación inconsistente de un sueño o un deseo, y que la estoy observando desde un punto lejano, a través de un telescopio que engulle las formas y las filtra; como un niño que asiste a un espectáculo boquiabierto, algún juego de manos obvio para las manos del mago, pero deslumbrante para los ojos del niño, me esfuerzo por adivinar cuál es el truco involucrado, sin éxito. Sé, sin embargo, que esta magia no es del todo buena o cautivadora: aunque cambios importantes se procesen en este espectáculo melancólico, aunque cosas desaparezcan o se transformen en otras, es como si nada de hecho ocurriera. El movimiento incesante de la vida esconde el hecho de que en ella hay una inmovilidad indivisible, y de que por más que parezca que avanzamos, siempre estamos en el mismo lugar, hundiéndonos en arenas movedizas. No, creo que no logro explicar enteramente esta sensación. Sería preciso sentirla.
En quince minutos necesito estar de vuelta en el hospital.
Allí, hay un bebé-kabuki. O, al menos, así decidí llamarlo, mientras los padres no se deciden por un nombre. Nunca había visto un bebé con tal síndrome antes. Es verdad que soy médico hace apenas pocos años, y aún joven, pero ningún caso había sido registrado antes en nuestro hospital. A decir verdad, hay pocos casos registrados también en el mundo entero. Es en el bebé-kabuki en quien mi pensamiento se concentra ahora, es hacia él que apunta, como un norte inhóspito en dirección al cual puedo caminar y caminar, colmado por una exhausta resignación, sin esperanza de llegar a conclusión alguna.
Todo ocurrió muy rápidamente. Cuando una gestante está en proceso de parto, el pediatra — en este caso, yo — es llamado para prestar asistencia al bebé que va a nacer, mientras el obstetra continúa la atención a la madre recién parida. El pediatra, entonces, envuelve al bebé en una manta y lo lleva a un ambiente calefaccionado, donde lo pesa, mide y le da el Apgar, una nota que evalúa algunos parámetros, en el primer y quinto minuto de vida, útil para evaluar la condición clínica del recién nacido; así, se observa la respiración, los latidos cardíacos, el tono de sus músculos, la coloración de la piel y su respuesta al medio ambiente. Después, se calcula el puntaje de Capurro, un método que estima la duración de la gestación del niño por cinco parámetros diferentes de la ectoscopía. Pero mientras yo seguía todos estos procedimientos, como ya había hecho más de un centenar de veces, el rostro del niño me obsesionó; había algo peculiar allí, algo diferente, atípico. Inmediatamente después del proceso, conversé con el equipo asistente que, al examinar al niño, no tardó en concordar que había, "muy probablemente", algún defecto genético en el niño. El padre fue comunicado casi inmediatamente; del llanto alegre por la noticia de ser padre, su rostro se nubló de aprensión cuando tomó al bebé en brazos. El servicio de Genética fue llamado para una evaluación. Una reunión entre los equipos fue agendada para más tarde, aquel mismo día, y yo quedé encargado de avisar al jefe de mi sector respecto al caso.
Más tarde, cuando nos reunimos por primera vez, no llegamos a conclusión ninguna. Cada uno fue a casa encargado de realizar una revisión más profunda sobre el asunto. Me tocó a mí y a una médica genetista, al día siguiente, en la segunda reunión, demostrar que había casos parecidos en la literatura, denominados "síndrome del maquillaje de kabuki" o, más simplemente, "síndrome de Kabuki". Yo, al principio, era el único que conocía el teatro típico japonés que daba nombre al síndrome.
Aunque el término Kabuki esté compuesto por los ideogramas 歌 (canto), 舞 (danza) y 伎 (habilidad), estos son apenas ateji, es decir, fonemas cargados de sentido propio que se vinculan para representar otra palabra, con la cual no necesariamente guardan alguna identidad de sentido. El real significado del término parece provenir del verbo kabuku, "estar fuera de lo ordinario", "actuar o comportarse de modo aberrante", o simplemente algo excéntrico que se desvía de la norma, en acuerdo con el teatro bizarro que se originó a comienzos del siglo XVII en Japón.
El niño, por lo tanto, se parecía a un actor de kabuki: los párpados levemente evertidos, las cejas finas y arqueadas, en forma de flecha, pestañas exageradamente largas, la nariz achatada, con el tabique nasal corto, la implantación baja del cabello, la esclerótica azul, la hendidura palpebral alargada. Además, había muchas alteraciones en el examen físico que iban al encuentro de los relatos descritos en la literatura médica, y que finalmente nos auxiliaron a llegar al veredicto final.
Sí, pues muchas veces un diagnóstico funciona como un veredicto. Una condena que tendrá que ser cumplida por toda la vida, y he aquí por qué tengo tanta dificultad en transmitir tal noticia a los familiares de un enfermo. Durante el primer examen físico, realizado al lado del lecho de la madre, los padres me miraban con expectativa temblorosa, como si yo fuera el juez que determinaría el destino de su precioso hijo; ¿viviría? O, lo más importante: ¿viviría bajo condiciones normales? Fui evasivo. Dije que había alteraciones en el examen y que creíamos que se trataba de determinado síndrome. Más tarde, el jefe del departamento explicó con más detalles: podría haber retraso mental, de leve a moderado; problemas auditivos, inclusive sordera; problemas renales, gastrointestinales; una susceptibilidad mayor a infecciones, sobre todo respiratorias, y principalmente en los primeros años de vida, cuando por este y aquel motivo su pequeño bebé estaba más vulnerable; y así sucesivamente. Yo acompañaba a su lado, mientras la madre lloraba abrazada a su querido hijo, amándolo más con cada dura palabra profética de mi jefe. Yo era como un ángel estúpido, vestido con mi bata blanca, oyendo a un Dios canoso y solemne juzgar a un inocente; no me quedaba sino asentir y mantenerme en silencio.
En cinco minutos, necesito estar de vuelta en el hospital.
De reojo, observo a Sara, que está con los ojos entrecerrados, dormitando; el girasol y la luz pincelan su rostro con matices dorados, y su tórax hace un suave movimiento de vaivén por debajo de la blusa azulada. Ella está embarazada, y este es el sexto mes de la gestación. Planeamos cuidadosamente este paso en nuestras vidas. Hace mucho tiempo, de hecho, ya planeaba tener un hijo. Inicié la suplementación con ácido fólico doce semanas antes de la propia concepción, como mandan las recomendaciones internacionales, y la interrumpí después del final del primer trimestre. Había planeado todas las consultas de prenatal mucho antes de la propia concepción del niño. Y durante los últimos seis meses, pasamos divertidos momentos comprando ropa, juguetes, libros y accesorios para el niño, discutiendo nombres y planeando el futuro. De acuerdo con la ecografía, tendremos una niña.
Sara trabajaba en una empresa de comunicación, y acordamos que ella renunciaría y no trabajaría al menos durante el embarazo y los dos primeros años del niño; ambos pensamos que era mejor así. Después, veríamos. Además, mis ingresos son suficientes para garantizarnos una vida decente — tal vez sin lujos, pero ciertamente sin ninguna privación. Tengo certeza de que seré un padre cuidadoso y atento. Sin embargo, no puedo prever todas las variables. No toda la ecuación me pertenece: estoy, yo mismo, indefenso, expuesto... impotente. Sé que también yo puedo ser víctima del azar, y encontrarme repentinamente con las manos atadas viendo al destino arrasar mis castillos de arena.
Necesito volver al hospital.
***
Por la ventana, espirales de electricidad danzan, dibujando arabescos argentados que se encienden y vuelven a disolverse en tinieblas, dejando rastros deslumbrantes en la memoria de la retina; luciérnagas nerviosas que se arrastran por el cielo de plata. A un médico, le recuerdan los contrastes dibujando el sistema circulatorio de un paciente, que aguarda con impaciencia para identificar el lugar de una posible obstrucción, por la interrupción abrupta del flujo sanguíneo causada por una estenosis. Al menos en mi caso, pasé a ver la enfermedad en todos los lugares adonde voy: la cargo dentro de mí, y tal vez yo mismo sea una extensión de ella — o, en palabras más simples, tal vez mi alma se haya vuelto enferma.
Hace una semana que el bebé-kabuki está internado. Los padres ya están al tanto de su condición; la mayor parte de los exámenes ya fue realizada. Hay un problema en su audición, tiene dificultades para ser amamantado, y también hay una displasia congénita de cadera, descubierta mientras yo realizaba el examen físico. Fuera de eso, pronto podrá recibir el alta hospitalaria e ir a casa. El resto, solo el tiempo lo dirá.
La cultura japonesa siempre me había fascinado. Tan pronto supe el diagnóstico de aquel bebé, había pasado la semana entera estudiando sobre el teatro Kabuki y sobre la rara enfermedad que llevaba su nombre. El padre, principalmente, viendo que yo me interesaba con ahínco por el caso, excusándose del médico responsable, un señor de edad en su bata amarillenta, prisionero de flujogramas y conductas robóticas, interesado apenas en estabilizar el cuadro clínico del niño y prestar las menores aclaraciones posibles (visto que todos nosotros sabíamos lo mínimo posible, ya que habíamos descubierto hacía cerca de una semana que la enfermedad al menos existía), pronto vio en mí un lugar de refugio, puerto ideal hacia donde desaguar toda su inseguridad. O entonces infirió que solo le quedaba yo, fascinado con la facies ancha, exuberante, con las mejillas prominentes y ensanchadas, con los labios planos, que recordaba las antiguas ilustraciones japonesas de fábulas que yo solía leer cuando era menor, maquilladas y llenas de polvo de arroz. Y él venía a preguntarme justo esto:
"¿Por qué llaman síndrome de Kabuki a la enfermedad de mi hijo?"
Era un hombre de aspecto simple, con un aire ya desacreditado de sí mismo. Mirando sus ojos, me invadía la impresión de que él era incapaz de no ser franco, que no sabría sino ser directo. Vacilé por un segundo antes de responder — la situación entera había pasado a recordarme una novela de Kenzaburo Oe, que yo había leído poco antes de graduarme, y en aquel breve titubeo, en aquel extenso y compacto silencio, parecía surreal que yo fuera parte de algo mínimamente similar.
Con paciencia, le explico todo lo que desea saber. Hago visitas diarias al pequeño bebé, que continúa sin nombre. ¿Por qué continúa sin nombre? — recuerdo preguntarme, incesantemente, sin, no obstante, tener coraje de mencionar el asunto en presencia de los padres. ¿Están confundidos, o tan preocupados al punto de hasta olvidarse? Dar el nombre a un bebé acechado por la muerte y en cuyo futuro no se ciernen sino dudas e incertidumbres tal vez consista en una formalidad gratuita, innecesaria, al fin y al cabo. Este bebé, sin embargo, parece ser amado a pesar de todos los pesares.
El padre asiente con la cabeza. Un suspiro entrecortado en las olas sofocantes de calor; va a caer una lluvia pronto, refrescando el día. Calor y rayos comandan un espectáculo melancólico ante mis retinas. El bebé está sudado; "¿puede ser el principio de una fiebre?" — el padre me pregunta. Veo las mediciones de enfermería: la medición es limítrofe, no se puede considerar esa temperatura una fiebre, tampoco el bebé se presenta sintomático... y, mentalmente, me pregunto: ¿un bebé en esta condición presentaría los mismos síntomas que los demás?
Tranquilizo a los padres. Al final de la tarde pasaré otra vez para verificar su temperatura. Él agradece efusivamente. La madre está semidormida con el bebé a su lado. El horizonte allá afuera se despedaza como un filamento de tungsteno rompiéndose, y como piezas en un tablero dejado para mañana, las personas se colorean en un juego de sombras y luz amarillenta.
Me alejo; este es un raro momento de calma, en el cual dejan de hacerme preguntas, y puedo caminar por los pasillos de pisos verdosos y paredes blanquecinas aquí y allá suturadas por madera o metal o puertas, y pensar con más exactitud, delinear mejor lo que ronda, ocultándose como un animal salvaje, los bordes desvanecidos de mis pensamientos, cuando finalmente me asalta el temor: ¿y si mi hija nace con cualquier defecto? No necesariamente un bebé-kabuki, pero cualquier otro, ¿qué haré yo entonces? Tal vez me tomaran el mismo pavor y el sentimiento de fuga que los del protagonista de la novela de Kenzaburo Oe; y, después, a su semejanza, me resignara, aceptara la nueva situación y aceptara nuevamente la vida, renovado. Era imposible no arquitectar algo en esa línea. La primera hija de Dostoievski, por ejemplo, falleció con tres años. ¡Tres años! ¿Qué dolor sería por tres años probar del paraíso y después ser expulsado de él para siempre? ¿Cómo es posible salir ileso, de corazón intacto, de una prueba de esas?
El hecho es que no se puede.
Estudié el asunto durante la facultad, y por mucho tiempo noté que las mujeres tienen fantasías respecto al parto y al bebé. Está el constante miedo de que el feto esté muerto en su vientre; de que tenga alguna deformidad; y de que el parto venga a lacerar o destruir la imagen de la mujer, castrarla de alguna forma. También la fantasía de muerte asola a la futura madre: ¿sobreviviré al parto? ¿Mi hijo nacerá vivo, entero? Tales dudas me parecen demasiado crueles, pero la recompensa de una vida es proporcional: en general se puede leer en el semblante exhausto y gracioso de cada madre que aquello valió la pena. Es posible que Sara también experimente esas ansiedades; es posible que yo mismo tema por mi bebé. ¿Cuál es el gran misterio de la indefinición, por qué somos tan adversos al azar? — musito, de mí para mí.
El final de la tarde avanza sobre la ciudad; el cielo se ha vuelto gangrenado de nubes color pizarra, diluidas en tonos negros. Torneadas unas a otras, enganchadas por una fuerza arrebatadora e invisible, se coagulan en una neblina húmeda que amenaza desplomarse, extraños y distantes navíos etéreos cuyos cascos quieren partirse. Toda la ciudad reposa en una angustia gris. Los minutos se arrastran en el horizonte hasta que granizadas coléricas pasan a fustigar las aristas descoloridas, los autos metálicos que zumban como manchas, y los paraguas, que parecen cuervos agitándose vistos desde este décimo piso, baten sus alas en el laberinto geométrico de las calles; el ruido de la tempestad tamborileando contra los cristales recuerda una constelación de corazones acelerados, pulsando furiosamente.
El cuerpo del bebé-kabuki arde en fiebre.
***
Su estado general empeoró en las últimas horas; se volvió febril, agitado. Su frecuencia respiratoria ahora se mantiene arriba de sesenta incursiones por minuto, hay presencia de tiraje subcostal, aleteo nasal, y la saturación de oxígeno se desplomó; la cianosis comienza a infiltrarse en la piel fina como papel, confiriéndole una tonalidad cobalto; por recomendación mía, es transferido a la UCI neonatal. La dramática puesta en escena de su corta y lúdica vida puede llegar a un final imprevisto.
En el teatro kabuki, los kurokos, nombre por el cual son conocidos una especie de tramoyistas, se visten de negro y, durante el transcurso de la obra, andan de aquí para allá moviendo los escenarios y el vestuario, expuestos al público. Los kurokos alternan la composición del escenario súbitamente, y a pesar de ser teóricamente invisibles, sus acciones son notablemente vistas. No me privo de pensar que también en las internaciones hospitalarias (y en la vida en general) hay kurokos actuando, ciertos "ángeles" tramoyistas que interfieren en el curso de la historia todo el tiempo; pues, si de un lado tenemos al bebé que antes sonreía y que ahora vacila hacia la grieta de la muerte, del otro encontramos a un bebé que estaba comatoso y refractario a cualquier tratamiento, y ahora succiona el pecho de la madre con fuerza viril y vitalidad envidiable. Estos cambios inopinados, súbitos — ¿qué tipo de kuroko los opera, y bajo la instrucción de quién? ¿Realmente podemos algo, vestidos de blanco, contra esos invisibles ángeles negros que andan de aquí para allá y de allá para acá jugando con la ventura ajena, barajando los destinos, o somos apenas juguetes en su guion? Un médico es, a pesar de todas sus pretensiones, ora coadyuvante de la vida, ora coadyuvante de la muerte — no más que eso.
Renata llegó para su turno; mi colega es alegre, incluso ante la situación más difícil. Me gusta su compañía, del mismo modo que a los niños les gusta observar sus móviles, o sentir el calor de sus madres; me gusta la protección que su indiferencia al mundo despierta en mí. Ella es una de esas personas que conservan en sí un trazo delicado — en la sonrisa, en el modo de dividir el cabello, en el aire distraído — que mantiene el espíritu de su infancia inmortalizado en un ámbar palpable, visible. Meses atrás, dormíamos juntos. En breve, tal vez, dormiremos juntos nuevamente. El amor y la carne — ¿por qué andan tan separadamente, para algunos? No me libero del rótulo de hipócrita, pero soy sincero en relación a lo que siento y hago. Amo a Sara, pero el perfume de Renata tiene el curioso efecto de volver mi día menos amargo.
La actualizo sobre la situación de todos los niños internados; conversamos sobre un artículo nuevo que salió en una revista pediátrica, actualizando el protocolo de determinada condición neonatal. Comentamos respecto a la noticia de que una antigua profesora falleció.
Después de un silencio, ella me pregunta:
"¿Cómo está aquel bebé?"
"En estado crítico, todavía. Pero mejor."
Ella sorbe y tuerce la nariz, como un conejo.
"A veces sería mejor no tener hijos que tener un hijo así, ¿no crees?"
Su afirmación me sorprende. Lacónico y categórico, le respondo:
"No".
Ella sonríe, con la comisura de los labios bastante separada y los vastos dientes blancos como leche un poco sardónicos, risa encantadora y jeroglífica, y entonces nos despedimos, sin rencor o ternura. Adoro la sensación de completa ignorancia que experimento sobre lo que ella siente.
Casi nunca percibo el camino de vuelta a casa; ciertas cosas ocurren casi automáticamente. Sé que intercambio algunas palabras desconexas con alguien en el camino; que me arrastro desinteresadamente, aunque apresurado, hasta el estacionamiento. Que conduzco por un camino predeterminado y me irrito en el tráfico. Pero apenas despierto de ese sueño burocrático cuando abandono el ascensor, casi a la puerta de casa.
Entro. Sara está dormida en el sofá. La pequeña sala también está dormida en la penumbra, en el tono cárdeno del cielo que se despide, en el grito cianótico del crepúsculo que se vuelve primero un rojo desmayado y después se granula en tonos purpúreos y ennegrecidos, con las sombras marchando a espaldas de los muebles; mis libros están apilados por todos lados. Son libros de medicina, de literatura, de historia, de filosofía, de artes plásticas. Hay también muchos cómics infantiles. Mis preferidos son la serie de libros "El pequeño Nicolás", de René Goscinny, y "Las Aventuras de Tintín", del belga Hergé. Sueño con leer estas historias a mi hija. Sara se impresiona con esto: mientras la mayoría de los hombres tiene aversión a la idea de ser padre, yo, al contrario, estoy obsesionado con ella. Pero ¿por qué me encanta tanto generar una vida y someterla a este amor incondicional?
Cuando yo era pequeño, fui abandonado. No en el sentido convencional; mis padres no me dejaron en una canasta a la puerta de una familia rica, como se lee en las historias modernas, o en una canasta en el río Nilo, como ocurrió al profeta. Quedé abandonado en casa; mi padre trabajaba y mi madre tenía problemas con la bebida. Con el tiempo, mi padre se fue, y mi madre incluso cuando presente era como si estuviera en otro mundo. Era un fantasma. Podía verla y oírla gimiendo de madrugada, inconsciente, rechinando la correa de la lengua, maldiciendo a toda suerte de hombres, pero no podía tocarla. No podía sentirla en parte alguna.
Salí de allí lo más rápido que pude, de otro modo acabaría por enloquecer. Creo que apenas soporté tal calvario pues pasaba la mayor parte de mi tiempo inmerso en libros, imaginando aventuras mejores que ser el hijo abandonado de una alcohólica. Muchas veces, en ruedas de conversación, escucho a colegas médicos diciendo: "Ciertas personas no deberían tener hijos". Y en silencio asiento, los ojos puestos en un pasado ya empañado, macilento, cuyos recuerdos más y más van descarnándose y alimentando un presente y un futuro mejores, erigidos a través de mi propio esfuerzo y de mi naciente familia. Tal vez la base de todo lo que siento sea un sentimiento genuino y ciego de reparación; una inquietud por jamás haber conocido lo que a otros es tan caro y familiar. Aun así, permanece la duda inquebrantable: ¿estoy teniendo un hijo para tener a quien dedicar mi amor incondicionalmente, o estoy teniendo un hijo para ser amado incondicionalmente? Tal vez ambas hipótesis sean igualmente plausibles, trenzadas como los hilos de una cuerda, y precisamente por eso inextricables.
Observo el display del aparato de DVD. Está encendido — los números giran, contando, me quiere, no me quiere. Expulso el disco: "Sueños", de Akira Kurosawa. Es una de mis películas preferidas.
Sara es apasionada por el cine. En nuestra sala hay un póster de la película "Cinema Paradiso" — ya perdí la cuenta de cuántas veces ella vio la película y en cuántas de estas fui obligado a reverla a su lado. Ella puede ir todos los días al cine, sin jamás cansarse. Yo, a mi turno, no tengo tanta paciencia para imágenes que se inyectan por mi retina, definidas y estáticas porciones de mundo que se inoculan en las obscuras estructuras de mi cerebro llegando allí a través de mi nervio óptico y del nervio vestibulococlear, las dos extrañas agujas que anestesian mi creatividad; veo pocas películas y raramente más de una vez. Me apetecen más las palabras leídas, activas, masticadas entre los párpados y que se esparcen en cada neurona ocular como una pasión febril y arrebatadora que trae mensajes imprescindibles, inigualables. Una miríada de dioses-ideas danzando en torno a mi ego, arrebatándome en un delirio de experiencia y de la incomprensión de esta. Los libros son, por lo tanto, mi segunda alma y mi verdadero hogar.
En la película de Kurosawa hay una escena donde la radioactividad es vomitada por las plantas nucleares y se esparce por las islas de Japón; una mujer, un industrial y un hombre común se ven cercados por nubes coloridas de muerte y desgracia; ellas traen en su vientre la promesa de deformidades, de anomalías, de mutaciones horribles. En la próxima escena de la película (el sueño siguiente) la imagen se repite en el akuma (demonio) que vaga entre dientes de león aberrantes, gigantescos. En esa primera escena, sin embargo, la mujer trae consigo dos niños; niños que están cercados de muerte por todos lados. Nuevamente el sentimiento de impotencia que todo abarca. ¿Sería ese el denominador común de nuestra generación? Creemos que todo podemos, que somos dioses calificados por la tecnología, que tenemos el control de todo y que la naturaleza y las variables están a nuestros pies, prontas a sacrificarse por nosotros, que son nuestras súbditas, pero en un simple viraje, en un golpe de pincel, somos destituidos de todo y flaqueamos; nos volvemos los lacayos humillados, ofendidos, y en un instante, estamos todos definidos (y delimitados) por lo que nos es inalcanzable.
En la misma película, hay una escena donde el protagonista pasea por escenarios sacados de las telas de Van Gogh para encontrarse con el pintor. Esto me viene a la mente ahora, pues en nuestro cuarto hay una reproducción de una de las famosas telas "Girasoles", del pintor holandés. Fue así como nos conocimos, Sara y yo; en una librería, yo hojeaba la obra ilustrada del artista. Sara se detuvo a mi lado y entablamos conversación sobre el tema; semanas después, estábamos juntos. Y, desde entonces, la flor que recuerda un sol asumió importante simbolismo en nuestras vidas.
Cuando hicimos el amor por primera vez, ella posó frente a la tela, imitando la tela de Isaac Israel, "La mujer frente a los Girasoles de Van Gogh". Cuando decidimos concebir un niño, repetimos la escena, nostálgicos y enamorados.
Sara despertó. El crepúsculo ciñó la estrecha sala y los demás aposentos con su neblina de sombras, pero mis ojos ya se acostumbraron y consiguen distinguir las formas sumergidas en penumbra. Ella, sin embargo, se frota los ojos y demora en divisarme, comprimida entre la ausencia y la realidad. Finalmente, se alegra al verme, me besa tiernamente y pregunta si quiero comer algo. No, estoy demasiado cansado. Conversamos sobre cómo pasamos el día por cerca de una hora y entonces voy a acostarme. Ella, claro, va a ver una película, antes de reunirse conmigo.
Me acuesto; durante el día, mi mente es una superficie metálica golpeada por un pesado martillo, que vibra estruendosamente, blandiendo un sinfín de conjeturas, memorias y digresiones. Antes de dormir, esa fuerza que sincopadamente me asolaba va amortiguándose poco a poco, quiere mezclarse con el silencio y dormir también — excepto que nuestra mente nunca para de vibrar, aunque a simple vista así nos parezca.
Prueba de esto es que hace mucho tiempo no tengo el sueño tranquilo. No siempre recuerdo lo que ocurrió en ellos, pero reconozco que son atribulados, y muchas veces incluso perturbadores. Nunca sueño con mis pacientes, sin embargo. Son, en general, eventos vacíos, desiertos, donde camino por lugares deshabitados buscando a alguien que está distante, o que tal vez no está en lugar ninguno. Esta vez, sin embargo, escucho un llanto fino, estrangulado, tamizándose a través de la noche fija, que casi se confunde con la lluvia que cae en granizadas metódicas allá afuera, empañando las largas vidrieras que me rodean. Se trata de un largo pasillo, con uno de los lados dando a un área externa y el otro a una serie de puertas. Sin duda alguna, se trata de una enfermería.
Parezco no sentir mis pasos. Por el camino, hay bandejas con tijeras quirúrgicas, gasas blanquecinas, esparadrapos, frascos de remedios, ampollas, los más variados objetos metálicos. Todos me son viejos conocidos. A través del sueño parezco aspirar el aroma de desinfectante que confiere el olor característico de un hospital. Asisto a la noche devorar el cielo mientras mis pasos escalan un camino desconocido. Una puerta entreabierta me invita a entrar; a través de ella, cada vez más notable, el llanto vierte, caudaloso, sediento de indulgencia.
Enredado en una manta de lana, abandonado dentro de una cama pediátrica, está el pequeño bebé-kabuki. Él enmudece al notar mi presencia. Estamos a solas en el mundo, él y yo.
Miro amargamente a este bebé — un bebé que aún no sonríe. La sonrisa social de los bebés solamente aparece a los dos meses de edad. La del hombre tiende a desaparecer y ser sustituida por un sucedáneo patético, convencional, que se fija a los labios toda vez que es requerido, raramente conteniendo algún vestigio de pureza. No sé qué es más envidiable: la época en que no sabía sonreír o la época en que sonreía sin saber por qué.
"No puedo hacer nada por ti", balbuceo, con velada ternura, pero no sin cierto pudor. Él ciertamente no entiende. Sus ojos continúan fijos en mí, ojos de un actor que no sabe que actúa, ajeno al teatro — siempre ajeno a él. Por un momento, su expresión se congela, en un legítimo mie — la expresión típica de los actores de kabuki, que concentra todo el sufrimiento y la traducción sentimental del personaje en un único instante del tiempo; su keshō, esto es, el maquillaje, está compuesto por la propia piel, por los genes mutados, por la anomalía no explicada; el oshiroi y el kumadori que le confieren el aspecto típico. Entonces, él cierra los ojos y parece dormirse en paz (el sueño de los niños tal vez sea la única paz real del mundo). Yo apago la luz y me retiro.
Sigo caminando por el área externa, pero todo está súbitamente transformado. Yo soy apenas un niño; mis pies están ligeros, mi ropa ya no es una camisa social y una bata, con un pantalón de mezclilla gastado y un tenis discreto, sino ropas coloridas, alegres. Personas comienzan a aparecer, como almas vagando en alguna procesión mal ensayada, un purgatorio que guarda algo de alegre y auspicioso. Hay un tono gris y un silencio que habita todo, el mundo es la partitura y nosotros somos las notas huecas y ahogadas sonando en los dedos catatónicos de un músico embriagado, y mientras yo camino por la metrópolis fría, inhóspita, con mis pasos torpes y desgarbados, un murmullo discreto es cargado por el viento; parecen los ruidos acústicos, sombríos e indescifrables, que se propagan a través del diafragma de un estetoscopio hasta los oídos inexpertos de un joven médico, indistintos y encantadores como una lengua desconocida. Una belleza indescifrable, pero cautivadora. No, no se trata apenas de los ruidos de una auscultación: es una frecuencia acelerada, aunque frágil y bastante atípica, variable como los sueños de un joven. Este es el sonido de un estetoscopio de Pinard, instrumento usado para oír los latidos fetales durante la gestación. En el meridiano de la noche, pulsa sobre la ciudad el corazón de un bebé; siento frío. Y entonces despierto.
Sara está acostada a mi lado. Ya es madrugada. De cuando en cuando, pedazos de frases se le escapan por la boca junto con la respiración. El vientre voluminoso se pronuncia a través de la sábana; tal vez a mi lado pulse el ritmo que refluía en mis sueños. Cierro mis ojos, confortado por ese pensamiento.
En mi segundo sueño, la noche se condensa sobre un campo de girasoles, que parecen en verdad pequeñas lunas, que se acortan, como bocas tristes, lunas menguantes — diría giralunas —, asumiendo un aspecto gris, raído y desencantador. Caminando por esa extraña vegetación, me encuentro desoladamente solo. Ya no hay cualquier llanto o ruido clandestino infiltrándose en esa superficie. Estoy, nuevamente, solo.
***
La determinación de los padres del bebé-kabuki me impresiona. Ahora que el bebé salió de la UCI, la madre jamás deja su lado. Ella sonríe constantemente, incluso cuando está triste — y no hay nada más oneroso que sonreír a merced de la fuerza arrebatadora de una tristeza. El padre, aunque taciturno, ensimismado, solo se aleja para buscar comida y agua para la esposa, o para buscar alguna pieza de vestuario nueva, o algo del género. Están siempre juntos. Por otro lado, ya vi a muchos otros padres abandonar niños perfectamente normales en el hospital sin motivo alguno. Algunos, simplemente desaparecieron. Otros abusaban de los niños, los maltrataban física o sexualmente, y el departamento tuvo que intervenir para alejar a los niños de los padres. Esos niños fueron enviados a instituciones especiales, para ser criados como huérfanos, y vivir bajo la expectativa nauseabunda de ser adoptados. El mundo puede ser extremadamente confuso, especialmente en lo que concierne al dicho "amor paterno". Visto desde ese ángulo, el bebé-kabuki tuvo más suerte que muchos de nosotros — incluyéndome. Lo que me lleva al extraño pensamiento de que, tal vez este bebé sufra de un síndrome que pueda ser considerado una "anomalía" del desarrollo, o un defecto genético. Pero el amor de esos otros padres por sus hijos, ¿no es él una anomalía o un defecto mucho más íntimo, mucho más grave? Como médico, no tengo derecho a tales juicios de valor. No a ojos vistos. Pero cuanto más crece en mí el deseo de ser padre, menos comprendo cómo alguien puede no amar a un hijo suyo. Tal vez este sea un sentimiento que todo niño no amado comparte en secreto unos con otros.
Hace mucho calor. Por debajo del delantal de algodón, gotitas de sudor inundan mi cuerpo. Las ventanas abiertas dejan verter bocanadas tibias de aire, que juegan con las cortinas, lanzándolas hacia arriba como confeti.
La mañana pasa sin incidentes. Un día sin ellos es un día atípico, que me deja siempre desconfiado de que algo malo se reserva para el resto del día. Con la tarde, mi superstición, aunque tonta, parece confirmarse.
En una de las alas pediátricas, un niño fallece. Meningitis bacteriana. Era uno de los pacientes de Renata; los padres vociferan contra ella, lloran, derraman toda su impotencia en forma de sentencias crueles; Renata debe ser la culpable, ella necesita ser la culpable. Ya estuve en su lugar, y, por lo que recuerdo, me sentí como el Grim Reaper de la cultura popular; en vez de un reloj de arena, la hora del óbito; en vez de una guadaña, un estetoscopio. Y en lugar de la túnica negra, una bata. En la cultura polaca, la muerte es llamada Śmierć, y usa una túnica blanca. Sé esto, pues aún en mis tiempos de estudiante, atendía a una señora anciana con Alzheimer que, al verme entrando con bata en el consultorio, apuntó el dedo macilento, huesudo, en mi dirección, y balbuceó, aterrorizada: "¡Śmierć! ¡Śmierć!". Su hija, horas más tarde, me contó lo que representaba este pavor y el efecto inmediato que acometió a aquella señora. Al día siguiente, la señora demente estaba muerta.
Renata aún está en apuros. La madre del bebé muerto sacude el pequeño y frágil cuerpo como una niña sacudiría su muñeca de trapo averiada, lamentándose; sus gritos retumban por las alas frías, rebotan en la penumbra que se esparce como moho, y llegan a las otras madres, que se conservan en un silencio respetuoso, monjes con los senos vertiendo leche, espiando con ojos desconfiados si la muerte no está al acecho — tal vez, quién sabe, para conducir a uno de sus pequeños lejos de ellas.
La escena con los padres del bebé muerto finalmente se cierra. La enfermería interviene; una abuela recién llegada también toma parte, amainando el tumulto y confortando a la madre enlutada. Todos parecen finalmente olvidarse de mi competente, pero desafortunada amante, y se acuerdan del pequeño cadáver envuelto en una manta colorida. Ella sale, con pasos apresurados, y viene a mi encuentro.
Renata llora. En la sala de guardia, hacia donde nos dirigimos, me abraza demoradamente, como si fuera una niña buscando el consuelo del padre después de una caída o una travesura por la cual fue castigada. Los ojos hinchados, su boca pronto se acoge a la mía en un demorado beso. Después, vuelve a enlazar mi cuello con ambos brazos y anidarse en mi pecho; parece no importarle la posible llegada de alguien. Nos demoramos en ese abrazo por muchos minutos.
"Yo... también estoy embarazada", lanza, de sopetón.
Incapaz de articular cualquier palabra, la aprieto aún más contra mis brazos. Quisiera que este abrazo no terminara nunca más, pero tan pronto este pensamiento se forma, el momento siguiente ya se presenta, despiadado, frente a mí. Muchos otros minutos pasan de esta forma. ¿Tendré otro hijo?
A decir verdad, siempre imaginé a Renata como madre de mis hijos. Cuando la conocí yo estaba de novio con otra chica. Cuando terminé esa relación, ella tuvo un novio. Y cuando rompió el noviazgo, yo estaba casado con Sara. En esa confusa danza en la cual siempre nos rozábamos sin nunca de hecho formar una pareja, nunca dejé de pensar en ella y, más tarde, acabé por dormir con ella.
Incluso en este momento tan delicado no puedo privarme de imaginarla como madre. La imagen de su seno desnudo, el pezón donde una gota cristalina de leche brota, la areola castaño oscuro, y los contornos delicados, y después la boca hambrienta de un bebé succionándolo. Del mismo modo como yo mismo meses atrás los había succionado, ávido y encantado, como quien descubre la respuesta de un terrible dilema. Un mundo muerto y una vivaz cólera se urgían de esas impresiones: ¿cómo podría amar al mismo tiempo a dos mujeres? O tal vez fuera la pregunta equivocada — esto es, ¿cómo sería posible que yo amara y viviera por una única mujer? Tal vez haya en el hombre espacio para infinitos amores, y en la sociedad la exigencia de uno solo. Este es un oxímoron insuperable, del cual nace la hipocresía y la mentira, y a partir del cual se funda la base deshonesta de la sociedad. Puedo, sí, amar a dos mujeres y dos hijos, pues, al fin y al cabo, aceptar un sentimiento no implica necesariamente sacrificar todos los demás.
Renata aparta el cuerpo. El maquillaje está corrido, dibujando arabescos negros de rímel en la cara hinchada. Ella se levanta y toma algunas toallas de papel. Se lava el rostro y, tomando un pequeño neceser de su bolso, retoca los estragos de su colapso. Estoy sentado, y ella viene hasta mí y, de pie, abraza mi cabeza y me jala contra su vientre; su mano hace una caricia tímida en mi cabello; también aquí pulsa un nuevo corazón, una vida imprevista, la promesa efervescente de algo jamás prometido. Abrazo su cintura. Ella se despide, sentenciosa:
"Tengo que ir a llenar el certificado de defunción" — los ojos turbios, una risa lúcida y contenida de melancolía.
Estoy solo en el recinto. De cuando en cuando, alguna enfermera entra en la sala, me observa con el rabillo del ojo, y la deja nuevamente. La sala, sin ventanas, lúgubre y helada, es como un espantoso purgatorio en el cual me encuentro preso. La tela "Dos girasoles cortados", de Van Gogh, inmediatamente me viene a la cabeza. Para desviar el pensamiento de mi propia vida, pienso en el niño que recién falleció.
La muerte de cada niño es también un memento mori de mi propia muerte: soy finito, soy mortal; también mi muerte me vigila en algún rincón, en alguna ala o esquina de la ciudad, y cuando se presente el momento oportuno, como un padre que busca a un hijo desaparecido, un travieso fugitivo, ha de encontrarme y llevarme de vuelta a casa. Ponerme en penitencia en la eternidad — o en la inexpresable nada. Tal vez atribuir esta imagen paternal a la idea de la muerte la vuelva menos amenazadora, más tragable.
Sí, soy finito, y aun así parece que sobreviviré en dos otras existencias, como una flor digerida que ofrece sus nutrientes a las próximas. El mundo se renueva con una sagacidad increíble, en un golpe brutal a nuestra insignificancia, seres estacionales y explícitamente innecesarios; para nosotros, las moscas de la fruta son despreciables pues viven apenas un día; en nuestros muchos años, las hallamos todas iguales y repetidas, y no daríamos por su falta si dejaran nuestras frutas en paz para siempre. ¿Qué seremos nosotros, entonces, que somos mucho más breves que esos insectos cuando nos colocamos frente a los ojos del universo? En la larga línea de la historia, difícilmente yo represento un punto siquiera.
Miro el reloj. Mi turno termina en media hora. Enderezo el cuerpo, como un animal acorralado; sí, fue hasta aquí que la vida me trajo. Ver a alguien morir vuelve nuestra existencia más desesperada, vigorosa. Es como un estado febril: "entonces esto es una enfermedad; entonces yo no valoraba mi estado normal, apenas vivía sin mayores implicaciones. ¡Qué tonto fui!" — pensamos. Pero la fiebre pronto cederá y, en pocos días, la enfermedad quedará olvidada.
A este estado de normalidad se le da el nombre de indiferencia. El hombre normal es indiferente al hecho de estar vivo. La fiebre — la fiebre es apenas el pavor de descubrir que, incluso esta indiferencia, puede ser extremadamente pasajera.
***
El sol puso en movimiento un célere carnaval en el laberinto de concreto de la ciudad: pagliacci, arlequines, pantaleones y scaramouches actúan apáticamente en el patio del hospital; un vendedor malhumorado ofrece perros calientes y refrescos a esos tipos satirizados por elecciones invisibles; las motos atraviesan el camino de los taxis, que a su vez atraviesan el camino de los autobuses y estos el de los autos, y los autos el del peatón, en una extraña cadena alimentaria de prisa y falta de respeto; bocinas e improperios puntúan este desfile, signos ortográficos nacidos del caos y el desorden. Las ropas coloridas de las mujeres recuerdan un circo, aunque melancólico: rojo, azul, verde, naranja, rosa, lila; un arcoíris fragmentado en una miríada, esparcido por las venas de concreto de la ciudad.
Hago la primera ronda de la mañana. El bebé-kabuki mejoró mucho en los últimos días. Está perfectamente curado de las complicaciones y listo para ir a casa. Sus padres también están tomados de aires más saludables, sonrisas que desbordan alivio y satisfacción. Los tres parecen listos para formar una familia feliz.
Tramito los papeles de su alta — el bebé que permanece sin nombre. Madre y padre apenas lo llaman "mi hijo", "mi hijo querido". Solo otra vez anteriormente había visto padres no nombrar al hijo; en aquella época, tenían miedo de dar nombre a un niño que pudiera venir a fallecer. Temo preguntar a la pareja el motivo de su demora. Apenas doy recomendaciones rigurosas y solicito que retornen a nivel ambulatorio para que el bebé sea acompañado por los especialistas del hospital.
Me entrego a vagar por los pasillos, mi querido purgatorio personal. Conozco mejor estas alas tortuosas de lo que tal vez me conozca a mí mismo. ¿Cuánto tiempo pasé aquí, cuántas personas conocí? ¿Y por qué después de tantos bebés (¿doscientos? ¿Trescientos?) me siento conectado solamente a uno? ¿Y por qué justo a este? ¿Somos tan parecidos, él y yo, actores olvidados en un mundo de espectadores? Espanto el pensamiento, como si alejara un puñado de moscas de un pedazo de carne podrida, y conduzco mis pasos hacia la enfermería.
Encuentro a Renata. Quiero decirle que podré ser padre también de su hijo, que estaré con ella; que abandonaría ahora mismo a Sara si ella también no estuviera embarazada. Sin embargo todo lo que mis labios conjeturan es un patético buenos días y una sonrisa atolondrada. Hay dos vidas que necesito vivir y solo tengo derecho a una.
Las horas transcurren en el reloj de arena opaco del día.
Recibo una llamada. Mi esposa se sintió mal y está siendo llevada a otro hospital; ¿estará ella bien? ¿Estará todo bien con nuestro bebé? En el teatro Kabuki, el hanamichi ("camino de las flores") es utilizado para la entrada y para la salida de los personajes principales en medio del público. Sería trágico, de esta forma, que Sara o la bebé salieran de mi vida por ese camino, atravesando mi historia, dejándome solo en el escenario. No sé si este sentimiento carga amor, egoísmo, o una amalgama extasiante de ambos; poco me importa sino sentirlo plenamente. No puedo perderlas.
Aviso a mi colega de lo ocurrido. Le pido que me sustituya; tengo apenas dos consultas más en el ambulatorio, no debe ser un gran trastorno para ella. Le digo que compensaré en otra oportunidad. Ella es comprensiva y desea que todo salga bien. Yo agradezco, con una sonrisa constreñida por su conmiseración y al mismo tiempo verdaderamente agradecido.
¿Dónde estarán los kurokos? El bebé-kabuki sale de la UCI, mejora y parece estar listo para irse del hospital. Mi bebé y mi esposa se sienten mal y están yendo a un hospital desconocido, y no sé qué pasa con ellos. ¿Dónde se esconden esos kurokos, terribles buitres de las horas, con su lógica enferma, y el mecanismo despedazado de sus actos?
Atravieso las claustrofóbicas y pálidas alas del hospital con destreza — las conozco como si fueran mis propias venas y arterias, como si yo transitara dentro de mi propio cuerpo y buscara una salida, una liberación. Estoy cerca de la salida; ya puedo ver el vestíbulo de entrada, donde un cortejo de semblantes aprensivos y sombras encorvadas aguardan, fuman, hablan por celulares, callan. Súbito, sin embargo, oigo una voz muy próxima:
"Doctor" — ella me llama, débilmente, con la voz trémula, y una mano me detiene con un toque tímido en el hombro.
Me volteo. Hay un breve momento de silencio entre nosotros.
"Doctor" — repite. Es el padre del bebé-kabuki. Una amplia sonrisa se abre en su rostro. Él me abraza, sin decir palabra. "¡Va a recibir el alta, finalmente! ¡Alta! Muchas gracias por todo". Yo le digo que no hice nada; apenas acompañé el caso, ni siquiera era el médico responsable. Él vuelve a agradecer. Por dos minutos más, conversamos detalles oscuros del caso, él saca una duda que aparentemente no tenía e intercambiamos más sonrisas. Finalmente, él lanza de sopetón, con su franqueza cordial:
"No creo que le hayamos dicho. Con todo lo que ocurrió, no habíamos decidido el nombre aún. Teníamos algunas opciones, pero preferimos escoger después. Y el después acabó siendo atrasado más y más. En fin... escogimos bautizarlo con su nombre. En agradecimiento".
Un poco confuso, agradezco sin gracia. Nunca habían dado mi nombre a un niño, o al menos me comunicado respecto a tal hecho. Ahora, estamos inextricablemente ligados, yo y el bebé-kabuki. Él jamás recordará mi rostro, y yo jamás olvidaré el suyo.
Su padre aprieta enérgicamente mi mano; sus ojos llegan a humedecerse. Siento ganas de llorar también, pero estoy con prisa hasta para eso; mi propia hija puede estar en riesgo. Es mi turno de ser padre, tal vez la primera vez de muchas. Nos despedimos.
Mis pies finalmente dejan el vestíbulo. Y en verdad parece que dejan un sueño. ¿Cómo estará Sara? ¿Cómo estará mi hija? Puedo oír los latidos de su pequeño corazón esparciéndose por los meridianos compactos del firmamento, dando movimiento a las estrellas y coloreando los cielos, moviendo días y noches, animando las horas y soplando el viento; puedo oír el susurro de su sangre como una sinfonía en mis oídos, entrando en mi cuerpo y allí anidándose para siempre, como una idea indisoluble, una memoria, una cicatriz. Los hilos invisibles del titiritero que anima mis pasos céleres, mi propio corazón que pulsa, ansioso y desencantado, apremiante de angustias.
En la puerta del hospital, una mujer vende flores. Compro girasoles.