Kabuki — Librenza Garcia

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Kabuki

É possível sentir-se triste observando o mundo através do prisma de um girassol iluminado? — pergunto-me.

Através das pétalas iridescentes e cobreadas, meus olhos espiam as copas frondosas das árvores atingidas por hastes densas de luz; os pássaros zanzando entre elas, a poeira em seu fluxo bêbado, o ranger do vento entre os troncos trançados. Minha jovem esposa segura o ramalhete de girassóis que lhe entreguei há pouco, enrolado em papel esbranquiçado, seus dedos translúcidos e descoloridos lembrando porcelana. Tem o ar distraído e contente, e observa as crianças brincando no parque, correndo atrás de seus pequenos cães.

Meu corpo está à deriva nesse espaço impreciso (minha alma, entretanto — onde estará minha alma?); minha cabeça descansa no regaço de Sara. Tento descansar, pois estou em meu intervalo, e em breve devo retornar ao hospital. É primavera, e o parque está atapetado de pétalas brancas e cor-de-rosa, como se maquiagem e batom houvessem sido espalhados no rosto jovial da cidade. Sinto-me leve, e ao mesmo tempo içado de uma profundeza sem limites — carregando comigo o peso distópico do tempo e do espaço dobrados em uma só forma, um só origami desgastado.

Em vinte minutos preciso estar de volta ao hospital.

"No que você está pensando?" — pergunta-me Sara, encaixando como ponto final um bocejo preguiçoso.

"Em nada", cicio, mentindo, tentando reclamar o silêncio de volta. Estou pensando em muitas coisas. Uma miríade de pensamentos vibra na superfície inquieta de minha mente, meândricos, pouco lúcidos, insetos dementes tentando escapar de um incêndio; no subterrâneo, onde deveriam permanecer, os ratos famintos de minhas ideias se agitam, querem mordiscar essa saborosa placidez, deixá-la exposta à intempérie, corrompê-la, destruí-la; não podem, de maneira alguma, abandonar essas coisas inquietas, intocadas, como supostamente deveriam permanecer. Esta é a grande maldição da consciência: lutamos para freá-la, mas ela é um vagão desgovernado, cujos freios foram cortados por sabotagem.

Na verdade, estou pensando em como ilógica e vazia minha própria existência me parece quando tento me enxergar do ponto de vista de um observador externo; agora mesmo, deitado no regaço de Sara, que sentido faço eu? Se eu me transformasse numa força externa, e assim pudesse observar a tudo e a todos, um mero voyeur da existência banal, é possível que nem uma só coisa mantivesse qualquer propriedade lógica: tudo repentinamente se esvaziaria e pareceria, até mesmo, ridículo. Sim, esses pensamentos estranhos me ocorrem com frequência assombrosa.

Por exemplo, muitas vezes sinto que minha vida é uma fantasmagoria, uma projeção distante e esmaecida de algo incompreensível, uma representação inconsistente de um sonho ou um desejo, e que estou a observá-la de um ponto longínquo, através de um telescópio que engole as formas e as filtra; como uma criança que assiste a um espetáculo boquiaberta, alguma prestidigitação óbvia para as mãos do mágico, mas deslumbrante para os olhos do menino, esforço-me por adivinhar qual é o truque envolvido, sem sucesso. Sei, entretanto, que esta mágica não é de todo boa ou cativante: mesmo que alterações importantes se processem nesse espetáculo melancólico, que coisas sumam, desapareçam ou transformem-se em outras, é como se nada de fato acontecesse. O movimento incessante da vida esconde o fato de que nela há uma imobilidade indivisível, e de que por mais que pareça que andemos adiante, estamos sempre no mesmo lugar, afundando em areia movediça. Não, acho que não consigo explicar inteiramente essa sensação. Seria preciso senti-la.

Em quinze minutos preciso estar de volta ao hospital.

Lá, há um bebê-kabuki. Ou, ao menos, foi assim que decidi chamá-lo, enquanto os pais não se decidem por um nome. Nunca havia visto um bebê com tal síndrome antes. É verdade que sou médico há apenas poucos anos, e ainda jovem, mas nenhum caso havia sido registrado antes em nosso hospital. Para falar a verdade, há poucos casos também registrados no mundo inteiro. É no bebê-kabuki que o meu pensamento se concentra agora, é para ele que aponta, como um norte inóspito em direção ao qual eu posso andar e andar, preenchido por uma exausta resignação, sem esperança de chegar a conclusão alguma.

Tudo ocorreu muito rapidamente. Quando uma gestante está em processo de parto, o pediatra — no caso, eu — é chamado para prestar assistência ao bebê que irá nascer, enquanto o obstetra continua a atenção à mãe recém-parida. O pediatra, então, enrola o bebê em um cobertor e o leva a um ambiente aquecido, onde o pesa, mede e lhe dá o Apgar, uma nota que avalia alguns parâmetros, no primeiro e no quinto minuto de vida, útil para avaliar a condição clínica do recém-nascido; assim, observa-se a respiração, os batimentos cardíacos, o tônus de seus músculos, a coloração da pele e sua resposta ao meio ambiente. Depois, calcula-se o escore de Capurro, um método que estima a duração da gestação da criança por cinco parâmetros diferentes da ectoscopia. Mas enquanto eu seguia todos esses procedimentos, como já fizera mais de uma centena de vezes, a face da criança me obsedou; havia algo de peculiar ali, algo diferente, atípico. Imediatamente após o processo, conversei com a equipe assistente que, ao examinar a criança, não tardou em concordar que havia, "muito provavelmente", algum defeito genético na criança. O pai foi comunicado quase que imediatamente; do choro alegre da notícia de ser pai, seu rosto toldou-se de apreensão quando tomou o bebê no colo. O serviço de Genética foi chamado para uma avaliação. Uma reunião entre as equipes foi agendada para mais tarde, naquele mesmo dia, e eu ficara encarregado de avisar o chefe de meu setor a respeito do caso.

Mais tarde, quando nos reunimos pela primeira vez, não chegamos a conclusão nenhuma. Cada um foi para casa encarregado de realizar uma revisão mais profunda sobre o assunto. Coube a mim e a uma médica geneticista, no dia seguinte, na segunda reunião, demonstrar que havia casos parecidos na literatura, nomeados como "síndrome da maquiagem de kabuki" ou, mais simplesmente, "síndrome de kabuki". Eu, a princípio, era o único que conhecia o teatro típico japonês que dava nome à síndrome.

Apesar de o termo Kabuki ser composto dos ideogramas 歌 (canto), 舞 (dança) e 伎 (habilidade), estes são apenas ateji, isto é, fonemas carregados de sentido próprio e que são vinculados para representar outra palavra, com a qual não necessariamente guardam alguma identidade de sentido. O real significado do termo parece advir do verbo kabuku, "ser fora do ordinário", "agir ou se comportar de modo aberrante", ou simplesmente algo excêntrico e que se desvia da norma, em acordo com o teatro bizarro que se originou no começo do século XVII no Japão.

A criança, portanto, lembrava um ator de kabuki: as pálpebras levemente evertidas, as sobrancelhas finas e arqueadas, em forma de seta, cílios exageradamente longos, o nariz achatado, com o septo nasal curto, a baixa implantação dos cabelos, a esclera azul, a fenda palpebral alongada. Além disso, havia muitas alterações ao exame físico que iam ao encontro dos relatos descritos na literatura médica, e que enfim nos auxiliaram a chegar ao veredicto final.

Sim, pois muitas vezes um diagnóstico funciona como um veredicto. Uma pena que terá de ser cumprida por toda a vida, e eis por que tenho tanta dificuldade em transmitir tal notícia aos familiares de um doente. Durante o primeiro exame físico, realizado ao lado do leito da mãe, os pais olhavam-me com fremente expectativa, como se eu fosse o juiz que determinaria o destino de seu precioso filho; viveria? Ou, o mais importante: viveria sob condições normais? Fui evasivo. Disse que havia alterações no exame e que acreditávamos que se tratava de determinada síndrome. Mais tarde, o chefe do departamento explicou com mais detalhes: poderia haver retardo mental, de leve a moderado; problemas auditivos, inclusive surdez; problemas renais, gastrointestinais; uma susceptibilidade maior a infecções, sobretudo respiratórias, e principalmente nos primeiros anos de vida, quando por este e aquele motivo seu pequeno bebê estava mais vulnerável; e assim por diante. Eu acompanhava a seu lado, enquanto a mãe chorava abraçada a seu querido filho, amando-o mais a cada dura palavra profética de meu chefe. Eu era como um anjo estúpido, vestido em meu jaleco branco, ouvindo um Deus grisalho e solene julgar um inocente; não me restava senão aquiescer e manter-me em silêncio.

Em cinco minutos, preciso estar de volta ao hospital.

De soslaio, observo Sara, que está com os olhos entrecerrados, dormitando; o girassol e a luz pincelam seu rosto com nuances douradas, e seu tórax faz um suave movimento de vaivém por debaixo da blusa azulada. Ela está grávida, e este é o sexto mês da gestação. Planejamos cuidadosamente este passo em nossas vidas. Há muito tempo, aliás, já planejava ter um filho. Iniciei a suplementação com ácido fólico doze semanas antes da própria concepção, como mandam as recomendações internacionais, e a interrompi após o final do primeiro trimestre. Havia planejado todas as consultas de pré-natal muito antes da própria concepção da criança. E durante os últimos seis meses, passamos divertidos momentos comprando roupas, brinquedos, livros e acessórios para a criança, discutindo nomes e planejando o futuro. De acordo com a ultrassonografia, teremos uma menina.

Sara trabalhava numa empresa de comunicação, e combinamos que ela se demitiria e não trabalharia ao menos durante a gravidez e os dois primeiros anos da criança; ambos achamos melhor assim. Depois, veríamos. Ademais, minha renda é suficiente para nos garantir uma vida decente — talvez sem luxos, mas certamente sem nenhuma privação. Tenho certeza de que serei um pai cuidadoso e atento. Entretanto, não posso prever todas as variáveis. Nem toda a equação me pertence: estou, eu mesmo, indefeso, exposto... impotente. Sei que também eu posso ser vítima do acaso, e encontrar-me repentinamente de mãos atadas a ver o destino arrasar meus castelos de areia.

Preciso voltar ao hospital.

***

Pela janela, espirais de eletricidade dançam, desenhando arabescos argênteos que se acendem e tornam a se dissolver em breu, deixando trilhos ofuscantes na memória da retina; vaga-lumes nervosos que rastejam no céu de prata. A um médico, lembram os contrastes desenhando o sistema circulatório de um paciente, que aguarda com impaciência para identificar o local de uma possível obstrução, pela interrupção abrupta do fluxo sanguíneo causada por uma estenose. Ao menos no meu caso, passei a enxergar a doença em todos os lugares aonde vou: carrego-a dentro de mim, e talvez eu próprio seja uma extensão dela — ou, em palavras mais simples, talvez minha alma tenha se tornado doente.

Faz uma semana que o bebê-kabuki está internado. Os pais já estão cientes de sua condição; a maior parte dos exames já foi realizada. Há um problema na sua audição, ele tem dificuldades para ser amamentado, e também há uma displasia congênita de quadril, descoberta enquanto eu realizava o exame físico. Afora isso, em breve poderá ter alta hospitalar e ir para casa. O resto, só o tempo dirá.

A cultura japonesa sempre me fascinara. Tão logo soube o diagnóstico daquele bebê, eu passara a semana inteira estudando sobre o teatro Kabuki e sobre a rara doença que levava seu nome. O pai, principalmente, vendo que eu me interessava com afinco pelo caso, escusando-se do médico responsável, um senhor de idade em seu jaleco amarelado, prisioneiro de fluxogramas e condutas robóticas, interessado apenas em estabilizar o quadro clínico da criança e prestar os menores esclarecimentos possíveis (visto que todos nós sabíamos o mínimo possível, já que havíamos descoberto há cerca de uma semana que a doença ao menos existia), logo viu em mim um lugar de refúgio, porto ideal para onde escoar toda a sua insegurança. Ou então inferiu que lhe restava apenas eu, fascinado com a fácies larga, exuberante, com as bochechas proeminentes e alargadas, com os lábios planos, que lembrava as antigas gravuras japonesas de fábulas que eu costumava ler quando era menor, maquiadas e gordas de pó-de-arroz. E ele vinha perguntar-me justo isso:

"Por que chamam síndrome de Kabuki à doença de meu filho?"

Era um homem de aspecto simples, com um ar já desacreditado de si mesmo. Fitando seus olhos, invadia-me a impressão de que ele era incapaz de não ser franco, que não saberia senão ser direto. Hesitei por um segundo antes de responder — a situação toda passara a me lembrar um romance de Kenzaburo Oe, que eu havia lido pouco antes de me formar, e naquele breve vacilo, naquele extenso e compacto silêncio, parecia surreal que eu fosse parte de algo minimamente similar.

Com paciência, explico-lhe tudo o que deseja saber. Faço visitas diárias ao pequeno bebê, que continua sem nome. Por que continua sem nome? — lembro-me de perguntar-me, incessantemente, sem, entretanto, ter coragem de mencionar o assunto na presença dos pais. Estão confusos, ou então preocupados ao ponto de até esquecerem? Dar o nome a um bebê assombrado pela morte e em cujo futuro não pairam senão dúvidas e incertezas talvez consista em uma formalidade gratuita, desnecessária, no final das contas. Este bebê, entretanto, parece ser amado apesar de todos os pesares.

O pai aquiesce com a cabeça. Um suspiro entrecortado nas vagas sufocantes de calor; vai cair uma chuva logo, refrescando o dia. Calor e raios comandam um espetáculo melancólico perante minhas retinas. O bebê está suado; "pode ser o princípio de uma febre?" — o pai me pergunta. Vejo as medições da enfermagem: a medição é limítrofe, não se pode considerar essa temperatura uma febre, tampouco o bebê se apresenta sintomático... e, mentalmente, indago-me: um bebê nessa condição apresentaria os mesmos sintomas que os demais?

Tranquilizo os pais. No final da tarde passarei outra vez para checar sua temperatura. Ele agradece efusivamente. A mãe está semiadormecida com o bebê a seu lado. O horizonte lá fora se despedaça como um filamento de tungstênio se rompendo, e como peças em um tabuleiro deixado para amanhã, as pessoas se colorem num jogo de sombras e luz amarelecida.

Afasto-me; este é um raro momento de calmaria, no qual deixam de me fazer perguntas, e posso caminhar pelos corredores de pisos esverdeados e paredes esbranquiçadas aqui e ali suturadas por madeira ou metal ou portas, e pensar com mais exatidão, delinear melhor o que ronda, escamoteando-se como um animal selvagem, as bordas esmaecidas de meus pensamentos, quando finalmente me assalta o temor: e se minha filha nascer com qualquer defeito? Não necessariamente um bebê-kabuki, mas qualquer outro, o que farei eu então? Talvez me tomassem o mesmo pavor e o sentimento de fuga que os do protagonista do romance de Kenzaburo Oe; e, depois, à sua semelhança, me resignasse, aceitasse a nova situação e aceitasse novamente a vida, renovado. Era impossível não arquitetar algo nessa linha. A primeira filha de Dostoiévski, por exemplo, faleceu com três anos. Três anos! Que dor seria por três anos provar do paraíso e depois ser expulso dele para sempre? Como é possível sair ileso, de coração intacto, de uma provação dessas?

O fato é que não se pode.

Estudei o assunto durante a faculdade, e por muito tempo notei que as mulheres têm fantasias a respeito do parto e do bebê. Há o constante medo de que o feto esteja morto em seu ventre; de que ele tenha alguma deformidade; e de que o parto venha a lacerar ou destruir a imagem da mulher, castrá-la de alguma forma. Também a fantasia de morte assola a futura mãe: vou sobreviver ao parto? Meu filho nascerá vivo, inteiro? Tais dúvidas me parecem cruéis demais, mas a recompensa de uma vida é proporcional: em geral pode-se ler no semblante exausto e gracioso de cada mãe que aquilo valeu a pena. É possível que Sara também experimente essas ansiedades; é possível que eu próprio tema pelo meu bebê. Qual é o grande mistério da indefinição, por que somos tão avessos ao acaso? — cicio, de mim para mim.

O final da tarde avança sobre a cidade; o céu tornou-se gangrenado de nuvens cor de ardósia, diluídas em tons negros. Torneadas umas às outras, fisgadas por uma força arrebatadora e invisível, coagulam-se numa névoa úmida que ameaça despencar, estranhos e distantes navios etéreos cujos cascos querem se partir. Toda a cidade repousa em uma angústia cinza. Os minutos se arrastam no horizonte até que saraivadas coléricas passam a fustigar as arestas descoloridas, os autos metálicos que zunem como manchas, e os guarda-chuvas, que parecem corvos estrebuchando vistos deste décimo andar, batem suas asas no labirinto geométrico das ruas; o ruído da tempestade tamborilando contra as vidraças lembra uma constelação de corações acelerados, pulsando furiosamente.

O corpo do bebê-kabuki arde em febre.

***

Seu estado geral piorou nas últimas horas; ele tornou-se febril, agitado. Sua frequência respiratória agora se mantém acima de sessenta incursões por minuto, há presença de tiragem subcostal, batimento das asas do nariz, e a saturação de oxigênio despencou; a cianose começa a se infiltrar na pele fina como papel, conferindo-lhe uma tonalidade cobalto; por recomendação minha, ele é transferido para a UTI neonatal. A dramática encenação de sua curta e lúdica vida pode chegar a um final imprevisto.

No teatro kabuki, os kurokos, nome pelo qual são conhecidos uma espécie de contrarregras, vestem-se de preto e, durante o andamento da peça, andam para lá e para cá movendo os cenários e os figurinos, expostos ao público. Os kurokos alternam a composição do palco subitamente, e apesar de teoricamente invisíveis, suas ações são notadamente vistas. Não me furto a pensar que também nas internações hospitalares (e na vida em geral) há kurokos atuando, certos "anjos" contrarregras que interferem no curso da história todo o tempo; pois, se de um lado temos o bebê que antes sorria e que agora vacila para a fenda da morte, do outro encontramos um bebê que estava comatoso e refratário a qualquer tratamento, e agora suga o peito da mãe com força viril e vitalidade invejável. Essas mudanças inopinadas, súbitas — que tipo de kuroko as opera, e sob a instrução de quem? Realmente podemos algo, vestidos de branco, contra esses invisíveis anjos negros que andam de lá para cá e de cá para lá brincando com a ventura alheia, baralhando os destinos, ou somos apenas joguetes em seu roteiro? Um médico é, apesar de todas as suas pretensões, ora coadjuvante da vida, ora coadjuvante da morte — não mais que isso.

Renata chegou para seu turno; minha colega é alegre, mesmo perante a situação mais difícil. Gosto de sua companhia, do mesmo modo que as crianças gostam de observar seus móbiles, ou de sentir o calor de suas mães; gosto da proteção que sua indiferença ao mundo desperta em mim. Ela é uma daquelas pessoas que conservam em si um traço delicado — no sorriso, no modo de dividir o cabelo, no ar distraído — que mantém o espírito de sua infância imortalizado em um âmbar palpável, visível. Meses atrás, dormíamos juntos. Em breve, talvez, dormiremos juntos novamente. O amor e a carne — por que andam tão separadamente, para alguns? Não me liberto do rótulo de hipócrita, mas sou sincero em relação ao que sinto e faço. Amo Sara, mas o perfume de Renata tem o curioso efeito de tornar meu dia menos amargo.

Atualizo-a sobre a situação de todas as crianças internadas; conversamos sobre um artigo novo que saiu em um jornal pediátrico, atualizando a conduta de determinada condição neonatal. Comentamos a respeito da notícia de que uma antiga professora faleceu.

Depois de um silêncio, ela me pergunta:

"Como está aquele bebê?"

"Em estado crítico, ainda. Mas melhor."

Ela funga e torce o nariz, como um coelho.

"Às vezes seria melhor não ter filhos do que ter um filho assim, não acha?"

Sua afirmação me surpreende. Lacônico e categórico, respondo-lhe:

"Não".

Ela sorri, com o canto dos lábios bastante afastados e os vastos dentes brancos como leite um pouco sardônicos, riso encantador e hieroglífico, e então nos despedimos, sem rancor ou ternura. Adoro a sensação de completa ignorância que experimento sobre o que ela sente.

Quase nunca percebo o caminho de volta para casa; certas coisas acontecem quase que automaticamente. Sei que troco algumas palavras desconexas com alguém no caminho; que me arrasto desinteressadamente, embora apressado, até o estacionamento. Que dirijo por um caminho predeterminado e me irrito no trânsito. Mas apenas desperto desse sonho burocrático quando abandono o elevador, quase à porta de casa.

Entro. Sara está adormecida no sofá. A pequena sala também está adormecida na penumbra, no tom cárdeo do céu que se despede, no grito cianótico do lusco-fusco que vira primeiro um vermelho desmaiado e depois se granula em tons purpúreos e enegrecidos, com as sombras marchando às costas dos móveis; meus livros estão empilhados por todos os lados. São livros de medicina, de literatura, de história, de filosofia, de artes plásticas. Há também muitas histórias em quadrinhos infantis. Os meus preferidos são a série de livros "O pequeno Nicolau", de René Goscinny, e "As Aventuras de Tintin", do belga Hergé. Sonho em ler estas histórias para minha filha. Sara impressiona-se com isso: enquanto a maioria dos homens tem aversão à ideia de ser pai, eu, ao contrário, sou obcecado por ela. Mas por que me encanta tanto gerar uma vida e submetê-la a esse amor incondicional?

Quando eu era pequeno, fui abandonado. Não no sentido convencional; meus pais não me deixaram em um cesto à porta de uma família rica, como se lê nas histórias modernas, ou num cesto no rio Nilo, como ocorreu ao profeta. Fiquei abandonado em casa; meu pai trabalhava e minha mãe tinha problemas com a bebida. Com o tempo, meu pai foi embora, e minha mãe mesmo quando presente era como se estivesse em outro mundo. Era um fantasma. Podia vê-la e ouvi-la gemendo de madrugada, desacordada, rangendo a correia da língua, amaldiçoando toda a sorte de homens, mas não podia tocá-la. Não podia senti-la em parte alguma.

Saí dali o mais depressa que pude, do contrário acabaria por enlouquecer. Creio que apenas suportei tal calvário pois passava a maior parte de meu tempo imerso em livros, imaginando aventuras melhores do que ser o filho enjeitado de uma alcoólatra. Muitas vezes, em rodas de conversa, escuto colegas médicos dizendo: "Certas pessoas não deveriam ter filhos". E em silêncio aquiesço, os olhos postados em um passado já embaciado, macilento, cujas memórias mais e mais vão se descarnando e alimentando um presente e um futuro melhores, erigidos através de meu próprio esforço e de minha nascente família. Talvez a base de tudo o que sinto seja um sentimento genuíno e cego de reparação; uma inquietude por jamais ter conhecido o que aos outros é tão caro e familiar. Mesmo assim, permanece a dúvida inquebrantável: estou tendo um filho para ter a quem dedicar meu amor incondicionalmente, ou estou tendo um filho para ser amado incondicionalmente? Talvez ambas as hipóteses sejam igualmente plausíveis, trançadas como os fios de uma corda, e precisamente por isso inextrincáveis.

Observo o display do aparelho de DVD. Está ligado — os números giram, contando, bem-me-quer e malmequer. Ejeto o disco: "Sonhos", de Akira Kurosawa. É um de meus filmes preferidos.

Sara é apaixonada por cinema. Em nossa sala há um pôster do filme "Cinema Paradiso" — já perdi as contas de quantas vezes ela assistiu ao filme e em quantas destas fui obrigado a revê-lo a seu lado. Ela consegue ir todo dia ao cinema, sem jamais se cansar. Eu, a meu turno, não tenho tanta paciência para imagens que se introjetem pela minha retina, definidas e estáticas porções de mundo que se inoculam nas obscuras estruturas de meu cérebro chegando lá através de meu nervo óptico e do nervo vestibulococlear, as duas estranhas agulhas que anestesiam minha criatividade; assisto pouco a filmes e raramente mais de uma vez. Apetecem-me mais as palavras lidas, ativas, mastigadas entre as pálpebras e que se espalham em cada neurônio ocular como uma paixão febril e arrebatadora que traz mensagens imprescindíveis, inigualáveis. Uma miríade de deuses-ideias cirandando em torno de meu ego, arrebatando-me em um delírio de experiência e da incompreensão desta. Os livros são, portanto, minha segunda alma e meu verdadeiro lar.

No filme de Kurosawa há uma cena onde a radioatividade é vomitada pelas plantas nucleares e se alastra pelas ilhas do Japão; uma mulher, um industrial e um homem comum se veem cercados por nuvens coloridas de morte e desgraça; elas trazem em seu ventre a promessa de deformidades, de anomalias, de mutações horríveis. Na próxima cena do filme (o sonho seguinte) a imagem se repete no akuma (demônio) que vaga entre dentes-de-leão aberrantes, gigantescos. Nessa primeira cena, entretanto, a mulher traz consigo duas crianças; crianças que estão cercadas de morte por todos os lados. Novamente o sentimento de impotência que tudo abarca. Seria esse o denominador comum de nossa geração? Achamos que tudo podemos, que somos deuses qualificados pela tecnologia, que temos o controle de tudo e que a natureza e as variáveis estão a nossos pés, prontas a se sacrificarem por nós, que são nossas súditas, mas numa simples guinada, num golpe de pincel, somos destituídos de tudo e fraquejamos; tornamo-nos os lacaios humilhados, ofendidos, e num átimo, estamos todos definidos (e delimitados) pelo que nos é inatingível.

No mesmo filme, há uma cena onde o protagonista passeia por cenários retirados das telas de Van Gogh para encontrar-se com o pintor. Isso me vem à mente agora, pois em nosso quarto há uma reprodução de uma das famosas telas "Girassóis", do pintor holandês. Foi assim que nos conhecemos, Sara e eu; em uma livraria, eu folheava a obra ilustrada do artista. Sara parou a meu lado e entabulamos conversa sobre o tema; semanas após, estávamos juntos. E, desde então, a flor que lembra um sol assumiu importante simbolismo em nossas vidas.

Quando fizemos amor pela primeira vez, ela posou em frente à tela, imitando a tela de Isaac Israel, "A mulher defronte aos Girassóis de Van Gogh". Quando decidimos conceber uma criança, repetimos a cena, saudosos e apaixonados.

Sara despertou. O crepúsculo cingiu a estreita sala e os demais aposentos com sua névoa de sombras, mas meus olhos já se acostumaram e conseguem distinguir as formas mergulhadas em penumbra. Ela, entretanto, esfrega os olhos e demora a me divisar, comprimida entre a ausência e a realidade. Enfim, exulta ao me ver, beija-me ternamente e pergunta se quero comer algo. Não, estou cansado demais. Conversamos sobre como passamos o dia por cerca de uma hora e então vou me deitar. Ela, é claro, vai assistir a um filme, antes de se juntar a mim.

Deito-me; durante o dia, minha mente é uma superfície metálica atingida por um pesado martelo, que vibra estrondosamente, brandindo um sem-fim de conjecturas, memórias e digressões. Antes de dormir, essa força que sincopadamente me assolava vai se amortecendo aos poucos, quer mesclar-se ao silêncio e dormir também — exceto que nossa mente nunca para de vibrar, mesmo que a olhos nus assim nos pareça.

Prova disso é que há muito tempo não tenho o sono tranquilo. Nem sempre lembro o que ocorreu neles, mas reconheço que são atribulados, e muitas vezes mesmo perturbadores. Nunca sonho com meus pacientes, entretanto. São, em geral, eventos vazios, desertos, onde caminho por lugares desabitados procurando alguém que está distante, ou que talvez não esteja em lugar nenhum. Desta vez, entretanto, escuto um choro fino, estrangulado, peneirando através da noite fixa, que quase se confunde com a chuva que cai em saraivadas metódicas lá fora, embaciando as compridas vidraças que me cercam. Trata-se de um longo corredor, com um dos lados dando para uma área externa e o outro para uma série de portas. Sem dúvida alguma, trata-se de uma enfermaria.

Pareço não sentir meus passos. Pelo caminho, há bandejas com tesouras cirúrgicas, gazes esbranquiçadas, esparadrapos, frascos de remédios, ampolas, os mais variados objetos metálicos. Todos me são caros conhecidos. Através do sonho pareço aspirar o aroma de desinfetante que confere o cheiro característico de um hospital. Assisto à noite devorar o céu enquanto meus passos galgam um caminho desconhecido. Uma porta entreaberta me convida a entrar; através dela, cada vez mais notável, o choro verte, caudaloso, sedento de indulgência.

Enredado em uma manta de lã, abandonado dentro de um leito pediátrico, está o pequeno bebê-kabuki. Ele silencia ao notar minha presença. Estamos a sós no mundo, eu e ele.

Olho amargamente para este bebê — um bebê que ainda não sorri. O sorriso social dos bebês somente aparece aos dois meses de idade. O do homem tende a desaparecer e ser substituído por um sucedâneo patético, convencional, que se fixa aos lábios toda vez que é requisitado, raramente contendo algum vestígio de pureza. Não sei o que é mais invejável: a época em que não sabia sorrir ou a época em que sorria sem saber por quê.

"Não posso fazer nada por você", eu balbucio, com velada ternura, mas não sem certo constrangimento. Ele certamente não entende. Seus olhos continuam fixos em mim, olhos de um ator que não sabe que encena, alheio ao teatro — sempre alheio a ele. Por um momento, sua expressão se congela, num legítimo mie — a expressão típica dos atores de kabuki, que concentra todo o sofrimento e a tradução sentimental da personagem num único instantâneo do tempo; seu keshō, isto é, a maquiagem, é composta pela própria pele, pelos genes mutados, pela anomalia não explicada; o oshiroi e o kumadori que lhe conferem o aspecto típico. Então, ele fecha os olhos e parece adormecer em paz (o sono das crianças talvez seja a única paz real do mundo). Eu apago a luz e me retiro.

Sigo caminhando pela área externa, mas tudo está subitamente transformado. Eu sou apenas uma criança; meus pés estão leves, minha roupa já não é uma camisa social e um jaleco, com uma calça jeans surrada e um tênis discreto, mas roupas coloridas, alegres. Pessoas começam a aparecer, como almas vagando em alguma procissão mal-ensaiada, um purgatório que guarda qualquer coisa de alegre e auspicioso. Há um tom cinza e um silêncio que habita tudo, o mundo é a partitura e nós somos as notas ocas e abafadas soando nos dedos catatônicos de um músico embriagado, e enquanto eu caminho pela metrópole fria, inóspita, com meus passos mambembes e desajeitados, um murmúrio discreto é carregado pelo vento; parecem os ruídos acústicos, sombrios e indecifráveis, que se propagam através do diafragma de um estetoscópio até os ouvidos inexperientes de um jovem médico, indistintos e encantadores como uma língua desconhecida. Uma beleza indecifrável, mas cativante. Não, não se trata apenas dos ruídos de uma ausculta: é uma frequência acelerada, ainda que frágil e bastante atípica, variável como os sonhos de um jovem. Este é o som de um estetoscópio de Pinard, instrumento usado para ouvir os batimentos fetais durante a gestação. No meridiano da noite, pulsa sobre a cidade o coração de um bebê; sinto frio. E então desperto.

Sara está deitada ao meu lado. Já é madrugada. De quando em quando, pedaços de frases lhe escapam pela boca junto com a respiração. O ventre volumoso se pronuncia através do lençol; talvez ao meu lado pulse o ritmo que refluía em meus sonhos. Fecho meus olhos, confortado por esse pensamento.

Em meu segundo sonho, a noite condensa-se sobre um campo de girassóis, que parecem em verdade pequenas luas, que se encurtam, como bocas tristes, luas minguantes — diria giraluas —, assumindo um aspecto gris, puído e desencantador. Caminhando por essa estranha vegetação, encontro-me desoladamente sozinho. Já não há qualquer choro ou ruído clandestino infiltrando-se nessa superfície. Estou, novamente, sozinho.

***

A determinação dos pais do bebê-kabuki me impressiona. Agora que o bebê saiu da UTI, a mãe jamais deixa seu lado. Ela sorri constantemente, mesmo quando está triste — e não há nada mais oneroso do que sorrir à mercê da força arrebatadora de uma tristeza. O pai, embora taciturno, ensimesmado, só se afasta para buscar comida e água para a esposa, ou para buscar alguma peça de vestuário nova, ou algo do gênero. Estão sempre juntos. Por outro lado, já vi muitos outros pais abandonarem crianças perfeitamente normais no hospital sem motivo algum. Alguns, simplesmente desapareceram. Outros abusavam das crianças, maltratavam-nas física ou sexualmente, e o departamento teve de intervir para afastar as crianças dos pais. Essas crianças foram enviadas para instituições especiais, para serem criadas como órfãs, e viverem sob a expectativa nauseante de serem adotadas. O mundo pode ser extremamente confuso, especialmente no que concerne ao dito "amor paterno". Visto desse ângulo, o bebê-kabuki teve mais sorte que muitos de nós — inclusive eu. O que me leva ao estranho pensamento de que, talvez esse bebê sofra de uma síndrome que possa ser considerada uma "anomalia" do desenvolvimento, ou um defeito genético. Mas o amor desses outros pais por seus filhos, não é ele uma anomalia ou um defeito muito mais íntimo, muito mais grave? Como médico, não tenho direito a tais juízos de valor. Não a olhos vistos. Mas quanto mais vinga em mim o desejo de ser pai, menos compreendo como alguém pode não amar um filho seu. Talvez este seja um sentimento que toda criança não amada partilhe em segredo umas com as outras.

Faz muito calor. Por debaixo do avental de algodão, gotículas de suor inundam meu corpo. As janelas abertas deixam verter golfadas mornas de ar, que brincam com as cortinas, jogando-as para cima feito confete.

A manhã passa sem intercorrências. Um dia sem elas é um dia atípico, que me deixa sempre desconfiado de que algo de mau se reserva para o restante do dia. Com a tarde, minha superstição, ainda que tola, parece se confirmar.

Numa das alas pediátricas, uma criança falece. Meningite bacteriana. Era um dos pacientes de Renata; os pais vociferam contra ela, choram, despejam toda sua impotência na forma de sentenças cruéis; Renata deve ser a culpada, ela precisa ser a culpada. Já estive no lugar dela, e, pelo que me lembro, senti-me como o Grim Reaper da cultura popular; em vez de uma ampulheta, a hora do óbito; em vez de uma foice, um estetoscópio. E em lugar da túnica preta, um jaleco. Na cultura polonesa, a morte é chamada Śmierć, e usa uma túnica branca. Sei disso, pois ainda nos meus tempos de estudante, atendia uma senhora idosa com Alzheimer que, ao ver-me entrando de jaleco no consultório, apontou o dedo macilento, ossudo, em minha direção, e balbuciou, aterrorizada: "Śmierć! Śmierć!". Sua filha, horas mais tarde, contou-me o que representava este pavor e o efeito imediato que acometeu aquela senhora. No dia seguinte, a senhora demente estava morta.

Renata ainda está em apuros. A mãe do bebê morto sacode o pequeno e frágil corpo como uma menina sacudiria sua boneca de pano avariada, lamuriando-se; seus gritos retumbam pelas alas frias, ricocheteiam na penumbra que se alastra como mofo, e chegam às outras mães, que se conservam em um silêncio respeitoso, monges com os seios vertendo leite, espiando com olhos desconfiados se a morte não está à espreita — talvez, quem sabe, para conduzir um de seus pequenos para longe delas.

A cena com os pais do bebê morto enfim se encerra. A enfermagem intervém; uma avó recém-chegada também toma parte, amainando o tumulto e confortando a mãe enlutada. Todos parecem enfim se esquecer de minha competente, porém desafortunada amante, e se lembram do pequeno cadáver enrolado em uma manta colorida. Ela sai, com passos apressados, e vem a meu encontro.

Renata chora. Na sala de plantão, para onde nos dirigimos, abraça-me demoradamente, como se fosse uma menina procurando o consolo do pai após um tombo ou uma travessura pela qual foi punida. Os olhos inchados, sua boca logo se acolhe à minha em um demorado beijo. Depois, volta a enlaçar meu pescoço com ambos os braços e aninhar-se em meu peito; parece não se importar com a possível chegada de alguém. Demoramo-nos nesse abraço por muitos minutos.

"Eu... também estou grávida", lança, de chofre.

Incapaz de articular qualquer palavra, aperto-a ainda mais contra meus braços. Gostaria que esse abraço não terminasse nunca mais, mas tão logo esse pensamento se forma, o momento seguinte já se apresenta, impiedoso, à minha frente. Muitos outros minutos se passam dessa forma. Terei mais uma criança?

Verdade seja dita, sempre imaginei Renata como mãe de meus filhos. Quando a conheci eu namorava outra menina. Quando terminei esse relacionamento, ela teve um noivo. E quando rompeu o noivado, eu estava casado com Sara. Nessa confusa dança na qual sempre nos tangenciávamos sem nunca de fato formarmos um par, nunca deixei de pensar nela e, mais tarde, acabei por dormir com ela.

Mesmo nesse momento tão delicado não posso me privar de imaginá-la como mãe. A imagem de seu seio nu, o mamilo onde uma gota cristalina de leite brota, a aréola castanho-escura, e os contornos delicados, e depois a boca faminta de um bebê a sugá-lo. Do mesmo modo como eu próprio meses atrás os sugara, ávido e encantado, como quem descobre a resposta de um terrível dilema. Um mundo morto e uma vivaz cólera urgiam-se dessas impressões: como eu poderia amar ao mesmo tempo duas mulheres? Ou talvez fosse a pergunta errada — isto é, como seria possível que eu amasse e vivesse por uma única mulher? Talvez haja no homem espaço para infinitos amores, e na sociedade a exigência de um só. Esse é um oxímoro intransponível, do qual nasce a hipocrisia e a mentira, e a partir do qual se funda a base desonesta da sociedade. Posso, sim, amar duas mulheres e dois filhos, pois, afinal, aceitar um sentimento não implica necessariamente sacrificar todos os demais.

Renata afasta o corpo. A maquilagem está borrada, desenhando arabescos negros de rímel na face inchada. Ela levanta-se e pega algumas toalhas de papel. Lava o rosto e, tomando de uma pequena nécessaire em sua bolsa, retoca os estragos de seu colapso. Estou sentado, e ela vem até mim e, em pé, abraça minha cabeça e me puxa contra seu ventre; sua mão faz uma carícia tímida em meu cabelo; também aqui pulsa um novo coração, uma vida imprevista, a promessa efervescente de algo jamais prometido. Abraço sua cintura. Ela se despede, sentenciosa:

"Tenho que ir preencher o atestado de óbito" — os olhos turvos, um riso lúcido e contido de melancolia.

Estou sozinho no recinto. De quando em quando, alguma enfermeira entra na sala, observa-me com o rabo do olho, e a deixa novamente. A sala, sem janelas, lúgubre e gelada, é como um medonho purgatório no qual me encontro preso. A tela "Dois girassóis cortados", de Van Gogh, imediatamente me vem à cabeça. Para desviar o pensamento de minha própria vida, penso na criança que recém faleceu.

A morte de cada criança é também um memento mori de minha própria morte: sou finito, sou mortal; também a minha morte vigia-me em algum canto, em alguma ala ou esquina da cidade, e quando se apresentar o momento oportuno, como um pai que procura por um filho desaparecido, um travesso fugitivo, há de me encontrar e de me levar de volta para casa. Colocar-me de castigo na eternidade — ou no inexprimível nada. Talvez atribuir esta imagem paternal à ideia da morte torne-a menos ameaçadora, mais tragável.

Sim, sou finito, e mesmo assim parece que sobreviverei em duas outras existências, como uma flor digerida que oferta seus nutrientes às próximas. O mundo se renova com uma sagacidade incrível, num golpe brutal à nossa insignificância, seres sazonais e explicitamente desnecessários; para nós, as moscas-das-frutas são desprezíveis pois vivem apenas um dia; em nossos muitos anos, achamo-las todas iguais e repetidas, e não daríamos por sua falta se deixassem nossas frutas em paz para sempre. Que seremos nós, então, que somos muito mais breves do que esses insetos quando nos colocamos frente aos olhos do universo? Na longa linha da história, dificilmente eu represento um ponto sequer.

Olho para o relógio. Meu expediente encerra em meia hora. Endireito o corpo, como um animal encurralado; sim, foi até aqui que a vida me trouxe. Ver alguém morrer torna nossa existência mais desesperada, vigorosa. É como um estado febril: "então isto é uma doença; então eu não valorizava meu estado normal, apenas vivia sem maiores implicações. Como fui tolo!" — pensamos. Mas a febre logo cederá e, em poucos dias, a doença ficará esquecida.

A este estado de normalidade dá-se o nome de indiferença. O homem normal é indiferente ao fato de estar vivo. A febre — a febre é apenas o pavor de descobrir que, mesmo esta indiferença, pode ser extremamente passageira.

***

O sol pôs em movimento um célere carnaval no labirinto de concreto da cidade: pagliacci, arlequins, pantaleões e scaramouches contracenam apaticamente no pátio do hospital; um vendedor mal-humorado oferece cachorro-quente e refrigerantes a esses tipos satirizados por escolhas invisíveis; as motos atravessam o caminho dos táxis, que por sua vez atravessam o caminho dos ônibus e estes o dos carros, e os carros o do pedestre, numa estranha cadeia alimentar de pressa e desrespeito; buzinas e impropérios pontuam este desfile, sinais ortográficos nascidos de caos e desordem. As roupas coloridas das mulheres lembram um circo, ainda que melancólico: vermelho, azul, verde, laranja, rosa, lilás; um arco-íris fragmentado em uma miríade, espalhado pelas veias de concreto da cidade.

Faço a primeira ronda da manhã. O bebê-kabuki melhorou muito nos últimos dias. Está perfeitamente curado das complicações e pronto para ir para casa. Seus pais também estão tomados de ares mais saudáveis, sorrisos que transbordam alívio e satisfação. Os três parecem prontos para formar uma família feliz.

Trato dos papéis de sua alta — o bebê que permanece sem nome. Mãe e pai apenas o chamam de "meu filho", "meu filho querido". Apenas outra vez anteriormente havia visto pais não nomearem o filho; àquela época, tinham medo de dar nome a uma criança que pudesse vir a falecer. Temo perguntar ao casal o motivo de sua demora. Apenas dou recomendações rigorosas e solicito que retornem em nível ambulatorial para que o bebê seja acompanhado pelos especialistas do hospital.

Entrego-me a vagar pelos corredores, meu querido purgatório pessoal. Conheço melhor essas alas tortuosas do que talvez conheça a mim mesmo. Quanto tempo passei aqui, quantas pessoas conheci? E por que depois de tantos bebês (duzentos? Trezentos?) me sinto conectado somente a um? E por que justo a esse? Somos tão parecidos, eu e ele, atores esquecidos num mundo de espectadores? Espanto o pensamento, como se afastasse um chumaço de moscas de um pedaço de carne podre, e conduzo meus passos para a enfermaria.

Encontro Renata. Quero dizer-lhe que poderei ser pai também de seu filho, que estarei com ela; que abandonaria agora mesmo Sara se ela também não estivesse grávida. Entretanto tudo o que meus lábios conjeturam é um patético bom-dia e um sorriso atabalhoado. Há duas vidas que preciso viver e só tenho direito a uma.

As horas transcorrem na ampulheta fosca do dia.

Recebo uma ligação. Minha esposa passou mal e está sendo levada para outro hospital; estará ela bem? Estará tudo certo com nosso bebê? No teatro Kabuki, o hanamichi ("caminho das flores") é utilizado para a entrada e para a saída das personagens principais no meio do público. Seria trágico, dessa forma, que Sara ou a bebê saíssem de minha vida por esse caminho, atravessando minha história, deixando-me só no palco. Não sei se esse sentimento carrega amor, egoísmo, ou uma amálgama extasiante de ambos; pouco me importa senão senti-lo plenamente. Não posso perdê-las.

Aviso minha colega do ocorrido. Peço para que ela me substitua; tenho apenas mais duas consultas no ambulatório, não deve ser um grande transtorno para ela. Digo-lhe que compensarei em outra oportunidade. Ela é compreensiva e deseja que tudo dê certo. Eu agradeço, com um sorriso constrangido por sua comiseração e ao mesmo tempo verdadeiramente grato.

Onde estarão os kurokos? O bebê-kabuki sai da UTI, melhora e parece estar pronto para ir embora do hospital. Meu bebê e minha esposa passam mal e estão indo para um hospital desconhecido, e não sei o que se passa com eles. Onde se escondem esses kurokos, terríveis abutres das horas, com sua lógica enferma, e o mecanismo despedaçado de seus atos?

Atravesso as claustrofóbicas e pálidas alas do hospital com destreza — conheço-as como se fossem minhas próprias veias e artérias, como se eu transitasse dentro de meu próprio corpo e procurasse uma saída, uma libertação. Estou próximo da saída; já posso ver o saguão de entrada, onde um cortejo de semblantes apreensivos e sombras recurvadas aguardam, fumam, falam aos celulares, calam-se. Súbito, entretanto, ouço uma voz muito próxima:

"Doutor" — ela me chama, debilmente, com a voz trêmula, e uma mão detém-me com um toque tímido no ombro.

Eu me viro. Há um breve momento de silêncio entre nós.

"Doutor" — repete. É o pai do bebê-kabuki. Um largo sorriso se abre em seu rosto. Ele me abraça, sem dizer palavra. "Ele vai ter alta, finalmente! Alta! Muito obrigado por tudo". Eu lhe digo que não fiz nada; apenas acompanhei o caso, não era sequer o médico responsável. Ele torna a agradecer. Por mais dois minutos, conversamos detalhes escusos do caso, ele tira uma dúvida que aparentemente não possuía e trocamos mais sorrisos. Enfim, ele lança de chofre, com sua franqueza cordial:

"Não creio que lhe dissemos. Com tudo o que aconteceu, não havíamos decidido o nome ainda. Tínhamos algumas opções, mas preferimos escolher depois. E o depois acabou sendo atrasado mais e mais. Enfim... escolhemos batizá-lo com o seu nome. Em agradecimento".

Um pouco confuso, agradeço sem jeito. Nunca haviam dado meu nome a uma criança, ou ao menos me comunicado a respeito de tal fato. Agora, estamos inextricavelmente ligados, eu e o bebê-kabuki. Ele jamais lembrará meu rosto, e eu jamais esquecerei o seu.

Seu pai aperta energicamente minha mão; seus olhos chegam a marejar. Sinto vontade de chorar também, mas estou com pressa até para isso; minha própria filha pode estar em risco. É meu turno de ser pai, talvez a primeira vez de muitas. Despedimo-nos.

Meus pés enfim deixam o saguão. E na verdade parece que deixam um sonho. Como estará Sara? Como estará minha filha? Posso ouvir as batidas de seu pequeno coração se alastrando pelos meridianos compactos do firmamento, dando movimento às estrelas e colorindo os céus, movendo dias e noites, animando as horas e soprando o vento; posso ouvir o sussurro de seu sangue como uma sinfonia em meus ouvidos, entrando em meu corpo e ali se aninhando para sempre, como uma ideia indissolúvel, uma memória, uma cicatriz. Os fios invisíveis do titereiro que anima meus passos céleres, meu próprio coração que pulsa, ansioso e desencantado, premente de angústias.

Na porta do hospital, uma mulher vende flores. Compro girassóis.