Meu Nome é Kafka — Librenza Garcia

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Meu Nome é Kafka

Olá. Meu nome... meu nome será Kafka. Creio que se trata de um nome muito bom. E a partir daqui, meu nome real não existe mais.

Eu vivo sozinho em um apartamento de um dormitório, acompanhado somente por um gato. Sozinho — mas acompanhado de um gato. O nome do gato será... Franz. Assim, somos uma coisa só, complementar, e sinto-me mais confortável não sendo apenas eu. Franz é um gato de pelo negro, tal qual um corvo, de olhos brilhosos, arisco, que raro me dá bom dia ou adeus, mas que come pontualmente a gosma que eu coloco em sua tigela no começo e no final do dia. Às vezes tenho a ilusão de que ele não mora comigo, mas que, pelo contrário, apenas me visita para se alimentar, como se meu apartamento fosse sua loja de conveniência. Mas Franz é um de meus poucos amigos, e não posso julgá-lo por isso. Além do mais, ele é um gato, e você não espera que um gato lhe seja devoto ou subserviente, como espera de um cachorro ou de uma amante.

Meu apartamento é bastante ordinário; fica em um desses prédios antigos, que pontuam as cidades como as rugas pontuam os rostos encarquilhados dos velhos, com fachadas insossas, remendadas, pintadas de cores de mau gosto e já desbotadas, onde sempre há senhoras de idade intrometidas e estudantes barulhentos coexistindo. O portão de ferro se abre ou com chave ou com um toque do interfone pelo lado de dentro do apartamento. São necessárias três chaves diferentes para que eu chegue ao meu, e isso me irrita profundamente, especialmente quando preciso ir ao banheiro com urgência, ocasiões em que acabo demorando ainda mais do que o normal para encontrá-las. No apartamento, possuo apenas alguns móveis canhestros, improvisados ou que foram enjeitados por outras pessoas; há um sofá velho, de cor creme, mas bastante encardido, o pano manchado pelo sol, que foi recolhido de uma vizinha que o estava jogando fora; bateu na minha porta e disse: "Sabe onde posso descartar um sofá? Não posso jogá-lo no lixo ou deixá-lo na calçada porque me cobrarão uma multa. Estive pensando em ligar para um tele-entulhos, você talvez conheça algum?". E eu lhe disse: "Posso ficar com ele?". Ela espiou para a minha sala e viu que havia apenas alguns caixotes em frente à tevê, embaixo dos quais eu guardava um punhado de livros e jornais velhos e que eram usados a guisa de bancos. Sorriu como um réptil, e disse que sim, bastava eu ir até lá buscar.

Na cozinha, empilho garrafas PET e latas de cerveja numa caixa de papelão; quando estiver cheia, jogarei na rua, com o lixo. Apesar disso, como bastantes frutas e vegetais, pois são baratos e assim economizo alguma grana. Meu banheiro é sujo e cheira como um banheiro de posto de gasolina... eu não o limpo frequentemente, e não tenho receio de admitir isso. Nada me seria mais desgostoso do que limpar de dois em dois dias meu próprio cheiro de urina e suor, incrustado nessas lajotas sujas. Felizmente, Franz faz suas necessidades em outros lugares, provavelmente na rua, e nunca em casa. Se ele as fizesse aqui eu o tocaria embora, pois o chão de meu apartamento é revestido por um carpete feio e muito difícil de ser limpo. Não tenho porta-retratos, telefone ou um guarda-roupa. Guardo minhas roupas em caixas, ao lado do colchão, e não me recordo se alguma vez já fui fotografado. Não, também não tenho uma cama, mas não me importo, pois desde pequeno sempre preferi dormir no chão.

Minha vida é bastante simples: eu tenho uma moto e entrego coisas de lá para cá. Muitas coisas. Qualquer coisa, até. Não converso muito com os outros rapazes que trabalham na mesma companhia, rapazes que levam vidas normais e sensatas, de acordo com o que se espera de todo mundo. Eu não quero levar a vida desse modo, e por isso sou quieto, quase mudo, e estou certo de que eles não têm uma impressão muito positiva a meu respeito. Eu não os culpo. Eu não gostaria de alguém como eu se eu próprio fosse uma pessoa normal, sensata. Mas não é esse o ponto, exatamente.

Franz está deitado no sofá, ronronando, quando eu tomo a resolução. É noite, mas as estrelas no céu estão embaciadas por essa claridade mortiça, banhada pela procissão de lâmpadas da rua, outdoors e janelas de apartamentos iluminadas, formando um escudo reluzente que parece esconder a cidade. Nessa noite, eu decido que quero experimentar algo novo, visto que sei que viverei para sempre do mesmo jeito, indefinidamente; quero correr riscos e não chegar sempre em casa até o dia em que Franz morrer na rua e não retornar mais para comer aquela ração nojenta de sua tigela. Não quero repetir meus dias até que me encontre louco, ou que então tenha um derrame, e seja jogado em uma emergência lotada para, instantes depois, ser depositado dentro de um saco preto do mesmo modo que os donos de cães depositam o excremento destes quando os levam para passear no parque. Não quero ser descartado para apodrecer quando já estiver velho e indigente; não há nem glória nem dignidade na superfície desse adeus. Destarte, calculo com frieza e afinco uma morte mais brutal e precoce. Definitivamente, não quero morrer velho, posso garantir isto.

A resolução está tomada, como eu disse. Franz não desconfia, posso sentir na sua postura esguia e costumeira que ele não faz a mínima ideia. Muitas vezes, creio que ele nem nota que existo — decerto pensa que a comida simplesmente aparece no prato, por um passe de mágica, duas vezes por dia. Mas Franz logo saberá de minha decisão: nas próximas semanas, experimentarei uma sensação nova, descabida: quero matar outro ser humano.

Primeiro me passou pela cabeça matar um animal; catar um gato vagabundo da rua e estrangulá-lo na frente de Franz, curioso do que aconteceria. Mas Franz provavelmente apenas iria embora. E um gato é apenas um gato, não importa o que digam. Se bem que, quando muitos seres humanos morrem, é às vezes menos triste do que quando morre um gato, para muitas pessoas. Talvez não sejam os meus valores os mais distorcidos, no final das contas: morrem gentes todos os dias nesses noticiários repetidos da televisão, mas as velhas senhoras choram quando seus gatos morrem babando e contorcidos por estricnina, mesmo que seus gatos não chorem por elas quando elas escorregarem em seus banheiros, rachando seus crânios como uma fruta podre que se abriu em lascas ao cair no chão, vertendo sua polpa. Quando muito, lamberão seu sangue e voltarão para seus afazeres, com ar de modorra e pragmatismo.

Ocorre-me então que, se eu não puder matar um ser humano, gostaria deveras de morrer tentando: ser assassinado, portanto. É isso. Decido que primeiro tentarei ser assassinado. Se a maldição se abater primeiro sobre mim, não precisarei cortar o fio condutor da vida de ninguém, nem interromper o curso de uma existência. Darei essa vantagem para o mundo, para o destino, como a criança que na brincadeira de esconde-esconde conta até cem antes de procurar seus amiguinhos. Essa será a vantagem.

Franz não está em casa nesse momento; com a mente eu traço meus passos para a semana, como se fosse um general estudando o inimigo. Decido perambular durante sete dias pela noite da cidade, sem rumo, esperando que a morte me encontre e me tire para dançar. Se eu não for morto, buscarei a partir do oitavo dia uma pessoa para assassinar, como quem busca o presente ideal para entregar a um grande amigo. No fundo, desejo tanto morrer quanto desejo matar, e aquele que me for possível me deixará satisfeito.

Na primeira noite, bem como na segunda e na terceira, nada de extraordinário se passa. Vago pelo labirinto de piche, através das aleias de árvores caducas e velhíssimas, sem que nada incomum ocorra. Alguns taxistas fazem menção de parar, vendo-me em lugares ermos e estranhos à alta noite, mas minha falta de interesse logo impele seus pés novamente à língua do acelerador, calando sua intenção. Muitos passam com medo de que eu seja um assaltante ou um louco. Quando vago pelo grande parque, e passo próximo ao colégio militar, alguns michês vêm ao meu encontro perguntando se eu quero seus serviços; nego, não estou interessado. Não sinto nada por eles que não uma compaixão inata. Até me atravessa a ideia de matar um michê, mas me parece uma solução simplista e equivocada, logo de cara; além do mais, não desejo que esse assassinato se revista de qualquer significado político, social ou preconceituoso, se é que há um discernimento claro entre essas três esferas. Parece-me que não, que não há. Além do mais, simpatizo com a felicidade viçosa e o ar de modorra deles. Parecem-me inofensivos; sinto-me em paz perto deles. No terceiro dia, entretanto, um deles se aproxima e pergunta se, afinal, eu estou competindo com eles; que eu não poderia, ao menos não sem me apresentar e combinar certos detalhes. Eu retruco que não, não estou competindo, não sou um michê. Apenas estou caminhando pela noite porque quero encontrar algo. Ele me olha, como se eu fosse um alienígena, e diz que tudo bem, então. Pergunta-me o que estou procurando, mas eu digo que não posso lhe informar. Tranquilizo-o de que não é nada com ele ou com os outros rapazes. Decerto desconfia que eu seja um jornalista ou um policial, ou outra coisa que o valha, não sei ao certo o que lhes assusta ou o que lhes fascina. Tampouco me importa.

A noite, no ventre da cidade, é um segundo mundo que se descortina. Miríades de faróis cruzam por mim, indolentes, incólumes, e continuam a passar, como num cortejo surreal. Essa vida secreta e noturna fermenta sob a umbrela do espaço, cheia de sombras e rostos escondidos; figuras cambaleantes e carros com vidros fumê. Minhas pernas doem e, com sorte, meu trabalho no dia seguinte está reduzido porque decido pegar apenas meio turno, durante o período da tarde. Não são poucos os bêbados ou mendigos com que cruzo. Muitas vezes, a linha entre ambos é tênue; o mendigo está com uma garrafa de bebida alcoólica embaixo do braço, caído contra a parede; o bêbado não sabe onde está a sua casa e já esgotou sua garrafa de bebida, e agora perambula como uma alma condenada pelo purgatório da noite; alguns cantam alto e dizem impropérios a árvores ou cachorros. Também simpatizo com eles, e noto que seria incapaz de assassinar um infeliz assim. Fica claro que eles morrerão pelas mãos da vida, do tempo, jamais pelas minhas próprias.

Vagando pelas ruas menos nobres da cidade, encontro um grupo de prostitutas. Elas me puxam pelo braço, chamam-me para fazer coisas hediondas e nefastas e eu, eu nego, não quero nada sexual, não a partir de agora. Sinto um pouco de nojo delas, ao contrário do que sinto pelos michês, justamente porque elas têm de se deitar com homens nojentos, enquanto os homossexuais costumam ser encantadores e instigantes. Também há nelas certa baixeza de modos e ânimo que não se apresentava no rosto dos michês; até a vulgaridade destes me parece mais profunda e simbólica que a delas. Nego repetidas vezes, e um dos cafetões se irrita comigo e diz que se não estou interessado, que eu vá andar por outras bandas, estou fazendo ele perder tempo e dinheiro. Chego a acreditar que é ele que vai me matar, no meio de todas as putas, e elas correrão como aves em debandada, chilreando com suas vozezinhas agudas, suas vestes multicores mal cobrindo a carne suada, e um carro de polícia tangendo o silêncio e as cores estáticas com seu vermelho-azul vomitado vêm fazer a ocorrência e identificar meu cadáver. Mas ele logo se sossega e me deixa em paz; deve pensar que sou louco ou bêbado. E como não quisera eu ser apenas isso.

Apenas no quarto dia algo interessante ocorre; o destino quase dá cabo de mim, mas, por muito pouco, eu escapo com vida. Quando caminhava nas proximidades do reduto dos michês, pelas árvores esguias e meio assombradas do parque, que gemiam através de um vento fino e cortante, frondosas constelações farfalhando sobre mim, sou cercado por um grupo de jovens. A maioria tem cabelos raspados, veste-se de um modo extremamente peculiar e de mau gosto e, ainda por cima, estão meio bêbados e inflamados por sei lá que ódio. Gritam que eu sou um michê, empurram-me, e eu digo-lhes, com certa contrariedade, que não sou, que estou apenas vagando pela noite, esperando algo. Eles não me ouvem por sequer um segundo, e dizem coisas obscenas e me ofendem, embora eu não sinta humilhação moral nenhuma, visto que eles não se dirigem a mim, mas a uma ideia formada que não encontra correspondência em minha alma; mas eu me deixo ficar, como um espantalho cercado pelas aves que o ignoram. Eu poderia muito bem tirar uma faca do bolso e matar quatro ou cinco deles, e depois ser morto; mas eu não quero matar por raiva, isso não me seria cabível.

Então um deles desfere um soco em meu rosto e eu caio. Protejo o rosto com decisão, os braços enjaulando meus olhos e minha boca (não quero ficar deformado ou perder dentes) e eles me enchem de pontapés e socos, até que o meu corpo esteja florescido de hematomas e eu sinta meus ossos moídos; filetes de sangue escorrem de escoriações em minhas pernas e tronco, o gosto metálico e morno do sangue lambuza minha língua e meus lábios, quando então uma viatura os repele, como se fossem moscas tocadas por um rolo de jornal velho.

Os policiais me auxiliam; perguntam se eu sou um michê, e eu nego. Com certa relutância ouvem que eu estava apenas caminhando, peguei esse costume. Eles me alertam que a ideia de caminhar a essas horas é ridícula e perigosa, e que, a menos que eu seja um michê e fique próximo do meu grupo, eu não deveria mais fazer isso, pelo meu bem e pelo bem deles, que não desejam ficar recolhendo corpos espancados toda noite. Eu pergunto por que eles não vão atrás dos jovens, e eles riem. Ajudam-me a levantar e perguntam se eu quero ser levado para um hospital. Por um instante, penso em replicar que não, que não há necessidade, mas julgo que a experiência pode ser interessante. Além do mais, realmente meu corpo dói demais e eu não sei se conseguiria andar até meu apartamento nessas condições.

Eles colocam um cobertor velho no banco de trás para que eu não suje o veículo. Ocorre-me a ideia de matar os dois policiais, mas logo a afasto — primeiro porque não há a necessidade de dois assassinatos, apenas um me basta. Segundo, porque recairia novamente em um assassínio com algum sentido, e eu não desejo isso, realmente. A viatura anda em silêncio pela noite, e agora eu vejo as miríades de faróis passarem como se eu estivesse em queda livre de um prédio, a alta velocidade, tornando-se logo feixes imprecisos que lembram os tiros a laser dos filmes de ficção científica, que não raro são exibidos de madrugada com péssima dublagem nos canais desconhecidos de minha televisão.

Enfim, chegamos ao hospital. Eles me atiram num banco e avisam a secretária, que parece que já os conhece; talvez esteja alertando que eu sou um michê, apesar de repetidas vezes eu lhes ter negado. Não sei se isso acontece muito ou não. Eles logo vão embora sem se despedir.

Eu não espero muito tempo na emergência, sentado nas cadeiras brancas de plástico, em meio ao séquito de caras amassadas e contorcidas de medo e de dor que contemplam o vazio da luz pálida que emborca o recinto, com seu halo merencório, pois logo sou conduzido para dentro. Fazem-me perguntas, examinam meu corpo estropiado e realizam alguns exames de imagem; concluem que não houve um traumatismo sério, mas sim escoriações graves, e fazem alguns pontos na minha cabeça, onde só agora eu noto que estava também sangrando, e em minhas costas, onde outro ferimento maior está presente. Quem me atende é uma jovem simpática e prestativa, e eu lhe explico que apenas estava andando àquela hora da noite, antes que também ela me pergunte se sou um michê. Leio seu nome em um crachá. Parece-me que essa cena não é mais parte integrante de minha vida, mas sim de um filme muito antigo e ruim que eu assisti certa feita. Procuro pelas câmeras, mas logo desisto da ideia, que é tão ridícula quanto andar à noite em busca da morte. Sou liberado e caminho até em casa. Não fica muito longe desse grande hospital, de qualquer maneira.

No quinto, no sexto e no sétimo dia, nada de extraordinário acontece. Agora é o meu turno de jogar.

***

Primeiro, eu preciso encontrar uma vítima. Essa tarefa, na verdade, é mais difícil do que eu imaginara. Não quero matar em público, ser interrompido ou linchado, sujando assim a beleza efêmera e libertadora do momento; não, isso não me serviria. Preciso escolher a vítima, talvez segui-la, preparar uma emboscada e levá-la ou a um local deserto ou então ao meu apartamento, a depender de se eu quiser ser inocente ou culpado depois. Ou, então, escolhê-la num impulso, ao acaso, do mesmo modo que os felinos escolhem suas presas, desfiando-as em seus dentes ávidos, mas com a placidez saborosa da vitória.

Decido vagar pela cidade durante o dia. Dei à noite a chance de me assassinar, e ela falhou; agora atravessarei o dia trajando meu silêncio limpo e engasgado, procurando até o fastio alguém para furtar a existência à força. Pergunto-me se isso acaso inflaria a minha própria, tornando-me mais móvel e feliz; se o fato de absorver a vida de alguém me encheria como o gás que enche um balão, e me permitiria voar, de um modo metafísico. Como todas as perguntas que sou capaz de formular, também esta me parece tola e descabida.

Quando Franz termina sua comida e pula pela janela de meu apartamento térreo, também a minha fisionomia se contorce para a espreita e para a liberdade, e meus músculos, embora eu não os veja diretamente, certamente moldam uma máscara nova e inopinada em meu rosto. À revelia do que possa acontecer, sinto-me calmo e sereno. Meu espírito é como um lago calmo, em uma planície desabitada: nada trespassa sua existência, nada perturba sua forma ou seu interior; nunca, nos mil anos que se foram ou nos mil anos que hão de vir, alguém passou por ali, de modo que o movimento e até mesmo o tempo não possuem significado algum aqui. O sentido de algo depende de alguém que o interprete, caso contrário, não existe, mesmo que o que ele tencione representar exista. Os sentidos são deformidades açoitadas pelos homens, e em meu espírito os disparates estão todos enforcados lado a lado, com suas línguas postas para fora e os rostos azuis e gélidos. Do lago de meu espírito, a culpa e o temor estão banidos, incapazes de penetrar ou perturbar o bojo de sua conformação.

Também me dou uma semana de prazo. No primeiro dia, vago como um espectro pela cidade, e salvo uma pessoa que, ao trombar comigo, pede desculpas atravessadamente, e as inúmeras mãos que se esticam com papéis pelos quais não tenho o mínimo interesse em apanhar, essa sensação praticamente se confirma. A maioria das pessoas ignora minha existência, como eu anteriormente já ignorei a delas. Mas, a despeito disso, me encanta que elas sequer suspeitem que eu, por quem um dia elas já cruzaram, serei um assassino, ou talvez até o assassino de uma delas. O segredo jamais dividido é um santuário revigorante para aquele que o possui.

Entro em um centro de compras; seu imponente prédio, de tons claros, desenha-se como uma oferenda para a modernidade da qual sou filho. As inúmeras lojas em seu interior parecem uma feira. Vejo as pessoas entrando e saindo, com ou sem sacolas: elas comem sorvetes, falam em seus celulares, andam de mãos dadas, empurram carrinhos de bebês e riem e falam alto, numa oferenda sequiosa, porém ignorante, à vida. Elas consagram a mesma modernidade que me repele, que me ilha e que me transforma em assassino — não por condição do meio, mas por necessitar voar da modernidade como a donzela que foi cercada por agressores prefere voar da alta torre em que se encontra a entregar-se à violação. Vou desferir um golpe pontual na modernidade, sei disso. Sei também que esse gesto passará em branco e no dia seguinte estará superado; sou uma pulga tentando derrubar um elefante. Mais que tudo, lembro que essa não é, em hipótese nenhuma, a minha intenção, embora a ideia per se me bajule tanto.

Delineio alguns alvos, mas logo os risco mentalmente de minha lista imaginária, com a tinta do desinteresse tácito que me acomete em repentes: um garoto, de mochila, que, falando em seu celular, parece cansado e aborrecido. Uma menina, solitária, sentada em um banco da praça de alimentação, com cara de quem foi deixada esperando por alguém que não virá. E um velho senhor, que, curiosamente, sorri para mim enquanto estou a olhar a capa das revistas em frente à vitrine de uma das lojas.

Deixo o centro de compras e vago por mais um tempo; passo por alguns bares, onde os jovens e aqueles que ainda se iludem que são jovens falam em alto tom, numa composição tão grande e diversa de ruídos que tudo se torna uma coisa só, amortecida, um solilóquio zunido, proclamado por um imenso e etéreo inseto através da noite premente. Quando escurece, retorno para casa.

Repito a mesma rota no segundo dia. Chego a considerar uma mulher, muito elegante, a esperar na parada de ônibus, mas demovo-me da ideia, não sei bem por quê.

No terceiro dia, porém, entabulo uma conversação com uma estudante, enquanto esperava sentado num dos bancos de madeira do grande parque central de uma inspiração para onde seguir. Como um gato, eu esperava no sol que algum impulso assomasse por meus músculos e ossos.

Ela senta-se ao meu lado: tem olhos lustrosos, veste uma blusa branca curta e sem mangas que destaca o busto de tamanho moderado. É, a seu modo, atraente, e fala de um modo doce, querendo denotar uma naturalidade cordial que certamente não lhe cai bem. Está nervosa; algo em mim o detecta. Ela começa a conversação com calma, como uma cobra ao se aproximar de um rato, aproveitando-se do momento de hesitação deste que, em vez de correr desde já, espera primeiro não ser visto. Assim, eu deixo-me levar. Logo conversamos sobre os mais variados temas, e ela faz questão de concordar comigo em pontos que eu próprio relutaria em concordar. Os tópicos se estendem e ela finalmente pede meu número de celular. Eu digo que não uso um aparelho celular, e ela se mostra surpresa. Um pouco encabulada, pensando que talvez eu tenha mentido, o assunto envereda por esse caminho e, enfim, ela toma uma caneta da bolsa e me dá seu número anotado. "Se quiser me ligar, podemos sair uma hora dessas."

No quarto dia caminho para o lado contrário dos que andei nos dias anteriores, mas nada encontro. Meus movimentos estão embolorados na mesmice da cidade, e furtivamente sinto que vou vagar para sempre sem jamais satisfazer meu ímpeto. Cogito desistir, achando minha intenção ridícula, para logo a seguir ridicularizar a própria cogitação de brecar a intenção. O quarto dia se acabou e estou decidido a continuar, após breve embate interno.

No quinto dia, então, ligo para a garota. Ela marca um local: será em uma determinada boate, que eu obviamente desconheço, dentro de dois dias, e nos encontraremos à uma da manhã junto ao bar. Tenho agora uma vítima e um local, e o encontro coincide justamente com a noite do último dia de meu prazo. Não obstante, caminho durante o sexto dia, e gasto minhas economias comprando roupas, perfume, algumas flores (um ramo de copos-de-leite) e lençóis brancos, novíssimos. No sétimo dia, peregrino pela cidade, menos alarmado com o dever de encontrar e com a paz de quem já conseguiu o que queria. Algo curioso, entretanto, acontece.

Dois jovens passam por mim conversando; geralmente, quando pessoas caminham próximas a mim, escuto suas conversas e, na maioria das vezes achando-as ridículas, imagino se não vivem de modo mais enganoso ou até criminoso que eu. Matar é algo tão grave quanto desperdiçar algo maravilhoso como a existência do modo que elas desperdiçam? Por isso tudo, não posso deixar de entreouvir. Falam sobre outra festa, em outra boate, mas na mesma noite. Falam alto, não apenas para um ouvir ao outro, mas para que o mundo ouça a respeito de suas vidas, de seus funcionamentos e do status que tentam incutir em suas imagens. Uma chama em mim reverbera e se aviva, como se combustível fosse jogado sobre ela. De algum modo, eu sei que é para lá que eu tenho de ir nessa noite, e não para o encontro da outra mulher, que ficará me esperando no bar até uma e meia, duas horas, e encontrará outro alguém para preencher suas necessidades físicas e psicológicas. De qualquer modo, até já esqueci sua face e seu nome.

Penso que ela não me odiará tanto se chegar a ler nos jornais que, na mesma noite em que marquei com ela, acabei assassinando outra pessoa no mesmíssimo horário.

Coloco um jarro com os copos-de-leite ao lado de meu colchão e estendo os lençóis sobre ele. Visto-me com a camisa de fina qualidade e a calça macia que comprei, coloco as meias e calço os sapatos, borrifo alguns jatos do perfume recém-comprado contra meu corpo. A essência é cítrica e me causa um arrepio. Noto que Franz não está em casa; deixo sua comida a postos, e me preparo para sair. Ganho as ruas, galgo sua frieza e entro em um táxi. Logo estou na boate.

O ambiente é extremamente desconfortável para mim; a música é alta ao ponto de deixar as pessoas surdas, gritando umas nos ouvidos das outras; as pessoas se empurram, se agarram, se tingem como se fossem milhões de cores viajando em uma paleta caótica. Procuro a face dos dois jovens nela: talvez eu deva matar um deles. Mas não os vejo. Ou, talvez, em meio a todas essas faces iguais, todas elas desejando possuir a um outro, a ter a consciência de si superficial e física que tanto as apetece, eles tenham se diluído nesse frenético caldo social. Tento agir com naturalidade; movimento-me como se dançasse, seguindo seu estranho ritual, tornando-me parte dessa uma coisa só, amorfa e insossa. Compro bebida uma, duas, três vezes. Paro, pois quero estar sóbrio para não distorcer minha percepção ou deformar meu plano.

São duas da manhã. Já conversei com duas meninas, mas não pude ir adiante. Algo me freou; talvez não fossem as pessoas certas.

Finalmente, pelas três horas, vejo um rosto familiar. Aproximo-me da moça e pergunto-lhe, já avisando que minha pergunta vai parecer ensaiada ou clichê, de onde nos conhecemos, porque ela realmente me parece familiar. Fico surpreso com sua resposta e com seu sorriso amigável: "Eu dei os seus pontos! Lembra? No hospital?".

Sim, é a médica que me atendeu na noite em que fui espancado por pensarem que eu era um michê. Ela se mostra surpresa e conversa demoradamente comigo. Pergunto por que ela está sozinha, e ela me diz que veio com um grupo de amigos, contra a sua vontade, e que agora eles se dispersaram, bêbados, pela festa. "Estava mesmo pensando em ir embora." Mas conversamos pela próxima meia hora e, sentindo que cada vez mais ela se inclina a tocar suavemente meu corpo com sua mão azada para a insinuação, a dançar próxima de meu corpo e a falar em meu ouvido, rindo estridentemente, enfim colo nela o suficiente para deixá-la com um olhar suspenso e lascivo, flertando a menos de um palmo de minha boca. O beijo logo acontece, catártico, e por um bom tempo flutuamos nessa atmosfera única e cerrada, como se num patamar acima de todo o resto da festa; enrodilhamo-nos dançando numa espécie de dança primitiva, numa oferta a deuses desconhecidos, mas que mesmo assim ditam nosso caminho. "É ela que matarei", penso. Ela me pergunta acerca do que estou pensando; eu a beijo em resposta, com um sorriso resguardando meu rosto.

Quando estamos saindo, deixo-me ser visto de mãos dadas com ela por várias pessoas, de propósito. Não vejo a necessidade de um álibi, pois não desejo cometer o crime perfeito, situação que me levaria ao risco de querer repeti-lo incontáveis vezes. Não desejo banalizar minha ação ou transformá-la em hábito. A moça se despede de alguns amigos, que fazem pilhérias — acredito que acerca do fato de ela ir embora em minha companhia, mesmo tendo sido forçada a vir esta noite. Creio que as mesmas pessoas que fazem piadas agora se culparão amanhã.

Durante o trajeto de táxi desfilam todas as luzes esquizofrênicas da cidade e dos carros desabaladamente a embalsamar a escuridão. O taxista é taciturno e parece apressado. Eu e a moça limitamo-nos a olhar um para o outro, e a trocar carícias com a ponta dos dedos pressionando ou esfregando a pele um do outro.

Minha mente agora se debruça sobre detalhes desimportantes de minha própria existência. Creio que isso acontece, pois, ao matar a moça, de certo modo estarei me condenando também; embora agora eu veja que essas lembranças são inúteis, pois, em pouquíssimo tempo, estarei acabado tanto para a vida como para a morte. Deve ser assim também com o prisioneiro que anda pelo mofado e sombrio corredor que o levará à inconsciência súbita, perdido em divagações indômitas, com poucos segundos para pesar toneladas de lembranças, selecionando-as ao léu, ou ao sabor da evocação.

Mas o táxi finalmente chega ao destino. Descemos ambos. Eu estendo as notas para o homem desinteressado, que as apanha, e digo-lhe que fique com o troco. Ele agradece, sem muito entusiasmo, e logo está acelerando, tingindo com o vermelho ibérico de seu carro a película embaçada da noite. Ela coloca seu braço ao redor da minha cintura enquanto subimos.

Estou agora sentado no sofá, enquanto ela vai ao banheiro. Franz parece não estar em casa; onde ele andará, nesse horário? Invejo o seu direito de não ser humano, de caçar suas presas e de não construir uma civilização. Os animais devem achar nós humanos estúpidos, com tudo que erguemos, comparado ao quase nada que vivemos. Daria tudo para trocar de lugar com Franz e ser livre.

Quando ela retorna, gastamos uns poucos minutos conversando; peço-lhe desculpas por meu apartamento ser tão simples, ela faz pouco caso e diz que não se importa, até prefere assim, visto que mora com os pais e sua casa é luxuosa e impessoal. As frases débeis se perdem como sucedâneos inúteis para o silêncio, e logo deixamos os lábios falarem pelo contato em lugar da articulação de palavras. Mais à vontade, ela pergunta por que não vamos para o quarto.

Deitamo-nos embaixo do lençol branco; logo as mãos dela perscrutam meu corpo, seus beijos deitam-se com fúria sobre meu pescoço, seus dentes sobre meu ombro; com minhas mãos eu apanho seus seios, delineio seus mamilos entre meus dedos e os acaricio com minha língua. Ela está agora apenas em suas roupas íntimas, e retira com sofreguidão as minhas roupas; seu corpo resvala num vaivém indômito por sobre meu corpo nu, que já sente a umidade de seu sexo inundar o tecido branco que o cobre; com afinco, acaricio suas coxas, seus seios e deito meus beijos por seu corpo, enquanto ele rege uma abafada sinfonia de gemidos e suspiros, equacionando o corpo entre contorcer-se, rija de prazer, e baixar a guarda, relaxando os músculos. Ela toma minha mão e a guia para dentro de sua roupa íntima, solícita e descontrolada, como se fosse um trem desgovernado que ruma para uma construção maciça; já não consegue mais vincular seus lábios aos meus, e de sua boca apenas escapa um silvo ruidoso e entremeado de embriaguez.

Finalmente, ela retira a última peça de roupa e encaixa o corpo no meu; seus movimentos ora são bruscos, sincopados por uma violência ansiosa, e ora se desaceleram, tornando-se categóricos, sentinelas dos próximos golpes. Mudamos de posição algumas vezes e, enfim, ela vê suas forças se exaurirem, deixa escapar o último e mais longo gemido, e torna-se uma boneca, imóvel. Eu a deito e fico por cima dela, e em poucos minutos sinto verter do meu corpo para o dela toda minha bestialidade, em jorros caudalosos, ritmados e quentes de prazer. Estamos ambos entregues ao cansaço, e permanecemos abraçados por alguns minutos, sem nada dizer.

Olho através de seus olhos azuis como um relojoeiro para o mecanismo que lhe é tão querido olharia; por trás desse pequeno caleidoscópio aberrante de cores, brilho e juventude, que futuro se aprisiona, que desejos tiquetaqueiam? Sei, entretanto, que preciso me desvincular da pergunta, equacionar meu interesse apenas no ato, e não no pensamento, ou deixarei a parte dócil da humanidade anestesiar a bestialidade que coabita com ela. E tudo teria sido infrutífero até então.

Pois se eu olhar através de seus olhos e por acaso incorrer no erro de perguntar o que ela sente, e ela despejar suas reminiscências como quem oferece frutas frescas numa bandeja, serei traído pela curiosidade e pela empatia, e tudo se inverterá. Mais perguntas se forjariam, antitéticas e ansiosas por conciliação: poderei amá-la? Isso resultará que, um dia, a odiarei? A rotina hermética nos desorganizará ao ponto de sermos objeto um para o outro? Quando deitar ao seu lado de noite, pensarei na vida perdida, pensarei nas outras mulheres, na própria solidão, e nos filhos que poderia ter tido em lugar dos meus? Eis por que é tão importante não saber: se eu não criar laços, não terei de parti-los. E assim conservo essa rara minuta de liberdade para mim, e para mim somente.

Suas pálpebras se fecham. Ela coloca o rosto contra o meu tórax e boceja. "Me acorda daqui a pouco?", pergunta ela, num arremedo de espreguiçada, para logo em seguida completar: "Preciso descansar uns minutos, antes de ir."

Eu aceno com a cabeça. Espero que ela adormeça. Cansada e embriagada do jeito que está, ela sequer acorda quando eu a coloco em decúbito dorsal e a cubro com o lençol. Levanto-me e vou até a cozinha. Lá, apanho uma faca, seu cabo de madeira sustenta a inevitabilidade e a loucura que estão ressoando em sua lâmina cromada. Há um quê de poesia nesse brilho indefeso e ameaçador.

Volto ao quarto. Sob o fino lençol branco, o relevo de seus seios e o seu ressonar se anunciam, em perfeito e virtuoso desconhecimento dos minutos seguintes. Posiciono a lâmina perpendicularmente, na parte mais alta do abdome; vi na televisão que um corte profundo nesse local dilaceraria a aorta e causaria morte quase imediata.

Sem hesitação, afundo a lâmina na carne dela, retiro-a e, rapidamente, uma mancha rubra como o vinho impregna o branco do tecido, numa expansão vigorosa e incontrolável. Tapo a boca dela com minha outra mão, em concha, mas ela sequer consegue articular um grito; sinto o espasmo que atravessa seus músculos, a resistência em abandonar a vida sem aviso prévio, e seus olhos abismados e ignorantes tendo poucos segundos para entender demasiadas coisas. O brilho dos olhos é transformado em uma opacidade fixa, não menos bela, que se mescla à inércia a que o corpo se entrega. Apenas mais poucos minutos, e está tudo acabado.

Observo o corpo estático e a impressão viscosa de sua fugacidade que se gravou no lençol; pego os três copos-de-leite e os repouso sobre o local do ferimento; suas pétalas mancham-se dessa tinta escarlate na face inferior, e conservam a brancura irretocável na outra. Um miado se faz perceber na sala.

Sento no sofá velho, com Franz ao meu lado. Ele continua se lambendo, indiferente a tudo. Ele olha desinteressado para o arabesco sanguinolento em minhas mãos, e às manchas rubras em minha camisa, talvez até com certo enfado. Seu olhar parece conter mais aborrecimento do que repreensão, como se inquirisse: "Seu idiota, quem vai encher minha tigela daqui por diante?". Penso em responder-lhe: "Você sabe se virar. Sempre soube." Mas nada sai da minha boca.

Sinto uma estranha sensação de leveza. Fecho os olhos e estou nos campos da minha infância, cercado de flores e cachorros, que dançam numa ciranda confusa; uma música parece vir do longe, mas eu não consigo identificá-la. O céu está carregado, mas o ar é que parece ter se estagnado, se solidificado, e a cena toda repentinamente se congela; tudo ao meu redor se congela, e há apenas um pequeno perímetro no qual posso me mover. Noto que há uma faca à minha frente. Todos olham para mim, incentivando-me; tomo-a em minhas mãos e, segurando firmemente seu cabo, cravo-a em meu estômago e depois o giro. Sinto-me como se houvesse retirado uma rolha de um tanque que transbordava, cheio de água e sujeira, e tudo vai embora, drenado para um desconhecimento impalpável. Parece que minha alma escoa pelo ralo de meu estômago, libertando-me para o infinito.

Abro novamente os olhos. Observo o relógio de pulso em minha mão esquerda; limpo-o com a manga da camisa, para tirar o sangue que lambuza o visor. É passado das cinco da manhã. Franz levanta-se e se espreguiça, a coluna toda arqueada, a boca entreaberta, soltando um guincho estranho. "Deve ser o guincho da morte", penso eu, com o olhar de súplica e satisfação. Olho para os lados imaginando a velha senhora em sua túnica preta, apontando a foice para mim. Contemplo, então, a porta entreaberta do quarto e percebo que esqueci por um momento a existência da moça. "Talvez a morte esteja lá, ainda, como um abutre." Eu poderia retirar a moça dali, tentar dar um fim ao seu corpo e inocentar-me, mas esse seria um exercício inútil. Talvez o que eu buscasse desde o início fosse não só o crime, mas também a punição. Ou talvez sequer tivesse considerado que existia algo além do crime em si.

Uma ambulância rasga a noite com seus gemidos insones e patifes; esse barulho faz borboletas explodirem em meu estômago, e me enche de náuseas. Sonho com a faca em meu ventre, o ralo aberto de minha podridão. Calculo quanto tempo demoraria para que dessem pela falta da moça, recolhessem os depoimentos e chegassem até mim; ou até um vizinho denunciar o mau cheiro de seu corpo putrefato atiçando-se pela janela. Como seria se encontrassem meu corpo exangue no meio da sala? Franz ainda estaria aqui, cúmplice inequívoco dessa loucura?

Há muito tempo ainda. Jogo o corpo contra o respaldo do sofá e espero algum sinal de sono ou desespero denunciar-se em meu semblante. A ambulância sumiu ao longe como se eu houvesse asfixiado suas sirenes com as mãos de piche da noite.

Ouço os passos de Franz tamborilando em minha direção. Meu corpo está tão leve. Fecho meus olhos: parece que o mundo se dissolveu como um pedaço de pão abandonado em uma taça d'água, ou um barco de papel engolido pelo fluxo da chuva que se acumula à margem da sarjeta. Meu corpo já não parece meu corpo, e meus pensamentos já não parecem meus pensamentos. O mundo estará levedando? Ou estarei eu, acaso, morrendo?

Onde está Franz? Não sinto mais a sua presença na sala, mas estou certo de que ele não se moveu um centímetro sequer desde que cerrei os olhos; seu corpo de azeviche terá evaporado? Tento abrir os olhos, mas não consigo: estou preso; alguma transformação horrível se passa — talvez eu tenha sido engolfado por uma abstração, por um evento raro, e esteja me debatendo dentro de um arrependimento não anunciado, de uma vida desperdiçada. Mas como, se me sinto tão tranquilo? Haverá arrependimento já conformado? Ou isso é outra coisa, talvez? Talvez seja Deus me punindo por ter cuspido categoricamente em seus preceitos distorcidos, das regras aviltadas conduzidas e hauridas pelos homens. Um longo espasmo parece comprimir meu corpo, amassar meus ossos, rascar minha carne como milhões de dentes afiados — todos os odores do mundo, todos os sabores, os sons, convergem contra mim e eu sinto um desespero premente e denso me desintegrarem.

E então tudo se cala de uma vez, e um alívio agudo assoma meu corpo e me coaduna em algo novo.

Abro meus olhos. No sofá, o homem que eu era está com a cabeça pendendo para um lado. Estará morto? Aproximo-me a ponto de ver que seu tórax ainda balouça, como um lago sob a batuta da brisa, e tranquilizo-me. Franz está bem. Olho para minhas patas peludas, e depois novamente para o homem; admiro-me de como me é estranho o corpo que até segundos atrás eu ainda habitava. Um completo desconhecido.

Basta apenas um movimento rápido, inato, para minhas patas impulsionarem-se do carpete e encontrarem o parapeito da janela sob elas; um bafo fresco e promissor de noite se pulveriza entre meus pelos, espargindo sob minha carcaça a noção de minha própria metamorfose.

Com meu brilho retinto e movimentos ágeis, ganho o telhado vizinho, rascando com presteza o zênite da noite.