The Lighthouse — Librenza Garcia

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O Farol

"É estranho, sabe."

"O que é estranho?"

"Está silencioso demais lá fora. Dá para ouvir o silêncio. Ele pinga no meu crânio, um silêncio repetitivo, exaustivo. Você também não consegue ouvi-lo?"

"Agora que você mencionou, talvez consiga."

Ambos os homens estão agora olhando para as próprias mãos. Sentem frio, e provavelmente estariam tremendo se não estivessem repousadas em seus colos. Sentam-se em cantos opostos da pequena sala circular do farol. No meio, uma boca metálica desce para as entranhas do edifício, conduzindo a uma escada em espiral que se curva de volta ao seu início. Observemos melhor esses homens.

O primeiro homem é bastante alto, com uma barba desajeitada e mal aparada. Carrega uma expressão de desesperança e tédio, se tal coisa pode ser imaginada. De tempos em tempos, contrai o nariz, comprime as pálpebras e lança um olhar ao outro. Trabalham juntos há muitos anos, mas mal trocaram algumas palavras. Não sabem nada um sobre o outro.

E eis o porquê: o outro homem — de altura comum, peso comum, expressão comum — não quer que ninguém saiba sobre sua vida. Principalmente porque ele próprio não sabe muito sobre ela. Ele é um personagem de sua própria criação involuntária, sem ideia de qual é a peça, para onde ela vai, ou onde um ato termina e outro começa. Se a vida fosse uma casa, ele seria alguém apenas passando que foi convidado a entrar e aceitou apenas por polidez. Não obstante, é claro que ele não quer estar ali.

O homem alto ainda está inquieto com o silêncio interminável. Claro, foi um alívio ouvir a voz do homem comum, mas isso acabou agora. Dentro de sua cabeça, ele tenta falar consigo mesmo mas não ouve nada. O silêncio criou raízes profundas em seu cérebro e agora inunda seus pensamentos, encharcando suas memórias.

"Acho que vou dar uma caminhada."

O homem comum apenas levanta a cabeça, sem dizer nada. É incomum sair. Eles têm tudo de que precisam aqui. Em todos esses anos, ele nem se lembra de ter saído do farol. A comida se acumula — todo mês, alguém entrega caixas de comida e incontáveis garrafas de água. Roupas novas também. E tudo o mais. Eles só precisam cuidar do farol, vigiar a luz. Se não fosse por eles, a escuridão contaminaria o mundo, e o mar engoliria navios em seus dentes impiedosos.

O homem alto agora pode ser visto descendo a primeira escada, depois a segunda, mas o homem comum não ouve o clique da porta. Agora que está prestando atenção, não ouve nenhum passo enquanto o outro desce. Nada. Absolutamente nada. Ele começa a se sentir inquieto, mas não consegue permanecer assim por muito tempo. Rapidamente esquece esse estado de espírito desconfortável e retorna à sua indiferença atáráxica.

Uma hora se passa. A chuva começa a cair lá fora, como milhões de flechas tentando matar a luz amarela, sem saber que a luz é a alma deste mundo, não sua carne. Embora ainda não ouça nada, está, de fato, chovendo.

Então duas horas passam. Três. Quatro. Finalmente, um dia inteiro se vai. Ele adormece. Depois come. Termina a refeição e senta-se novamente no canto da sala, sozinho. O silêncio o cerca como líquido amniótico. O farol é um útero frio, mas ele não se importa nem um pouco. Afinal, ele nunca nascerá. Por um momento, tenta ouvir seus batimentos cardíacos, mas também estão silenciosos. Silenciosos demais.

Dois dias passam. Três. Depois uma semana. Ele ainda dorme, come, verifica as lâmpadas e lentes do farol, dorme, come, verifica as lâmpadas e lentes do farol — repetidamente, em silêncio.

Um mês inteiro se passa. Ele olha através das pequenas janelas circulares, mas lá fora há apenas nuvens, mar e, ocasionalmente, uma névoa branca e pálida. Tudo está deserto, e inquietantemente silencioso. Como o homem alto não está mais lá, o homem comum não fala. Com o tempo, ele até esquece como sua própria voz soa.

Alguns anos passam. Sete anos, para ser preciso. O homem alto nunca retorna. Os sons nunca retornam. Mas as caixas, as garrafas e as roupas continuam vindo. O farol continua funcionando. O que poderia ter acontecido com o outro? Ele desapareceu, fugiu ou morreu? Ou era apenas um sonho, e o homem comum sempre esteve sozinho desde o início? Essas perguntas não persistem por muito tempo. Seu coração atáráxico e voraz reduz tudo a migalhas. Sentimentos e emoções se tornam sobras — pensamentos fugazes. Talvez seja melhor assim, ele pensa, e depois esquece.

Mais anos passam — muitos, muitos anos. Ele não parece envelhecer. Ainda tem a mesma aparência: a mesma pessoa comum que sempre foi. É outra noite comum. Uma chuva leve mancha o mundo, e tudo se embaça, como se dissolvido de propósito. Como se alguém estivesse tentando apagar suas pegadas, encobrir as evidências. É possível, não é? Já levaram os sons.

Está quase na hora da entrega. Sempre acontece no mesmo dia do mês, por volta das oito da noite. Ele nunca viu o entregador, mas deve haver um. Desce a escada e abre a porta. Não há ninguém. O tempo passa: oito horas, oito e meia, nove. Ninguém vem. Ele sobe as escadas, dorme, acorda e desce novamente. Nenhuma caixa. Nenhuma garrafa. Nenhuma roupa. O mesmo acontece nos dias seguintes. Algo deve ter acontecido com o entregador, ele pensa. Talvez a empresa que mantém o farol tenha falido. Talvez o tenham esquecido. Ainda assim, ele espera. Espera uma semana inteira. Ninguém chega. A esta altura, sua comida e água acabaram. Seu estômago dói, embora não consiga ouvir seu ronco.

Pela primeira vez de que se lembra, ele abre a porta e sai. Caminha ao longo do penhasco, os olhos fixos no oceano. É infinito, provavelmente. Caminha por horas. Seus pés estão doloridos, e seu corpo está encharcado até os ossos. Então ele vê um feixe de luz amarelada. Outro farol. Talvez — apenas talvez — haja alguém lá. Comida. Roupas secas. Mesmo com os pés doloridos, ele corre.

A porta está escancarada. Ele entra. Não há ninguém dentro. No entanto, tudo parece perturbadoramente familiar. Atordoado, ele percebe que está de volta ao seu próprio farol. Como poderia ter caminhado na direção oposta e de repente retornado? Isso não é possível, ele tenta dizer — mas já não sabe mais como falar.

O clarão de luz corrói o cadáver imóvel do céu. Na carne escura e betuminosa da noite, a porta do farol se fecha.

O homem senta-se no chão e nota que alguém está ao seu lado, justo quando o silêncio finalmente se quebra — do modo como um lago congelado se quebraria se um avião em chamas caísse nele.

"É estranho, sabe."